A Porta do Clube
Hope trabalhou até as dezesseis horas com o corpo exausto e a mente em turbilhão. Cada pedido servido, cada sorriso forçado para os clientes era apenas a cortina fina que escondia o desespero que lhe corroía por dentro. Quando o relógio finalmente marcou a hora de ir, ela foi até o vestiário, tirou o uniforme e vestiu um jeans azul bem ajustado, uma camiseta branca de mangas compridas, tênis simples e prendeu os cachos num coque frouxo, deixando mechas caírem ao redor do rosto. Olhou-se no espelho: simples, mas havia algo de força no brilho de seus olhos verdes.
Antes de sair, passou pelo balcão para avisar a gerente.
— Senhora Mirtes, eu vou sair agora, mas volto mais tarde para cobrir o segundo turno.
A gerente balançou a cabeça com firmeza.
— Não, menina. Hoje, não. Eu vou colocar outra pessoa no lugar da sua irmã. Amanhã você cobre. Cuide dela hoje.
Hope piscou, surpresa e grata.
— Obrigada, senhora. De verdade.
Saiu dali com um peso a menos nos ombros. No estacionamento, encontrou Christy e Brittany encostadas no carro delas, sorrindo de imediato ao vê-la.
— Nossa… — Christy arregalou os olhos. — Sem uniforme, você é ainda mais linda.
Brittany completou com um sorriso cúmplice:
— Seu corpo é estonteante, Hope. Você não tem ideia do quanto vai conseguir por essa beleza.
Hope corou, ajeitando a bolsa no ombro.
— Eu não acho nada disso…
— Vai acreditar quando ouvir os lances — disse Christy, piscando. — Entre no carro. Vamos te levar.
Hope entrou no banco de trás, olhando ao redor.
— Isso é um carro popular?
Brittany riu.
— Sim. Você precisa ver o que é um carro de luxo de verdade.
Hope passou a mão no estofado gasto, impressionada.
— Para mim, isso já é luxo.
As duas trocaram um olhar divertido.
— Esse carro é meu — disse Christy. — O da Brittany ficou em casa. A gente não usa os dois ao mesmo tempo, só quando vamos ver nossos namorados. Mas, na maioria das vezes, eles vêm nos buscar.
Hope assentiu, absorvendo cada detalhe como se fosse uma aula sobre um mundo distante do seu.
— E o Mark? — perguntou, nervosa.
— Já está esperando — respondeu Brittany. — O segurança vai anunciar nossa chegada.
A viagem até o clube levou pouco mais de quinze minutos. O carro parou diante de um prédio discreto por fora, mas que exalava luxo nos detalhes: a fachada iluminada, a entrada revestida em mármore n***o, e homens de terno impecável na porta. Hope engoliu em seco. Aquilo não era só um clube. Era outro universo.
— Vamos — disse Christy, puxando-a pelo braço.
O segurança as recebeu com olhar severo.
— Temos um encontro marcado com o senhor Mark Romano. Ele está nos aguardando — disse Brittany, com naturalidade.
O homem ligou para dentro. Depois de alguns segundos, assentiu.
— Podem entrar.
O coração de Hope batia tão alto que ela quase não ouviu o barulho dos saltos ecoando no chão de mármore. A cada passo, sentia que deixava para trás a vida que conhecia.
Lá dentro, a penumbra era cortada por luzes douradas. Poltronas de couro, taças de cristal, cortinas pesadas. O ar tinha cheiro de uísque caro e perfumes intensos. Hope se sentia deslocada, mas não havia como recuar.
Mark as esperava em um salão reservado, elegante em seu terno cinza-escuro. Alto, de postura impecável, ele se levantou quando as viu. O sorriso discreto revelava confiança, mas os olhos tinham algo de calculista.
— Meninas — disse, cumprimentando Christy e Brittany com familiaridade. — Que bom vê-las. E esta é…?
— Hope Salazar — apresentou Christy. — Ela é diferente. E está precisando de ajuda urgente.
Mark puxou uma cadeira, indicando para Hope sentar-se. Ela obedeceu, com as mãos suadas no colo.
— Me contem a história dela — pediu ele, olhando para as amigas.
As duas não hesitaram. Relataram que Hope e Faith haviam crescido no orfanato, que a irmã estava com câncer agressivo, que Hope trabalhava em dois turnos e ainda assim não conseguia pagar os custos da cirurgia.
Mark ouviu em silêncio, tamborilando os dedos na mesa. Finalmente, inclinou-se para frente e olhou diretamente para Hope.
— Você sabe como funciona o leilão, não sabe?
Hope respirou fundo.
— Não exatamente.
Ele fez um gesto para que as amigas explicassem.
— É simples — disse Brittany. — Você entra mascarada, usa lingerie. Os homens presentes disputam quem vai ser o primeiro com você.
Hope apertou os dedos uns contra os outros.
— Mas… não é só perder a virgindade?
Mark sorriu, mas era um sorriso sem calor.
— Não, minha querida. É entregar-se completamente. De qualquer forma. De qualquer maneira que ele quiser.
Hope sentiu o coração falhar.
— Meu Deus…
Mark apoiou os cotovelos na mesa e falou baixo, quase confidencial:
— Mas talvez você não precise passar por isso. Eu tenho um amigo… um homem poderoso, herdeiro de uma família tradicional. Ele precisa de um casamento por contrato. E você é perfeita para isso.
Hope o encarou, sem fôlego.
— Casamento… por contrato?
Mark assentiu.
— Dois anos. Um herdeiro. Em troca, dez milhões de dólares.
O silêncio que se fez parecia gritar dentro dela.
Era uma escolha impossível. Mas para salvar Faith, Hope sabia que estava prestes a entrar em um caminho sem volta.