####ELA ESTÁ FORA

696 Words
Anthony ficou sozinho na sala, mas não havia silêncio. As palavras de Antonella ainda ecoavam no ar como um veneno lento: “Eu vou arrancar tudo que é seu”. Ele se ergueu da cadeira, passou as mãos pelo rosto e caminhou até a janela. A cidade abaixo parecia indiferente ao que acabara de acontecer, mas dentro dele algo se partira. Respirou fundo, apoiando as mãos no vidro frio. — Eu deito nessa mulher há mais de um ano… — murmurou, consigo mesmo — e ela teve a coragem de me ameaçar abertamente. Dizer que vai tirar tudo de mim… A raiva subiu-lhe como fogo nas veias. — Eu fui um i****a — continuou, em voz baixa. — Achei que controlava a situação, mas ela sempre jogou mais sujo do que eu. Agora é claro: se ela é capaz de falar isso na minha cara, é capaz de muito mais pelas minhas costas. Fechou os olhos por um instante e viu a imagem de Hope, calada e firme na sala anterior, exigindo apenas respeito. A diferença entre as duas mulheres o atingiu em cheio. Uma ameaçava, a outra suportava com dignidade. Uma cobrava, a outra apenas pedia o essencial. — Eu tenho que me afastar dela antes que o contrato entre em vigor. — disse, convicto. — Antonella não vai destruir o que ainda nem começou. Virou-se, apanhou o telefone e discou sem hesitar. — Traga o doutor Barletta de volta. — ordenou à secretária da recepção. — Agora. Diga a ele que não é um pedido, é uma ordem. Desligou antes que houvesse resposta. Sentou-se novamente, os olhos fixos no contrato sobre a mesa. Sentiu a gravidade do que estava prestes a fazer, mas não havia mais retorno. Meia hora depois, o advogado entrou às pressas, ajeitando os óculos e a pasta de couro. — O senhor pediu urgência, Anthony. O que aconteceu? Anthony se levantou, caminhou em direção a ele e falou com firmeza: — Eu vou demitir a Antonella. O advogado arqueou as sobrancelhas. — Sua secretária? — perguntou, como se testasse se ouvira certo. — Minha amante — corrigiu Anthony, sem rodeios. — E minha maior fraqueza até agora. Eu quero que ela seja desligada da empresa ainda esta semana. Sem alarde, sem manchetes, mas de forma definitiva. Nada de cargos paralelos, nada de manter contatos. Ela vai sair. O advogado pigarreou, hesitante: — O senhor tem consciência de que isso pode gerar repercussão? Antonella tem um temperamento… digamos, difícil. Ela pode procurar a imprensa. Anthony sorriu, sem humor. — Eu conto com isso. Melhor que ela fale e se revele de uma vez, do que continue envenenando meu entorno pelas sombras. O que não vou permitir é que ela pise dentro da minha casa quando Hope estiver lá. Nem um passo. O advogado respirou fundo. — E quanto ao marido dela? Ele sabe… — Ele é cúmplice — interrompeu Anthony, com frieza. — E cúmplices só têm poder quando acreditamos neles. Eu não acredito mais. Houve silêncio. O advogado ajustou os óculos, avaliando o cliente. — Quer que eu prepare também um aditivo ao contrato com a senhorita Salazar? Para reforçar os termos de convivência, já que a senhorita De Luca estará fora do quadro? Anthony assentiu. — Exatamente. Quero que Hope e a irmã dela tenham garantias por escrito de que nada as afetará. E quero que esse documento seja revisado por Mark antes de qualquer assinatura. O advogado arregalou levemente os olhos. — O senhor confia nele mais do que em mim? — Eu confio no fato de que ele está do lado dela — disse Anthony, seco. — E é exatamente isso que preciso agora. O advogado calou-se, entendendo que não havia espaço para debate. Anotou as instruções e se retirou. Anthony voltou a se sentar, finalmente sentindo que havia dado o primeiro passo para quebrar o ciclo que o prendia. Não era amor que o ligava a Antonella — nunca fora. Era conveniência, era carne, era vaidade. Agora, pela primeira vez em muito tempo, ele sentia o gosto da libertação. E, ao fundo, as últimas palavras que dissera ecoavam como um mantra: — Ela está fora.
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