A estrada parecia interminável, uma linha cinza que cortava o horizonte e se perdia sob o céu de nuvens baixas. Mark dirigia com atenção e serenidade, como quem compreende o peso invisível do silêncio. Faith dormia encostada no vidro, e cada movimento do peito frágil dela era uma súplica muda para que o tempo desacelerasse.
Eu observava a paisagem, tentando acreditar que tudo aquilo realmente estava acontecendo. Quando o portão de ferro se abriu diante de nós, senti o coração apertar. Era como atravessar uma fronteira entre o conhecido e o incerto.
A mansão Vitale surgiu majestosamente, com suas colunas imponentes e janelas longas. Havia algo de belo e impiedoso naquela construção, como se cada pedra tivesse sido colocada para lembrar quem era dono do mundo.
Mark diminuiu a velocidade, e o som dos pneus sobre a brita ecoou como passos de gigante. Eu quis perguntar se era tarde demais para voltar, mas permaneci em silêncio. Faith acordou, piscando lentamente.
— Chegamos, mana — sussurrei.
— É aqui que a gente vai morar? — perguntou, a voz rouca, entre a esperança e o cansaço.
— Por um tempo, sim. Até que tudo se ajeite.
Ela olhou pelas janelas e abriu um sorriso fraco. — Parece uma casa de filme.
— E nós duas nunca fomos boas personagens de contos de fadas — respondi.
Faith riu baixinho, um som frágil, mas vivo.
O carro parou diante da entrada principal. Uma mulher de aparência firme, cabelos grisalhos bem penteados e olhos claros, esperava no topo dos degraus. Usava um uniforme sóbrio, impecável, e transmitia a segurança de quem está acostumada a cuidar de tudo.
Mark desligou o motor e virou-se para nós:
— Essa é a senhora Mirtes. É a governanta da casa. Ela vai cuidar de vocês e mostrar onde ficarão.
Desci do carro com cuidado, o chão frio sob os sapatos. Ajudei Faith a se apoiar em mim, e juntas subimos as escadas.
— Sejam bem-vindas — disse Mirtes, com um leve aceno de cabeça. — O senhor Anthony pediu que tudo estivesse pronto. Acomodamos a senhorita Faith no quarto principal da ala leste, perto da enfermaria particular. A senhorita Hope ficará ao lado.
— Obrigada — respondi. — Ele foi muito gentil em providenciar tudo isso.
— O senhor Anthony é prático, senhora. Gentileza não costuma ser o termo que usamos, mas… ele é justo.
A voz dela soou neutra, mas algo no olhar revelava respeito.
Seguimos pelo corredor principal, e a sensação era de estar dentro de um museu. O piso de mármore refletia os vitrais coloridos, e o ar trazia o perfume discreto de lavanda.
Nenhum som além dos passos de Mirtes e do arrastar suave dos meus sapatos.
— A mansão é antiga? — perguntei, apenas para quebrar o silêncio.
— Construída pelo bisavô do senhor Anthony. Quatro gerações viveram aqui.
— Parece… solitária.
— É — respondeu ela sem hesitar. — Mas algumas solidões são herdadas, senhorita.
O comentário ficou pairando no ar. Ao chegarmos ao andar de cima, ela abriu a porta de um quarto luminoso, com cortinas de linho e paredes cor-de-creme. A cama de Faith estava coberta com lençóis brancos, e um buquê de flores frescas perfumava o ar.
— Espero que gostem. A casa tem médicos de plantão. O senhor Anthony exigiu que os cuidados fossem contínuos.
Faith sentou-se na cama, olhando ao redor como quem desperta de um sonho. — Nunca pensei que fosse dormir num lugar assim.
— Você vai se acostumar — menti, sorrindo. — E vai ficar boa.
Mirtes deixou a bandeja com chá e remédios sobre a cômoda.
— O jantar será servido às sete. O senhor Anthony pediu que não se preocupem com formalidades. — Depois, virou-se para mim. — A senhorita também deve descansar. Parece cansada.
— Estou bem, obrigada. Só um pouco sobrecarregada.
Quando ela saiu, sentei na poltrona próxima à cama e fiquei observando Faith. O rosto dela parecia mais tranquilo, e isso me bastava.
Havia tanto o que agradecer e tanto o que temer.
O relógio marcava seis da tarde quando decidi caminhar um pouco pelos corredores. Queria entender aquele lugar — e talvez, entender a mim mesma.
Passei pelo saguão principal, onde um piano antigo repousava no canto. O som de uma chuva fina começou a bater nas janelas.
A mansão parecia viva, respirando em ritmos próprios.
E, de alguma forma, senti que ela me observava também.
Do outro lado da casa, uma porta entreaberta revelava um escritório elegante, com prateleiras altas e cheiro de papel antigo.
Anthony estava ali, em pé, falando ao telefone.
A luz dourada do abajur desenhava os contornos do rosto dele — sério, concentrado, com uma expressão que misturava cansaço e cálculo.
Eu parei na sombra do corredor. Não queria ser vista.
Ele falava em voz baixa:
— Está resolvido. Nenhum vazamento, nenhum escândalo. O acordo está sob sigilo.
A pausa seguinte foi longa.
— Sim, ela chegou. As duas. — Silêncio. — Não, não é o que você está pensando. É um contrato, nada além disso.
O tom seco das palavras me atingiu de um jeito que não esperei.
Era um contrato. Eu sabia. Eu mesma aceitei.
Mas ouvir da boca dele era como uma lâmina fria na pele.
Afastei-me devagar, antes que ele percebesse.
No caminho de volta, respirei fundo, tentando afastar o incômodo. Não podia esperar delicadeza de um homem que falava de vidas como quem fala de negócios. Ainda assim, havia algo em sua voz — um cansaço disfarçado, uma culpa que tentava se esconder entre ordens e relatórios.
Voltei ao quarto. Faith dormia.
Sentei na poltrona e fiquei observando a respiração dela.
Do lado de fora, o vento batia nas janelas como se quisesse entrar.
Peguei o terço que a irmã Teresa me dera no dia em que saímos do orfanato e enrosquei os dedos nas contas frias.
Rezei baixinho:
“Senhor, não me deixe me perder. Dá-me força para cumprir o que prometi, e serenidade para aceitar o que não posso mudar.”
O cansaço pesou, e adormeci ali mesmo, sentada, com o terço nas mãos.
Acordei no meio da noite com um barulho distante. A chuva havia parado.
Faith dormia profundamente. Saí do quarto sem fazer ruído.
No corredor, as luzes estavam baixas, e um cheiro de café fresco se espalhava. Segui até o saguão principal, e lá estava ele — Anthony — encostado no corrimão da escada, vestindo apenas a camisa branca arregaçada nos punhos, os cabelos desalinhados.
Parecia outro homem, longe das máscaras do dia.
Quando me viu, endireitou-se.
— Não conseguiu dormir? — perguntou, a voz baixa.
— Ainda não me acostumei com o silêncio daqui.
— Essa casa tem muitos fantasmas — disse ele, olhando para o nada. — Uns moram nas paredes. Outros dentro de mim.
A resposta me pegou desprevenida.
— Talvez precise de mais fé, senhor Vitale.
Ele sorriu, sem ironia. — Fé é o que você tem. E o que eu perdi faz muito tempo.
O olhar dele se demorou por um instante.
Depois, afastou-se.
— Volte a descansar, Hope. Amanhã vai ser um dia longo.
Fiquei parada ali, observando a sombra dele desaparecer pelo corredor.
Talvez o destino tivesse começado a nos costurar na mesma linha — a fé de uma mulher e o vazio de um homem.
No alto da escada, o vento voltou a soprar. A mansão respirava outra vez, como se tivesse ouvido a prece que nenhum de nós ousava dizer em voz alta.
De volta ao quarto, sentei na cama e olhei para o rosto sereno de Faith.
Ela parecia tão distante, tão pura, que dava vontade de chorar.
Encostei a testa na mão dela e murmurei:
— Você é minha promessa. Tudo o que eu fizer daqui pra frente é por você.
Fechei os olhos e imaginei a voz da irmã Teresa repetindo suas palavras antigas:
“Quem escolhe amar, escolhe carregar o mundo.”
A mansão silenciou de novo.
Dessa vez, o silêncio já não parecia hostil.
Parecia apenas esperar.