O carro subiu pelo vidro do arranha-céu e Hope ficou olhando as ruas encolherem lá embaixo como se a cidade inteira fosse uma miniatura. As mãos tremiam um pouco, não tanto pelo medo do desconhecido, mas pela certeza de que aquela reunião seria o ponto sem volta. Mark Romano abriu a porta do escritório com a naturalidade de quem já havia mediado acordos muito piores — e, ainda assim, observava a jovem com um misto de compaixão e cuidado.
Anthony a aguardava em pé, ao lado da larga mesa de mogno, olhos medindo-a de cima a baixo com a frieza de quem estava acostumado a decidir destinos. Havia um advogado de terno ao lado dele, rosto impassível, e uma pasta aberta sobre a mesa. Mark deixou que as apresentações formais acontecessem; a pressa havia tomado o lugar das delicadezas.
— Hope — disse Mark ao sentar-se próximo —, vou ler cada cláusula para você. Se quiser, pode levar o contrato para outro advogado. Tem este direito. Só que... eu já li. E não vou deixar que você seja explorada.
Para a garota, aquelas palavras foram um sopro de humanidade. Ela apertou a mão dele com força.
Anthony abriu a fala com a voz baixa, mas objetiva: — As condições são simples: casamento civil, período de dois anos; um herdeiro dentro desse prazo — ele folheou o documento com um gesto mecânico —. Metade do pagamento será liberada agora para o tratamento; o restante, ao término do contrato. Não quero interferência em minha vida pessoal. A moça deve residir conosco, cumprir com suas obrigações e… ponto final.
O advogado de Anthony acrescentou termos com ar técnico: confidencialidade, penalidades por quebra de cláusula, materiais comprobatórios de fertilidade, garantias bancárias. Tudo pensado para blindar o patrimônio de Anthony e limitar a exposição dele.
Mark respirou fundo e falou então com calma, mas firme: — Anthony, você e eu somos amigos. Mas eu não vou assistir a ninguém aproveitar o desespero de uma moça. Hope veio para salvar uma vida. Isto aqui não pode ser uma exploração. Vamos revisar.
O silêncio caiu pesado. Anthony franziu o cenho, como se avaliasse até que ponto poderia ceder sem enfraquecer sua posição diante do avô.
— Quais são os pontos que considera inadequados? — perguntou o homem.
Mark abriu a pasta e foi pontuando, falando como um advogado, mas com o calor de quem defendia uma causa humana.
— Primeiro: a cláusula que prevê que a criança ficará sob a “responsabilidade exclusiva da família Moretti Vitale” sem previsão de pensão ou direito de convivência por parte da mãe é injusta e, peço, imoral. Se você quer um herdeiro para o seu avô, isso não dá ao contratante o direito de retirar da mãe o vínculo com seu próprio filho. Propomos que quedeção de guarda seja acordada com tutoria da família como alternativa — mas que conste no contrato: a mãe terá direito de guarda residencial preferencial durante o período do contrato, com apoio financeiro e estrutura, e que você mantenha direito de visita e participação em decisões essenciais. Em caso de seqüestros de responsabilidade, as partes estabelecerão um plano de guarda e convivência monitorado por um terceiro juiz ou curador.
Anthony olhou surpreso, mas o advogado dele já interrompia, dizendo que havia maneiras de "blindar" o patrimônio. Mark levantou a mão.
— Segundo: a modalidade de concepção. — falou — Se vocês concordaram em inseminação artificial, que seja por técnica assistida devidamente documentada em clínica de confiança, com todos os exames, com a participação de médicos e um plano de acompanhamento. E o pagamento dos procedimentos deve ser garantido em conta escrow, sob administração de um terceiro — meio do pagamento que será destinado primeiro às despesas médicas e só liberado conforme etapas.
Anthony murmurou que não via problema. Mark persistiu:
— Terceiro: a barreira à presença da amante. Ela pediu que Antonella não traga a amante para a casa enquanto morar ali. Isso não é pedido absurdo — é um pedido de p******o ao lar e ao bem-estar das crianças. Proponho cláusula expressa: proibição de visitantes íntimos na residência principal durante a vigência do contrato, salvo autorização por escrito de Hope. É uma condição razoável.
O advogado de Anthony ergueu a sobrancelha. O rosto do herdeiro ficou rígido, mas ele concordou, numa voz baixa: — Tudo bem. Desde que o senhor se comprometa a manter a discrição pública.
— A discrição pública não protege ninguém dentro de casa — retrucou Mark —. Se a senhora Antonella tem uma relação pública e a família a considera indecorosa, melhor que o senhor evite levar sua amante para conviver no mesmo teto.
Mark então voltou-se para o ponto mais sensível, a própria situação da Hope: — Outra coisa: a menina quer— e com razão — trazer a irmã para morar com ela durante o período em que estiver cumprindo o contrato e o tratamento. Isso é imprescindível para a situação clínica da Faith. Proponho que conste: a manutenção de residência para a irmã, assistência integral ao tratamento e cobertura de todas as despesas médicas, sem subordinação a prestações adicionais.
Anthony respirou fundo, e foi Mark quem prosseguiu, com a voz tocada por algo além do jurídico: — Além disso, a senhora exige uma p******o contra humilhações e exposição pública. Devemos incluir cláusula penal: se houver v******o deliberada do direito à honra, à integridade moral ou às condições de residência — por parte do senhor, da amante, ou de pessoas por ele apresentadas — o pagamento restante será liberado imediatamente e haverá multa compensatória significativa. E se o senhor trouxer alguém à casa, haverá multa.
O advogado de Anthony, impaciente, lançou-se a argumentar sobre limites contratuais, mas Mark tinha outro trunfo: — Metade do pagamento será depositada para o tratamento agora. Não é uma doação; é adiantamento contratual. Todo o restante ficará em conta bloqueada e somente será liberado mediante cumprimento de cláusulas de guarda, de acompanhamento médico e social. E se o senhor recusar, a verba destinada ao tratamento será liberada mesmo assim para o hospital, como condição de boa fé.
Anthony olhou para a jovem. Ela estava pálida, mas havia na face uma determinação que mexeu com algo nele que não sabia nomear. O advogado dele, olhando o rosto da mãe-de-coração, cochichou algo ao ouvido: a família não poderia perder a reputação aprovando um acordo que parecesse uma extorsão. Mark aproveitou:
— Se o senhor quer o neto para seu avô, que seja de uma prática médica séria, com crianças protegidas, com segurança financeira, com pensão garantida e com direito de visitas supervisionadas se for necessário. Se o senhor se recusa a dar estrutura, então não é correto exigir isso de alguém em desespero.
Houve um longo momento de silêncio. Anthony abaixou o rosto, pensativo. Finalmente, respirou e falou, já com outra entonação:
— Está bem. Façam as alterações. Quero o casamento. Quero cumprir o desejo do meu avô. Mas não vou permitir que ela seja humilhada dentro de minha casa.
Mark assentiu e virou para Hope: — Você ouviu tudo. Você tem o direito de levar isso para o seu próprio advogado se quiser. Mas, se aceita, vou redigir as alterações para assinatura. E juro que vou vigiar para que não haja exploração.
Ela engoliu, a garganta seca: — Eu só quero salvar a Faith. E quero que ela possa morar conosco. E… eu quero… respeito.
Anthony, lacônico, murmurou: — Respeito será cláusula. E eu… assumirei responsabilidade financeira plena pelo tratamento imediato. O resto, ficará em conta bloqueada.
As novas páginas foram impressas, lidas e rubricadas. Mark viu ao mesmo tempo a mão trêmula de Hope e a determinação do homem que precisava manter uma fachada. Fecharam o acordo com termos claros: inseminação por técnica assistida em clínica credenciada; depósito imediato para despesas médicas; tutela e residência da mãe como prioridade; cláusula de proibição de visitantes íntimos na residência principal; pensão e pensão-alimentícia garantidas; penalidade contratual por v******o da honra ou entrada de pessoas íntimas; liberação parcial condicionada ao cumprimento de etapas clínicas e de guarda; e a data do casamento fixada em quinze dias, com mudança imediata para a mansão assim que os primeiros recursos fossem liberados.
Quando a caneta passou pela última linha, Mark olhou para Anthony com severidade mansa: — Não vamos explorar o desespero, meu amigo. Não hoje.
Anthony fechou a pasta. Havia um ruído metálico no gesto — metálico e irreversível como se as peças de xadrez finalmente tivessem sido movidas. Hope saiu da sala com o contrato no braço e o coração pesado, mas com a conta para o hospital já garantida. Lá fora, na chuva fina da Filadélfia, ela respirou. Ao olhar para Mark, num aceno quase mudo de agradecimento, sabia que havia trocado uma liberdade por outra forma de vida — e que, pelo menos por ora, não teria sido explorada por inteiro.