O DIA EM QUE O DESTINO TROUXE SOMBRAS
Anthony
Acordei mais cedo do que o habitual, o sono tinha sido leve, quebrado, repleto de pensamentos que eu não conseguia afastar. Antes mesmo de seguir para a empresa, peguei as chaves do carro e fui diretamente para o hospital.
Eu precisava saber como estava sendo o início daquele dia que, de alguma forma, pesava em mim como nenhum outro.
Ao chegar à recepção da ala cirúrgica, identifiquei-me e perguntei pelas irmãs. A atendente, solícita, consultou rapidamente o sistema.
— Senhor Vitale, a senhorita Hope e a senhorita Faith já estão na sala de cirurgia.
O procedimento começou há poucos minutos. O médico estimou que vão precisar de aproximadamente três horas.
Assenti, passando a mão pela nuca, processando a informação.
— Eu quero ser avisado assim que a cirurgia terminar. Que o setor responsável ligue para mim direto, sem demora.
— Claro, senhor — respondeu ela.
Inclinei-me um pouco mais sobre o balcão, baixando a voz.
— E escute com atenção. — Fiz uma pausa curta. — Nenhuma das duas pode ficar sem assistência. Eu quero tudo o que for necessário para elas.
Alimentação adequada, medicamentos na hora certa, cuidados completos.
E quero duas enfermeiras particulares, 24 horas por dia. Uma cobrindo turno diurno, outra turno noturno. Eu vou pagar pessoalmente por esse adicional. Nada pode faltar para elas.
A atendente ficou genuinamente surpresa com a intensidade do meu tom, mas manteve a postura profissional.
— Vamos providenciar tudo imediatamente, senhor Vitale. Pode deixar conosco.
Agradeci com um aceno rápido e saí do hospital com um peso no peito que eu não sabia explicar.
Talvez fosse apenas preocupação com a cirurgia — uma operação delicada, invasiva, que colocava as duas em risco. Talvez fosse outra coisa.
Algo que começava a ferver no fundo da minha consciência, ainda sem forma, mas impossível de ignorar.
Quando cheguei à mansão, meu avô já estava acordado, sentado na poltrona da sala de estar, coberto com um xale leve. Ele ergueu o olhar quando me viu entrar.
— Como está tudo, meu filho?
Aproximei-me, sentei na beira da poltrona ao lado dele.
— Já começaram a cirurgia, vovô. Vai demorar umas três horas. Eu pedi para me ligarem assim que acabar e, no final do dia, antes de voltar para casa, eu passo no hospital para lhe trazer notícias tranquilas.
Os olhos dele se suavizaram.
— Obrigado, meu filho. Você não imagina como me deixa em paz saber que está atento. Elas são apenas meninas… e tão sozinhas neste mundo.
Assenti devagar, sentindo aquela frase raspar dentro de mim.
— Eu vou trabalhar agora, vovô. Mas estarei aqui à noite.
Ele apertou meu braço.
— Vá, meu filho, e que Deus cuide das duas.
Saí com um nó na garganta que eu não pretendia nomear.
NO ESCRITÓRIO — MEIO-DIA
O relógio marcava exatamente doze horas quando meu celular vibrou. O nome iluminou a tela como um desafio maldito:
Antonella.
A mensagem era curta, objetiva, e ainda assim carregava o veneno de sempre:
“Estou no restaurante La Meridienne. Mesa 12. Estou esperando.”
Engoli o incômodo e pedi ao motorista que me levasse. Quanto mais eu me aproximava, mais claro ficava que aquilo não seria simples.
Quando entrei no salão do restaurante, elegante e silencioso, ela estava lá — impecável como sempre, maquiagem discreta, vestido justo, a postura de alguém que sabia exatamente o que estava fazendo. Mas o que me chamou atenção não foi ela.
Foi o homem sentado ao lado dela.
O marido.
Ele sorriu para mim com um sorriso que não alcançava os olhos, enquanto Antonella cruzava as pernas e me observava como se fosse dona da situação.
— O que é que vocês querem? — perguntei, sem rodeios.
Antonella abriu a bolsa, tirou dois papéis cuidadosamente dobrados e os deslizou pela mesa até mim. Um ultrassom. Um teste de gravidez.
Olhei para as imagens por um instante longo demais.
— Eu estou grávida — disse ela, com a voz doce e envenenada — e o filho é seu.
Ergui o olhar devagar, encarando primeiro o marido e depois ela.
— E qual é o papel dele nisso? — perguntei, apontando com o queixo para o homem ao lado dela. — A sua mulher diz na sua frente que está grávida de mim… e você simplesmente aceita?
O homem deu de ombros com frieza perturbadora.
— O corpo era dela. A mulher é minha. Mas os filhos… — Ele inclinou a cabeça. — Os filhos são seus. Nós somos sócios nisso agora. Precisamos saber como você pretende resolver.
Minha respiração ficou mais lenta, mais pesada.
— Então… quer dizer que, quando eu a demiti, você já estava grávida? — perguntei a Antonella, sem esconder o desprezo.
— Sim — respondeu ela, com naturalidade obscena.
— Nós sempre usamos p**********o — retruquei.
Ela sorriu como quem revela um truque antigo.
— Nada que um p**********o “preparado” não resolva, querido.
A raiva subiu — não aquela que explode, mas a que congela.
— E quem garante que esses filhos são meus?
— Porque, durante todo o período em que eu ficava com você… eu não tocava no meu marido — respondeu ela, passando a mão pelo cabelo. — E, como eu já disse, eu estou grávida. De gêmeos. Os filhos são seus. Você vai pagar para eu manter silêncio até eles nascerem? Ou prefere que eu leve isso a público? Não imagino a reação do seu avô… talvez o coração dele não aguente.
O marido dela sorriu de lado, como um carrasco satisfeito.
Eu respirei fundo, contei mentalmente até dez.
— Quanto vocês querem?
Ela ergueu dois dedos, elegante como uma dama num baile.
— Dez milhões de dólares por criança.
Fitei os dois longamente, pesando cada palavra antes de responder.
— Quando eles nascerem, serão meus?
Antonella inclinou-se para a frente, com aquele sorriso c***l.
— Não, querido. Serão meus. Você só vai pagar pelo meu silêncio. A custódia é minha. As crianças serão criadas por mim e pelo meu marido. Você só precisa pagar pelo privilégio de ninguém descobrir.
Minha mandíbula travou com força.
— Eu preciso ir trabalhar — respondi, por fim. — O meu advogado vai entrar em contato com vocês.
Ele vai resolver tudo, eu não quero mais nenhum contato, até a comprovação de que essas crianças são minhas. Após o nascimento, faremos os exames. Se o DNA confirmar a paternidade… vocês receberão o dinheiro.
Levantei-me da mesa sem esperar resposta.
Saí do restaurante com o peito queimando, a respiração pesada e a sensação amarga de que o dia, que já era difícil, acabara de se tornar um inferno.