}}}}VIDA E A PROMESSA

890 Words
O sol nasceu sem pressa naquele dia, filtrando-se pelas cortinas do quarto com uma luz quase sagrada. O relógio marcava seis horas. A ligação do hospital veio poucos minutos depois. — Senhorita Hope, a cirurgia da sua irmã foi antecipada. O procedimento começará às oito. A voz da enfermeira soava calma, mas cada palavra soou como um sino dentro do meu peito. O corpo reagiu antes da mente. Em poucos minutos, eu já estava vestida, de casaco e lenço, o coração pulsando em ritmo de oração. O caminho até o hospital foi silencioso. Mark dirigia com o olhar fixo na estrada, respeitando o meu recolhimento. As árvores ao longo do trajeto pareciam orar comigo — inclinando-se, uma a uma, sob o peso da brisa. Quando o portão do hospital surgiu ao longe, fiz o sinal da cruz. — Ela vai ficar bem — disse Mark, com voz firme, tentando me confortar. — Eu sei. Deus não traz ninguém até a beira do milagre para deixá-lo desabar — respondi, sem tirar os olhos do horizonte. Ele sorriu, como quem ouve uma verdade antiga. No hospital, a atmosfera era fria e limpa. O cheiro do éter, o som dos passos apressados e o murmúrio constante de vozes técnicas — tudo se misturava num ritual que só quem já esperou uma sala de cirurgia entende. Faith foi levada pelos enfermeiros. Antes que a porta se fechasse, ela virou o rosto e murmurou: — Hope, não chora, eu volto. E sumiu atrás da luz branca do corredor. O tempo parou. Sentei no banco do corredor e fechei os olhos. Não havia mais nada que eu pudesse fazer, exceto orar. — Senhor, ela é Tua filha. Não a deixes partir agora. As palavras saíam baixas, quebradas. Cada lembrança vinha como um rio: nossas risadas, o pão dividido, os sonhos sussurrados entre lençóis finos. Tudo que tínhamos era uma à outra. E agora, tudo o que eu tinha era fé. O relógio marcava oito e quarenta e cinco. As mãos tremiam. Mark tentou me distrair com café, mas a voz dele parecia distante. O tempo se arrastava quando, do outro lado da cidade, Anthony interrompeu uma reunião. — Adie tudo — disse, para surpresa do assessor. — Mas, senhor, o conselho— — Eu disse adie. Levantou-se, pegou o casaco e saiu. Ninguém ousou perguntar o motivo. Ele chegou ao hospital às nove e meia, sem avisar. Não entrou. Ficou parado do lado de fora, observando de longe a mulher que, dias antes, ele havia tratado como um contrato. Hope estava sentada, com as mãos entrelaçadas, os olhos marejados, o rosto pálido de oração. Anthony nunca havia visto alguém orar daquele jeito — não como um pedido, mas como entrega. E algo dentro dele, algo adormecido há anos, começou a se mover. Entrou discretamente e se aproximou de Mark. — Situação? — Cirurgia longa, mas sob controle — respondeu o advogado. — Ela tem fé, e isso parece segurar tudo. Anthony apenas assentiu, em silêncio. Depois, entregou um envelope a uma enfermeira: — Para a paciente Faith Salazar. Quando ela acordar, entregue isso. — Dentro havia uma rosa branca e um bilhete com apenas duas palavras: “Você vai viver.” O tempo avançou devagar. Quando o relógio marcou onze e vinte, o médico apareceu. O rosto cansado dele trazia boas notícias. — O procedimento foi bem-sucedido. A paciente está estável. As pernas fraquejaram. Eu chorei — não de desespero, mas de alívio. Mark me amparou, e por um segundo, o mundo inteiro pareceu voltar a respirar. Foi então que percebi Anthony parado à distância, observando. Os olhos dele — sempre tão frios — tinham outra luz. Ele não falou nada. Apenas inclinou levemente a cabeça, num gesto discreto, e saiu do hospital. De volta à mansão, o entardecer coloria o céu em tons de cobre. Mirtes me esperava na escada, e quando viu meu rosto, compreendeu sem palavras. — Ela está viva — murmurei. Mirtes sorriu com os olhos marejados. — Deus ouviu. Subi ao quarto e sentei diante da janela. Lá fora, o jardim estava coberto por pequenas luzes. Anthony havia ordenado que as acendessem todas — talvez sem perceber o porquê. Talvez ele só quisesse afastar a escuridão. Naquela noite, rezei diferente. Não pedi nada. Apenas agradeci. “Senhor, se a fé move montanhas, hoje ela moveu a minha vida. Obrigada por não me deixar sozinha na casa dos poderosos. E se esse homem que parece de pedra ainda tem alma, que ela desperte antes que o tempo a endureça de vez.” Do lado de fora, Anthony estava no escritório. Segurava um copo de whisky que não bebeu. Na mesa, o bilhete rasgado que ele mesmo havia escrito antes de enviá-lo à Faith. As palavras “Você vai viver” pareciam zombar da descrença que ele sempre carregou. Encostou-se na cadeira e fechou os olhos. E pela primeira vez em muito tempo, ele orou — sem saber a quem. O relógio da mansão marcou meia-noite. A lua entrou pelas frestas da janela, desenhando uma cruz no chão. Faith respirava em paz no hospital. Anthony, em silêncio, começava a entender que certas promessas são cumpridas mesmo sem serem ditas. E eu, Hope Salazar, sentia o coração em chamas, como se Deus tivesse acabado de assinar comigo o verdadeiro contrato — o da esperança.
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