####O VENENO DE UMA AMANTE

1192 Words
A sala de reuniões parecia um mundo à parte: paredes de mogno, luzes calculadas, o silêncio pesado que as famílias ricas cultivam como se fosse um bem precioso. Antonella se manteve imóvel por um segundo a mais do que devia, sentindo a frieza do ponto final que Anthony acabara de colocar entre os dois. Por instinto, aproximou-se mais — metade sedução, metade exigência — pronta para transformar qualquer hesitação dele em concessão. Ele, porém, não deu espaço. Seus olhos, antes frios, agora tinham algo de cortante. Anthony tomou o centro da sala com passos medidos, apoiou-se no tampo pesado da mesa e falou, com voz baixa, sem rodeios: — Você acha que pode me controlar? — começou. — Que pode vir aqui com birra e exigência, como se tudo fosse seu por direito? Está enganada. Antonella ergueu o queixo; a resposta vinha automática, víbora com laivos de charme: — Eu não exijo nada além do que é justo. Você sempre me deu o que eu quis, Tony. Então por que agora seria diferente? Ele sorriu, curto, num movimento que não foi de afeto. Seus dedos tamborilaram na madeira e, em seguida, voltou a encará-la. — Em primeiro lugar, você não tem que ficar exigindo nada de mim. Porque só quem ganha aqui é você. Eu não tenho compromisso nenhum com você. Quem está comprometida é você. Antonella fez um biquinho teatral, mas a voz de Anthony a interrompeu com maior firmeza ainda. — E outra coisa: eu jamais me casaria com você. Porque o que você fez com o seu marido, você faria comigo. Esse é o seu jogo — disse ele, tão direto que as palavras cortaram o verniz do vestuário elegante dela. Ela arregalou os olhos como quem recebe um golpe inesperado. O sangue subiu-lhe ao rosto, não apenas pela humilhação, mas por ver que a tática de conquistadora que sempre funcionara agora escorregava em pedra lisa. Recuperou a voz com ímpeto: — Você fala como se eu tivesse escolha, Tony. Eu te dei tudo que você queria. Eu me entreguei. Eu não sou nenhuma v*******a — pressionou, tentando transformar vergonha em acusação. — Nosso caso é nosso caso — continuou ele, inabalável —. Mas o meu contrato com a moça é o contrato. E você não vai interferir, você não vai humilhar, você não vai fazer nada. A ameaça era simples, sem floreios. E veio o complemento, seco como uma sentença: — Porque se você fizer, você está fora. Por um segundo, Antonella engoliu em seco. Orgulho e raiva travavam uma batalha dentro dela. Era a primeira vez que alguém do círculo íntimo o colocava em termos tão objetivos: “fora”. Tudo que ela sabia responder até ali era com manipulação, insulto ensaiado ou chantagem sutil. Agora Anthony dera-lhe um aviso juridicamente limpo: a permanência dela dependia do seu autocontrole. Ela respirou fundo, rindo alto, um som que não alcançou os olhos. Caminhou até a janela, apoiando-se no parapeito, como se contemplasse a cidade, e falou baixo, por fim: — Você acha que me controla? — replicou, com veneno na fala —. Ao contrário do que seu avô pensa e do que todo mundo acha, você não me controla. Nem você. Não me mande recuar. Anthony cruzou os braços, a expressão firme. — Eu não te controlo. — disse ele, com frieza calculada. — Nós temos um acordo. Você tem vantagens, sim, e eu também. Isso é um jogo que nos convém. Mas se você continuar com essas suas exigências em cima de mim ou em cima dela, você está fora. Ponto final. Eles ficaram frente a frente, respirando como gladiadores antes do sinal final. Antonella sentiu a garganta secar, o poder da ameaça deveria tê-la amedrontado e, no entanto, gerou nela um impulso que tinha menos a ver com amor e mais com posse ferida. Lançou uma última nota, afiada: — Você não sabe o que faz sem mim. Não se iluda de que vai conseguir manter essa fachada sozinho. Eu vou arrancar tudo que é seu — disse, num sussurro que era promessa. Anthony não correspondeu ao tom. Limpo, sem deixar margem para sentimentalismo, deu a resposta que fechava a discussão: — Faça o que quiser. Só não faça isso perto de mim. Nem perto dela. — ele apontou para a porta, metaforicamente, indicando o ‘lá fora’ onde ele não queria ouvir intrigas —. Se eu precisar, eu corto. E você sabe do que eu sou capaz. Ela ficou parada, mordendo o lábio, consciente de que fora posta em condição de escolha: manter o flerte que a feria com recompensas, ou perder totalmente a vantagem. Não aceitaria perder. O orgulho não permitia. No momento em que os saltos dela ecoaram pelo corredor, longe da sala, Anthony deixou cair o rosto nas mãos por um instante. Não era pena. Era percepção do custo que escolhera incutir em sua própria vida: um teto habitado por uma estranha que sabia demais, uma amante com ar de vingança e a necessidade de manter a fachada familiar para um avô que exigia um neto. Ao mesmo tempo, havia algo que o incomodava: a leve mudança que observara em Hope na audiência anterior — o jeito firme de se posicionar, a dignidade baixa e, ainda assim, inabalável. Era um detalhe que, por ora, não sabia como catalogar. Do lado de fora, Antonella telefonou sem demora. A voz que atendeu era a do marido cúmplice — um homem que sabia fazer cara de espanto e aceitar acordos sujos em troca de vantagens materiais. Eles trocaram poucas palavras. Ela falou com pressa, com raiva, e ordenou: — Preciso que fique atento. Não vou aceitar ser empurrada pro lado. Se ele me descartar, você sabe o que fazer. Faz o que for preciso. Do outro lado da linha, o som de alguém ajustando a voz. Ele respondeu com calma mascarada, como se dissesse “já está feito”: — Tranquila. Eu cuido. Não vou te deixar na mão. Enquanto desligava, Antonella sentiu aquele frio na espinha que a lembrava de que, por baixo da seda e da beleza calculada, havia riscos reais. Mas também sentiu a chama da raiva que alimenta a vingança. Ela começou a traçar mentalmente um mapa: redes de influência dentro da casa, empregados sensíveis a subornos, contatos na imprensa de fofocas, a amiga que trabalhava no clube que poderia plantar rumores — tudo seria usado como arma. Na quietude da mansão, Anthony voltou à cadeira. Contou os minutos até que Mark trouxesse Hope de volta, e refletiu sobre a decisão. O contrato já não era mais apenas documento legal. Era um campo de batalha: a promessa de um neto, a possibilidade de cumprir a vontade do avô e a necessária contenção de uma mulher que agora se mostrava pronta a tudo para conservar seu lugar. E enquanto a chuva fininha lá fora desenhava riscos de prata no vidro, Antonella preparava sua primeira jogada. Não seria pública, não seria urgente; seria a lenta corrosão de tudo aquilo que poderia ameaçá-la. Afinal, para ela, a vida era feita de pequenos golpes de faca: silenciosos, precisos e letais.
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