####O VENENO DE ANTONELLA

1113 Words
Mark fechou a porta atrás de si com um gesto quase automático, o terno ajustado alisando a sua postura contida. Hope caminhou ao lado dele, ainda com o contrato dobrado no braço, o rosto pálido, mas firme. Ele fazia as perguntas de sempre — se ela tinha certeza, se precisava de algo — e ela respondia com a mesma determinação: sim, ela avisaria a irmã; sim, diria à irmã Teresa; não, não havia ninguém mais além delas e das freiras que merecia saber. Quando o carro deixou o prédio, o escritório voltou ao silêncio só cortado pelo ar-condicionado. O advogado de Anthony balançou a cabeça para Anthony com um leve gesto de quem aprovara o resultado final; em seguida ajeitou a pasta e saiu, deixando a sala para os dois. Anthony voltou a sentar atrás da mesa, a mão pousada no couro polido. Houve um instante — um intervalo onde o barulho do elevador ecoou, e a cidade parecia distante. A porta se abriu com um clique mais leve que um estalo; Antonella entrou, com o salto marcando o compasso da ambição. Vestia um tailleur impecável; a maquiagem estava perfeita, o cabelo impecável como sempre. Deixou o casaco sobre o encosto de uma poltrona e aproximou-se devagar, sorrindo com aquele sorriso medido que sempre usava quando queria pedir algo. — Assinou? — perguntou, sem rodeios, pousando as mãos na cintura, olhando-o como se soubesse mais do que lhe era dito. Anthony ergueu o olhar, sem surpresa. — Assinei. Ela abriu um biquinho de falsa decepção, aproximou-se e tocou a ponta do queixo dele, como quem brinca com um brinquedo caro. — Mas não nos termos do teu advogado, né? — disse ela, com uma nota de reprovação estudada. — Seu amigo interveio, quem é esse homem, ele está sempre no seu encalço. Anthony deixou sair um pequeno som que poderia ser um riso contido. — Mark tem bom senso — disse seco. — Interveio porque a moça estava em desespero. Ele não ia permitir exploração. Antonella encolheu os ombros, como se aquilo fosse um deslize tolerável. — E como vai ser, então, os dois anos mesmo, é o prazo que o teu vovô ordenou, certo? Quer somente um neto antes que ele parta. — Um toque de desprezo em sua voz, como se falasse de uma obrigação estúpida. Ela aproximou-se mais, falando quase num murmúrio. — Sabe, Tony, eu poderia me separar do Francisco. Eu poderia aceitar te dar um filho. A gente poderia casar de verdade. Por que não fazer isso? — seus olhos faiscaram, cheios de ardor e interesse. Anthony a olhou longamente, um olhar que não carregava ternura. — Você sabe o que o meu avô pensa de você. — disse, cortando a proposta. — Desde que ele descobriu que você, mulher casada, tem um relacionamento com um homem solteiro, ele nunca te considerou respeitável. Isso pesa. Antonella revirou os olhos, um gesto de agonia teatral. — Não é culpa minha se me apaixonei por você. Eu me casei por razões práticas, você sabe disso. E se o Francisco se dá bem com isso, por que esconder? Eu nunca pedi que você largasse tudo por mim. Anthony sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. — Pois é. Mas você nunca quis se separar. Preferiu a segurança de uma vida dupla. Nós somos amantes, Antonella. Gosto de você; gosto dessa… comodidade. Não é amor como nas novelas. Não é sacrifício. É conveniente para nós os dois. Ela aproximou-se, baixando a voz num tom quase implorante, mas com a arrogância de quem exigia. — Você não me ama? — perguntou, como se esperasse uma prova. Ele encolheu os ombros, franco. — O que temos não é amor. Temos algo que nos atende. Você é ambiciosa, sensual, sabe o que quer. Eu gosto disso. Não é necessário romantizar. Eu farei o que for preciso para o vovô, e manteremos o resto como está. A expressão de Antonella mudou. O biquinho tornou-se firme; havia uma sombra de raiva que a maquiagem não escondia. — Então eu continuo sendo a sua amante. Só isso? — perguntou, desdenhosa. — E essa jovem fica com seu contrato e o papel de mãe do seu herdeiro? Anthony inclinou-se para trás, cruzando as mãos. — Ela faz o que precisa ser feito. Você faz o que quer. Nós dois entendemos as regras. Não há mudanças nisso. Antonella riu, um som curto e frio. — Regras… sempre tão convenientes para você, não é? — disse, com veneno disfarçado de ironia. — Mas vê se me entende: eu não vou aceitar ser empurrada para trás, Tony. Se ela conseguir seu espaço, você vira outro homem. E eu não gosto dessa mudança. Houve uma pausa curta, tensa; as palavras dela eram uma ameaça velada. Anthony manteve-se calmo, embora seu corpo denunciava algo por trás da máscara de controle. — Você sabe o que está em jogo — murmurou ele. — O avô quer um herdeiro legítimo. Esse acordo é para isso. Depois, veremos. Antonella caminhou até a janela, olhando a cidade abaixo como se avaliando alvos e possibilidades. Virou-se devagar, as unhas batendo na barra do casaco. — Só não esquece, meu amor, que eu sei me fazer presente quando convém. E eu não sou tola de acreditar que o Francisco não sabe de nada. Ele sabe. Ele finge não saber porque isso o favorece. — Ela sorriu, sombria. — Você me dá o que eu preciso e eu te dou o que você quer. Mas se por acaso… — a pausa foi uma lâmina — se por acaso eu perder, você se lembra de quem te apoiou desde sempre. Anthony observou-a com atenção, sem se deixar levar por promessas ou chantagens. — Não duvido que você queira o lugar de honra — respondeu ele, com frieza. — Mas por agora, as regras são essas. Você permanece como antes. E eu cumpro o que disse: caso algo interfira no contrato, haverá consequências. Ela sorriu novamente, dessa vez mais comiseração do que carinho. — Consequências… — repetiu, como se fosse jogo que ela sabia ganhar. — Então está decidido, dois anos apenas. Você terá seu filho e teu avô o neto, eu continuarei meu papel de amante , e se alguma coisa mudar entre nós, eu darei um jeito. Ela se aproximou, fez um gesto de carinho falso, e deixou o escritório com a mesma postura que entrou: dona do seu espaço, acostumada a conseguir o que quer. Ao sair, as últimas palavras dela pairaram no ar, um aviso: — Não se esqueça, Tony — disse, quase sussurrando — eu sei sobreviver, eu não tenho medo do que vou perder para ganhar.
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