O sol nasceu sem pressa naquele dia, filtrando-se pelas cortinas do quarto com uma luz quase sagrada. O relógio marcava seis horas.
A ligação do hospital veio poucos minutos depois.
— Senhorita Hope, a cirurgia da sua irmã foi antecipada. O procedimento começará às oito.
A voz da enfermeira soava calma, mas cada palavra soou como um sino dentro do meu peito.
O corpo reagiu antes da mente. Em poucos minutos, eu já estava vestida, de casaco e lenço, o coração pulsando em ritmo de oração.
O caminho até o hospital foi silencioso.
Mark dirigia com o olhar fixo na estrada, respeitando o meu recolhimento.
As árvores ao longo do trajeto pareciam orar comigo — inclinando-se, uma a uma, sob o peso da brisa.
Quando o portão do hospital surgiu ao longe, fiz o sinal da cruz.
— Ela vai ficar bem — disse Mark, com voz firme, tentando me confortar.
— Eu sei. Deus não traz ninguém até a beira do milagre para deixá-lo desabar — respondi, sem tirar os olhos do horizonte.
Ele sorriu, como quem ouve uma verdade antiga.
No hospital, a atmosfera era fria e limpa. O cheiro do éter, o som dos passos apressados e o murmúrio constante de vozes técnicas — tudo se misturava num ritual que só quem já esperou uma sala de cirurgia entende.
Faith foi levada pelos enfermeiros.
Antes que a porta se fechasse, ela virou o rosto e murmurou:
— Hope, não chora, eu volto.
E sumiu atrás da luz branca do corredor.
O tempo parou.
Sentei no banco do corredor e fechei os olhos. Não havia mais nada que eu pudesse fazer, exceto orar.
— Senhor, ela é Tua filha. Não a deixes partir agora.
As palavras saíam baixas, quebradas. Cada lembrança vinha como um rio: nossas risadas, o pão dividido, os sonhos sussurrados entre lençóis finos.
Tudo que tínhamos era uma à outra.
E agora, tudo o que eu tinha era fé.
O relógio marcava oito e quarenta e cinco.
As mãos tremiam.
Mark tentou me distrair com café, mas a voz dele parecia distante.
O tempo se arrastava quando, do outro lado da cidade, Anthony interrompeu uma reunião.
— Adie tudo — disse, para surpresa do assessor.
— Mas, senhor, o conselho—
— Eu disse adie.
Levantou-se, pegou o casaco e saiu.
Ninguém ousou perguntar o motivo.
Ele chegou ao hospital às nove e meia, sem avisar.
Não entrou.
Ficou parado do lado de fora, observando de longe a mulher que, dias antes, ele havia tratado como um contrato.
Hope estava sentada, com as mãos entrelaçadas, os olhos marejados, o rosto pálido de oração.
Anthony nunca havia visto alguém orar daquele jeito — não como um pedido, mas como entrega.
E algo dentro dele, algo adormecido há anos, começou a se mover.
Entrou discretamente e se aproximou de Mark.
— Situação?
— Cirurgia longa, mas sob controle — respondeu o advogado. — Ela tem fé, e isso parece segurar tudo.
Anthony apenas assentiu, em silêncio.
Depois, entregou um envelope a uma enfermeira:
— Para a paciente Faith Salazar. Quando ela acordar, entregue isso. —
Dentro havia uma rosa branca e um bilhete com apenas duas palavras:
“Você vai viver.”
O tempo avançou devagar.
Quando o relógio marcou onze e vinte, o médico apareceu.
O rosto cansado dele trazia boas notícias.
— O procedimento foi bem-sucedido. A paciente está estável.
As pernas fraquejaram.
Eu chorei — não de desespero, mas de alívio.
Mark me amparou, e por um segundo, o mundo inteiro pareceu voltar a respirar.
Foi então que percebi Anthony parado à distância, observando.
Os olhos dele — sempre tão frios — tinham outra luz.
Ele não falou nada. Apenas inclinou levemente a cabeça, num gesto discreto, e saiu do hospital.
De volta à mansão, o entardecer coloria o céu em tons de cobre.
Mirtes me esperava na escada, e quando viu meu rosto, compreendeu sem palavras.
— Ela está viva — murmurei.
Mirtes sorriu com os olhos marejados. — Deus ouviu.
Subi ao quarto e sentei diante da janela. Lá fora, o jardim estava coberto por pequenas luzes.
Anthony havia ordenado que as acendessem todas — talvez sem perceber o porquê.
Talvez ele só quisesse afastar a escuridão.
Naquela noite, rezei diferente.
Não pedi nada.
Apenas agradeci.
“Senhor, se a fé move montanhas, hoje ela moveu a minha vida.
Obrigada por não me deixar sozinha na casa dos poderosos.
E se esse homem que parece de pedra ainda tem alma, que ela desperte antes que o tempo a endureça de vez.”
Do lado de fora, Anthony estava no escritório.
Segurava um copo de whisky que não bebeu.
Na mesa, o bilhete rasgado que ele mesmo havia escrito antes de enviá-lo à Faith.
As palavras “Você vai viver” pareciam zombar da descrença que ele sempre carregou.
Encostou-se na cadeira e fechou os olhos.
E pela primeira vez em muito tempo, ele orou — sem saber a quem.
O relógio da mansão marcou meia-noite.
A lua entrou pelas frestas da janela, desenhando uma cruz no chão.
Faith respirava em paz no hospital.
Anthony, em silêncio, começava a entender que certas promessas são cumpridas mesmo sem serem ditas.
E eu, Hope Salazar, sentia o coração em chamas, como se Deus tivesse acabado de assinar comigo o verdadeiro contrato — o da esperança.