####O ABISMO

1405 Words
A NOITE E O ABISMO (Anthony) Desde o instante em que entrei no escritório, a pressão do dia começou a pesar nos meus ombros. As janelas refletiam uma Filadélfia desperta — prédios, trânsito congestionado, e a pressa que parecia permear até o ar. Esta cidade nunca dorme, e eu aprendi a acompanhá-la. Sentei-me na poltrona de couro escuro, encostei as costas e deixei os olhos vagarem pelos relatórios na tela do computador, sem realmente prestar atenção. Os números, as projeções e os lucros faziam sentido para qualquer outro homem, mas não para mim. Meu trabalho sempre foi meu escudo — fuga e justificativa para o vazio dentro de mim. Quando se vive cercado por contratos e cifras, é fácil acreditar que tudo está sob controle. O celular vibrou. Ao olhar o visor, vi o nome: Isabella. Um sorriso involuntário se formou nos meus lábios. Isabella era um desses erros que a gente repete por teimosia. Linda, vaidosa e confiante, sabia jogar o jogo sem se deixar envolver. Sempre admirei esse fogo nela — a ausência de melodrama. Atendi, já imaginando que minha noite não terminaria em silêncio. — Anthony Vitale. — Continua tão formal até comigo, querido? — provocou, com voz suave e insinuante, flertando entre ironia e desejo. — Achei que, depois de tudo que já vivemos, você teria aprendido a relaxar. Ou está precisando de uma distração? Inclinei-me na cadeira, observando a cidade pela janela. — Alguns vícios não mudam, Isabella. — Outros mudam — retrucou. — Estou de volta à cidade e pensei em celebrarmos este reencontro. Um jantar íntimo... e depois, quem sabe, alguma diversão? Suspirei, mais por hábito do que por necessidade. — Hoje estou cheio de compromissos, Isabella. O dia vai ser corrido. — Então à noite — insistiu ela, quase num sussurro. — Fico na cidade por uma semana. Não me diga que está ocupado demais para mim. Você sabe que sempre nos divertimos quando nos encontramos. Sorri levemente. Isabella nunca pedia; ela exigia. E o prazer que ela oferecia era quente, intenso — uma qualidade perigosa em uma mulher. O poder que vem não da posição, mas da presença. — Tenho outro compromisso — respondi, controlando a voz. — E uma noiva. Em breve, me caso. Do outro lado da linha, o silêncio durou alguns segundos antes de ser quebrado por um riso divertido. — Uma noiva, Anthony? Meu Deus… encontrou o amor? — ela riu, incrédula. — Ah, Anthony, você sempre soube contar boas piadas. — Não é piada, Isabella — repliquei. — Vou me casar de verdade, dentro de algumas semanas. — E ainda assim, atende minhas ligações? Interessante... — murmurou. — Esse casamento não vai te impedir de viver, não é? — Vamos nos divertir enquanto você ainda é solteiro, querido. Eu não sou ciumenta. Houve uma pausa breve, e pude imaginar o sorriso satisfeito se formando do outro lado. — Então será assim? — provocou. — Você, um homem comprometido, mas ainda dono das próprias vontades? — Sempre fui assim, Isabella. Você sabe. — E não é casto — completou, divertida. — Então, onde nos vemos? — No meu loft — confirmei. — Às nove. Seja discreta. Em breve vou anunciar o casamento. — Sempre fui. E somos velhos amigos, lembra? — ela ironizou. — E quanto à sua ex? Aquela mulher que te controlava por meses... Antonella, não é com ela que vai casar? Soltei uma risada seca. — Não temos mais nada. Rompemos. — Ainda bem — respondeu, com leve alívio. — Aquela mulher era venenosa. Desde a primeira vez que a vi, soube que você estava brincando com fogo. — Eu sei me proteger — disse, mais para mim do que para ela. — Sei... — murmurou, felina. — Mas me diga, Anthony: o que ela tinha de tão especial? Você nunca se envolveu com mulheres casadas. O que te fez quebrar a própria regra? Reclinei na cadeira e deixei o olhar se perder na cidade. — Ela jogava certo. Isabella soltou uma risada baixa e desafiadora. — E eu não? — Você joga — respondi —, mas de uma maneira diferente. — Então me prove isso hoje à noite. A ligação terminou antes que eu pudesse responder. Fiquei ali, com o celular na mão, ouvindo o silêncio do escritório e o som distante da máquina de café no corredor. Levantei-me e caminhei até a janela. A cidade parecia um organismo vivo, pulsante, frenético. Tantos rostos correndo a esmo, acreditando ter um propósito. Eu também acreditava — até perceber que, no fundo, todos nós estamos apenas tentando preencher vazios: alguns com fé, outros com dinheiro, e os piores com pessoas. Peguei a xícara de café quente e deixei o líquido amargo descer pela garganta. Isabella era isso: o gosto amargo que, inexplicavelmente, eu ainda buscava. Voltei à mesa e revisei as anotações do dia — reuniões, contratos, acionistas, relatório trimestral. Tudo em ordem, como deveria ser. Mas havia algo que não se encaixava: uma inquietação silenciosa, um incômodo sem nome. As palavras do meu avô voltaram à mente como uma farpa: > “Corações bondosos podem mudar o destino, mesmo quando o destino já foi escrito.” Eu não acreditava em destino, nem em corações bondosos. Mas aquela frase me perseguia. Às seis da tarde, desliguei o computador e deixei o escritório. A secretária já havia ido embora, e a penumbra do fim do expediente envolvia tudo. Peguei o casaco, o celular e as chaves. No caminho para casa, a cidade parecia diferente — talvez fosse só a consciência tentando me lembrar que eu estava prestes a repetir o mesmo erro de sempre. Ao chegar ao prédio, subi pelo elevador panorâmico. As luzes da cidade refletiam nos vidros, e por um instante, percebi versões de mim mesmo que já não reconhecia. O loft estava como sempre: impecável, frio e estéril. A decoração moderna, os móveis de linhas retas e o silêncio desconfortável formavam o cenário exato do que eu era. Tudo em mim era cálculo. Até a solidão. Servi-me de um uísque e sentei no sofá. O relógio marcava oito e cinquenta e dois. Isabella era pontual. E ela veio. O interfone tocou. — Pode subir. Minutos depois, a campainha soou. Isabella entrou como quem já conhece o território: vestido preto justo, cabelo preso num coque, perfume marcante que dominou o ar antes da própria presença. — Ainda igual — comentou, olhando em volta. — Tudo no lugar certo. Tudo sob controle. — Como sempre — respondi, entregando-lhe o copo. — Gelo? — Não. Gosto quente. Sentou-se no sofá, cruzou as pernas e me olhou nos olhos. — Então, noivo... ainda sabe quebrar regras? Sorri de canto. — Regras só existem para testar limites. Ela inclinou o corpo, unindo o copo ao meu. — E qual é o limite de hoje? — O mesmo de sempre — respondi, tomando o uísque. — Nenhum. A risada dela soou como um estalo de chicote no silêncio. Aproximou-se, e por um instante o mundo se resumiu àquele momento — o cheiro de álcool, o som da respiração, o reflexo das luzes da cidade nos vidros. Ela me beijou, e o beijo foi firme, decidido. Isabella se acomodou no meu colo e, num gesto provocante, mostrou que não usava nada por baixo. O desejo veio rápido, instintivo. A joguei no tapete e lá mesmo me satisfiz. Mas, mesmo naquele clímax conhecido, algo estava diferente. Havia um desconforto silencioso, uma lembrança que me atravessava sem explicação. Ficamos juntos até por volta da meia-noite — desejo, suor e silêncio. Quando o relógio marcou doze em ponto, Isabella se levantou, recompôs o vestido, pegou a bolsa e me deu um último beijo. — Agora durma. Tenho trabalho cedo e vou para o hotel descansar. — Sempre que quiser se lembrar de quem você é... me liga. Saiu, deixando o perfume pairando no ar — uma névoa de passado e cinismo. A noite foi sem emoção. Fiquei sozinho, encarando o copo vazio. O uísque já não queimava como antes. O silêncio, que antes me servia, tornou-se opressivo. Deitei no sofá, cobrindo os olhos com o braço, e percebi que, pela primeira vez em anos, o prazer não bastava. Tudo foi vazio, frio, sem calor. Quando o relógio marcou meia-noite e trinta, saí e voltei para casa. O corpo cansado, a mente inquieta, e a amarga sensação de que, sem perceber, eu havia acabado de encarar o abismo.
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