Anthony
A mansão estava mergulhada em silêncio quando voltei. O som dos meus passos ecoava pelos corredores amplos, e cada canto parecia mais vazio do que o habitual. Era como se as paredes, testemunhas de tantos jantares e reuniões de negócios, de repente me lembrassem que, no fundo, eu morava sozinho.
O relógio da sala marcava quase nove da noite. O som grave das badaladas ressoava lento, quase cerimonial. Deixei as chaves sobre a mesa de mármore e respirei fundo antes de subir para o andar superior. O quarto do meu avô ficava ao final do corredor, perto da varanda que dava para o jardim de glicínias. A luz sob a porta denunciava que ele ainda estava acordado.
Bati levemente.
— Entre, meu filho — respondeu a voz rouca e familiar.
Abri a porta e o encontrei sentado na poltrona, envolto por uma manta, os olhos fixos na lareira acesa. Aquele homem, mesmo fragilizado pela idade e pela doença, ainda tinha uma presença que impunha respeito. Havia nele uma força silenciosa — a mesma que um dia me ensinou a não abaixar a cabeça para nada, nem para a dor.
— Boa noite, vovô — falei, aproximando-me.
Ele ergueu o rosto e sorriu, aquele sorriso cansado, mas cheio de ternura. — Boa noite, Anthony. Como foi tudo hoje?
Sentei-me na poltrona ao lado e deixei o corpo relaxar. — Fomos à clínica e depois ao hospital. A Faith vai ficar internada. Os médicos disseram que ela está muito debilitada, mas que, com o tratamento, poderá se recuperar. Vão começar a aplicar as medicações amanhã mesmo.
— E a Hope? — perguntou ele, com genuíno interesse. — Ela pareceu tranquila?
— Tranquila é uma palavra difícil de usar. — Suspirei. — Mas ela se mantém firme. Fui deixá-la no hospital para passar a noite com a irmã. Aproveitei para conhecer a moça — a Faith —, ainda não tinha tido essa oportunidade.
O olhar dele se iluminou. — E o que achou dela?
— Uma jovem de uma serenidade admirável. — Cruzei as mãos, pensativo. — Elas não são irmãs de sangue, mas a ligação entre as duas é impressionante. Descobri hoje que a Hope é compatível para doar a medula. Vai ser a doadora.
O velho arregalou levemente os olhos, e o brilho que surgiu ali era o mesmo que eu lembrava de quando ele falava de milagres.
— Compatível? — repetiu, surpreso. — Mas elas não têm parentesco biológico, não é?
— Não. — Balancei a cabeça. — Mas, de alguma forma, deu certo. O médico confirmou. Ela vai poder doar.
Ele se recostou na poltrona, os olhos voltados para o fogo. — Isso é um milagre, meu filho. Um milagre claro como a luz do dia.
Fiquei observando as chamas dançando dentro da lareira. — Talvez seja mesmo. — Sorri de leve. — E, falando em milagres, tenho notado que o senhor também está mais forte.
Está conseguindo se sentar sozinho.
Ele riu baixinho, aquele riso que ainda trazia vida. — Você sabia que ela veio aqui antes de sair de manhã?
Franzi o cenho. — Ela veio?
— Sim. — O tom dele ficou emocionado. — Entrou devagar, como se pedisse licença até para o ar.
Sentou-se ali, naquela cadeira, e ficou conversando comigo. Disse que, antes de ir ao hospital, queria me desejar um bom dia.
— Os olhos dele brilharam, — disse também que, quando voltasse, ficaria um pouco comigo todas as tardes.
Olhei para o avô, surpreso. — E ela vai fazer isso todos os dias?
— Foi o que prometeu. — Ele sorriu, satisfeito. — Disse que queria ler para mim, conversar, me fazer companhia, mas pelo visto, vocês terminaram tarde hoje.
— Sim, o dia foi longo. — Cruzei os braços, refletindo. — Talvez amanhã ela venha.
Ele assentiu lentamente, observando o fogo. — Seria bom. — Depois virou o rosto para mim. — É uma moça admirável, não é, meu filho?
Demorei um pouco para responder. — É, vovô. Admirável é a palavra certa. Resiliente, calma, sensata. Fala pouco, mas tudo o que diz tem peso.
Parece sempre segura, mesmo quando o mundo dela está desabando.
Eu não sei como alguém que viveu tanto sofrimento consegue ter esse tipo de paz.
O velho Vitale sorriu, e havia ternura na voz dele quando falou:
— Deus coloca pessoas assim na vida da gente quando quer ensinar o que é amor verdadeiro.
Ri sem graça. — Vovô, o senhor já está pensando em casamento antes da hora.
— Não estou pensando, estou apenas dizendo o que vejo.
— Ele apoiou a mão no meu braço, com aquele gesto de pai que nunca deixou de ser.
— Seria tão bom, meu filho, se você se apaixonasse por ela. Se esse acordo se tornasse algo real.
Fiquei em silêncio, olhei o fogo e senti o peso daquelas palavras queimarem junto com as brasas.
— Vovô, o senhor sabe que eu tenho medo de amar.
Ele me olhou de forma firme. — Medo do quê, Anthony?
— De perder. — A voz me saiu mais baixa do que eu esperava. — Perdi meus pais, perdi a vovó… e agora o senhor está aqui, lutando para continuar.
Eu cresci cercado por perdas, e cada uma delas arrancou um pedaço do que eu era. Eu aprendi a controlar tudo porque era a única forma de não desmoronar.
O silêncio que se fez entre nós era espesso, quase sagrado.
O velho respirou fundo antes de falar, — e a sua amante, Anthony?
Demorei a responder.
— Foi demitida.
— Eu imaginei. — Ele se recostou novamente, pensativo. — Você sabe que isso não vai acabar aí, não sabe?
— Ela assinou um acordo de confidencialidade. Tudo está documentado.
— Eu conheço esse tipo de mulher, meu filho. — O tom dele ficou mais grave.
— Elas não desistem facilmente, o marido dela… você sabe que ele sempre soube do caso de vocês.
Ergui o olhar, surpreso. — Sabia?
— Claro que sabia. — Ele balançou a cabeça devagar. — É um homem que vive às custas da vergonha da esposa.
Um gigolô elegante, daqueles que usam o dinheiro dos outros para manter o próprio luxo. E agora que ela foi demitida, vai culpar você.
Suspirei, passando a mão pelos cabelos. — Eu estou preparado para tudo, vovô.
Ele fixou o olhar em mim, com a sabedoria de quem já viveu o bastante para entender que o perigo nem sempre vem de onde se espera. — Assim espero, meu filho.
Porque aquela mulher é perigosa.
E o orgulho ferido é uma arma que não falha.
Assenti em silêncio, e por um momento, tudo o que ouvi foi o crepitar da lenha queimando.
O fogo iluminava o rosto do meu avô e fazia as rugas parecerem linhas de histórias antigas. Aquelas palavras — “ela é perigosa” — ecoaram dentro de mim, misturadas às lembranças da Antonella, dos sorrisos ensaiados, das ameaças veladas. Eu sabia que ele tinha razão.
Depois de um tempo, o velho falou de novo, mais brando:
— Mas nem tudo é sombra, Anthony. Às vezes, Deus coloca alguém diante de nós justamente para nos curar das feridas que fingimos não ter.
Olhei para ele, sem disfarçar a inquietação.
— O senhor acha que a Hope…
— Eu acho que ela é diferente. — Ele me interrompeu. — E que talvez, se você deixar, ela te ensine a amar outra vez.
Pensei nas palavras dele, mas não respondi. O rosto de Hope me veio à mente: o olhar sereno, o jeito simples, a fé inabalável.
A imagem dela ajoelhada ao lado da cama da irmã, segurando-lhe a mão com ternura, parecia grudada no fundo dos meus olhos.
— Eu não sei se sei amar, vovô. — A confissão saiu antes que eu pudesse impedir.
— Eu sei cuidar, sei proteger, sei comandar… mas amar…
— Amar é o contrário de controlar, meu filho.
— Ele sorriu, cansado. — E é por isso que o amor assusta tanto os homens que viveram no poder.
Fiquei em silêncio, aquelas palavras, tão simples, me desarmaram mais do que qualquer discussão.
A lareira começou a apagar lentamente. O velho se ajeitou na poltrona, fechando os olhos por um instante.
— Vá descansar, Anthony. Amanhã será um novo dia. E quem sabe, um dia de milagres.
Aproximei-me e beijei-lhe a testa, como fazia quando era menino. — Boa noite, vovô.
— Boa noite, meu filho.
— A voz dele soou distante, quase um sussurro. — E lembra-te: às vezes, os milagres começam com uma simples gentileza.
Saí do quarto e fechei a porta devagar. No corredor, o silêncio parecia mais denso. Caminhei até meu quarto e fiquei algum tempo olhando pela janela.
Lá fora, o jardim dormia sob a luz prateada da lua, e as glicínias balançavam como véus ao vento.
Pensei na Hope, no jeito como ela dizia o meu nome, simples, sem medo.
Pensei na Faith, frágil, mas cheia de coragem.
E pensei em mim, no homem que tinha tudo, mas que começava a desconfiar de que o que mais faltava era aquilo que o dinheiro não podia comprar.
O fogo da lareira lá embaixo crepitava, e o eco das palavras do meu avô se misturava ao som distante da noite.
“Os milagres começam com uma gentileza.”
Talvez fosse isso.
Talvez o milagre já tivesse começado — e eu ainda não tivesse percebido.