####A RECUSA

1315 Words
No caminho de volta da ala de internação, com a imagem de Hope e Faith adormecidas de mãos dadas ainda gravada na mente, meu celular vibrou no bolso do paletó, interrompendo a tranquila reflexão que havia me dominado. — A sensação de cuidado que presenciei algumas horas antes contrastava drasticamente com a expectativa daquela ligação, e eu já sabia quem era antes mesmo de olhar a tela. — E de fato, não me enganei: — Carly. Assim que atendi, a familiar impaciência envolta em charme na sua voz foi imediata, como um perfume que invade os sentidos de maneira inconfundível. — Então, querido… vamos repetir a noite de ontem? — questionou, com um tom leve, quase despreocupado, como se fosse apenas uma continuação natural do que já tinha ocorrido entre nós. — Encostei o ombro na parede fria do corredor, sentindo o gélido toque do concreto contrastar com o calor de lembranças não tão distantes. — Respirei fundo, tentando encontrar um espaço no meu coração para adequar a leveza de sua proposta à carga emocional que eu carregava. — Ao fechar os olhos por um instante, as imagens de Hope e Faith no quarto me sobrecarregaram, fazendo com que aquela proposta vazia de prazer parecesse quase grotesca em comparação com as responsabilidades que agora pesavam sobre meus ombros. — Hoje não, Carly — respondi, tentando manter um tom firme, embora educado. — Havia uma firmeza que se manifestava na minha voz, decidindo que o desejo momentâneo não superaria a necessidade de estar presente para aqueles que realmente precisavam de mim. — Estou voltando para casa, meu avô precisa de mim. Ela riu, uma risada leve e debochada, quase incrédula, ecoando pelo telefone como se estivesse saboreando cada palavra. — Agora você se tornou o neto exemplar? — Vai cuidar do seu avô? Desde quando Anthony Vitale virou um homem de família? Sua provocação pairou no ar como uma nuvem carregada, e, surpreendentemente, não consegui me irritar. — Aquelas palavras apenas expuseram a imagem distorcida que o mundo havia projetado sobre mim: um jovem despreocupado em busca de prazer, quando, na verdade, a vida me havia ensinado lições profundas. — Carly… meu avô está muito doente, você sabe disso — disse, em um tom calmo, mas firme, esforçando-me para evitar que a emoção transbordasse. — Ele está no fim da vida, fui criado por ele quando meus pais não estavam mais aqui. — Ele dedicou tudo a mim, corpo e alma. Agora que posso retribuir, quero aproveitar cada momento com ele. Hoje não vamos nos encontrar. — Ontem já aconteceu, hoje, não, a cena de sua figura fragilizada se formava na minha mente, um retrato de amor e cuidado que eu não poderia abandonar em meio a revelações superficiais e tentativas de diversão. Houve um breve silêncio do outro lado, como se ela estivesse diante de um Anthony que nunca conhecera de verdade; um Anthony que havia aprendido a valorizar as coisas que realmente importam na vida, apesar da tentação de uma existência despreocupada. — Nossa… você está tão diferente — murmurou, sem ironia desta vez, e eu podia quase sentir a vulnerabilidade em sua voz. — Olhei novamente para a porta 614 no final do corredor, com a luz fraca filtrando-se por baixo da soleira, cada raio iluminando as memórias dos momentos que passei ao lado do meu avô, lendo histórias juntos ou ouvindo suas experiências de vida. — Não, Carly — corrigi, suavemente, tentando conter a profundidade da transformação que eu experimentava. — Eu não estou diferente. Apenas reconheço o valor que meu avô tem na minha vida. — Nada além disso — era um reconhecimento que a maioria das pessoas, como ela, talvez nunca entendesse, pois os laços de sangue foram testados e ressignificados ao longo dos anos. — Como quiser então — respondeu ela, resignada, como se soubesse que havia atravessado uma fronteira que não poderia ser revertida. — Tenha uma boa noite, Anthony — Boa noite, desliguei e m*l tive tempo de guardar o celular antes que ele vibrasse novamente, quebrando o silêncio que já se instala em meu mundo interior. Desta vez, o nome na tela fez meu estômago se contrair como se uma pedra tivesse sido lançada dentro dele: — Antonella. Atendi, a mente, uma confusão de sentimentos, determinada a manter o controle da conversa, como tantas vezes tentei fazer no passado, quando suas manipulações e elogios me envolviam como uma teia. — O que você quer, Antonella? — perguntei, direto, minha voz procurando um tom firme que parecia escorregar entre meus dedos. Ela soltou uma risada curta, repleta do veneno elegante que sempre a acompanhou, cada sílaba carregada de uma confiança que sempre me exasperava. — É aí que você se engana, querido, você pensa que acabou, mas não tem ideia do que está por vir, amanhã eu preciso falar com você. A menção de um encontro futuro fez minha mandíbula se contrair, como se um instinto primitivo estivesse me advertindo. — Você não tem mais acesso à minha empresa, o que você quer agora? — As lembranças de suas táticas manipuladas e seu charme sedutor ameaçaram inundar meus pensamentos. — Já que não posso entrar no seu prédio, arranje tempo para mim em outro lugar — respondeu, cada palavra meticulosamente escolhida, envolta em uma aura de poder que ela sempre exibia. — Amanhã, hora do almoço. Encontre-me, é do meu e seu interesse. — Uma onda de alerta subiu pela minha coluna, um sentimento que eu não costumava ignorar, mas que havia se tornado uma sombra constante desde que nos separamos. — As consequências de seu apelo corriam como um eco em minha mente. — O que você vai aprontar agora, Antonella? — O tom de minha voz soou mais como um desafio do que como uma pergunta, enquanto uma parte de mim se perguntava se estava me lançando em uma armadilha mais uma vez. — Nada — disse ela, com uma calma que me deixou ainda mais desconfiado, como se estivesse segurando um baralho de cartas escondido nas mangas. — Apenas encontre-me e saberá, e por favor… não me faça esperar. — Suas palavras eram como sussurros que se infiltram em minha mente, criando uma inquietação que se cristaliza à medida que a chamada se encerrava. O que ela realmente queria? — E por que eu, apesar de todos os nossos conflitos, ainda sentia a necessidade de ouvir o que ela tinha a dizer? A interrogação permaneceu pulsante em meu peito enquanto me preparava para o inesperado encontro que se aproximava. — Antes que eu pudesse responder, a ligação foi abruptamente encerrada, deixando o som do silêncio reverberar nos meus ouvidos como um eco incômodo. — Fiquei parado no corredor por alguns segundos, com o celular ainda na mão, ouvindo apenas o bip final da chamada ressoar na quietude do ambiente. — O hospital, normalmente preenchido por um murmúrio de conversas e os passos apressados de enfermeiros, parecia ter entrado em um estado de letargia, enquanto dentro de mim, tudo se agitava como uma tempestade convulsa — uma mistura intensa de alerta, irritação e um sentimento novo e desconhecido que eu ainda não sabia nomear. Esse novo sentimento começou a se formar no instante em que viu Hope segurando a mão da irmã, sua expressão uma mistura de preocupação e esperança, refletindo a fragilidade da situação. — Eu sabia que, com a chegada do dia seguinte, nada seria simples, como se as peças de um quebra-cabeça estivessem fora de lugar. Não com Antonella de volta ao tabuleiro, seu retorno é uma promessa de que as coisas não seriam tranquilas, e com as duas meninas dependendo de mim, mesmo sem nunca me pedirem nada. O peso da responsabilidade se acumulava sobre meus ombros, uma pressão crescente que me lembrava de que cada escolha que eu faria poderia mudar o destino delas — e, por extensão, o meu.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD