O Sussurro do Leilão
O relógio da parede da lanchonete parecia arrastar os minutos com crueldade. Hope se movia rápido entre as mesas, equilibrando a bandeja com pedidos de café, sanduíches e sobremesas. O corpo já reclamava da rotina dupla, mas a mente estava em outro lugar: no hospital, nos exames, no diagnóstico que parecia uma sentença. Faith precisava de cirurgia, e Hope não via como conseguir o dinheiro. Cada bandeja servida era um lembrete da urgência.
Na mesa do canto, duas jovens conversavam animadamente. Estavam bem vestidas, com roupas simples mas de corte elegante, e exalavam a confiança de quem já havia conquistado algo. Hope se aproximou com um sorriso automático, colocando sobre a mesa dois milk-shakes e uma porção de batatas fritas.
Foi nesse momento que ouviu o sussurro.
— …vai ter outro leilão no clube essa semana — disse uma delas, inclinando-se sobre a mesa. — Eu soube que já tem três meninas novas confirmadas.
— É, ouvi o mesmo. Uma vez por mês, sempre aparece alguém desesperada…
Hope parou por um segundo, os ouvidos atentos. O coração acelerou. Leilão? Ela ajeitou a bandeja contra o corpo e, sem conseguir se conter, perguntou em voz baixa:
— Desculpem… eu não queria ser indiscreta. Eu só vim trazer o pedido de vocês, mas… vocês falaram sobre um leilão de… virgindade?
As duas congelaram. Trocaram olhares rápidos, desconfiados. Uma delas, a morena de cabelo liso e olhos castanhos, estreitou o olhar.
— Você escutou?
Hope engoliu em seco, apertando o pano do avental entre os dedos.
— Não foi por curiosidade. É que… eu ouvi enquanto colocava os pratos.
As duas meninas ficaram em silêncio por alguns segundos. A outra, loira de rosto delicado, suspirou fundo e sussurrou:
— É verdade. Existe um clube na cidade. Uma vez por mês, fazem um leilão de virgindade. Quem está precisando de dinheiro urgente vai lá e… vende.
Hope sentiu o ar preso no peito. A boca ficou seca. Ainda assim, forçou a voz:
— Vocês… conhecem alguém que já fez isso? Que deu certo?
As duas se inclinaram, baixaram o tom, como se a conversa fosse segredo perigoso.
— Nós duas — disse a morena, apontando para si e para a amiga. — Mas você promete que não conta a ninguém?
Hope assentiu sem hesitar.
— Prometo.
A loira abriu um sorriso pequeno.
— Nós duas vendemos nossa virgindade lá. Cada uma recebeu um milhão.
Hope arregalou os olhos.
— Um milhão… cada uma?
— Sim. — a morena confirmou. — Nós já pagamos toda a faculdade. Compramos um apartamento pequeno para dividir e cada uma de nós tem um carro popular. Agora trabalhamos só meio período. Nossa vida mudou.
Hope respirou fundo, a voz embargada pela urgência que queimava por dentro.
— Eu preciso me inscrever nesse leilão.
As duas se entreolharam.
— Você… é virgem? — perguntou a morena.
Hope corou, mas não hesitou.
— Nunca tive namorado. Nunca estive com ninguém.
A loira inclinou-se para a frente, intrigada.
— E por que você faria isso?
Hope sentiu as lágrimas subirem, mas manteve a voz firme.
— Minha irmã está com câncer. Ela precisa de cirurgia urgente. O tumor já se espalhou para o fígado. Eu trabalho em dois turnos aqui, faço o meu horário e o dela porque ela não pode mais trabalhar. Mas… não é suficiente. Eu preciso de dinheiro. Preciso salvar a vida dela.
O silêncio tomou a mesa. As duas jovens ficaram tocadas, os rostos suavizados. Finalmente, a loira sorriu, quase com ternura.
— Você é linda. E é diferente. Tem uma beleza natural, exótica. Aposto que consegue um bom dinheiro.
A morena assentiu.
— Você vai conseguir muito mais do que nós conseguimos.
Hope piscou as lágrimas, tentando se segurar.
— Vocês podem me ajudar?
— Sim. — a loira respondeu de imediato. — Mas precisa ser discreta. Termine o seu trabalho. A que horas você sai hoje?
— Pedi para sair mais cedo — disse Hope. — Tenho que levar minha irmã ao médico às dezoito horas.
— Que horas você sai daqui? — insistiu a morena.
— Daqui a meia hora. — Hope olhou para o relógio. — Saio às dezesseis.
A loira sorriu.
— Perfeito. Nós te esperamos. Enquanto isso, falamos com o Mark.
Hope franziu a testa.
— Mark?
— Ele é quem nos apresentou ao clube. — a morena explicou. — É amigo do dono. Consegue que as meninas não caiam em mãos ruins. Nós duas tivemos sorte, graças a ele. Até hoje estamos com os caras que compraram nossa virgindade. Não somos amantes, como muita gente pensa. Viramos namoradas deles. E queremos casar um dia.
Hope sentiu uma pontada de esperança.
— Vocês acham que ele pode me ajudar?
— Absoluta certeza. — a loira disse. — Ele é justo. Vai ouvir sua história e encontrar um homem decente para você.
Hope respirou fundo, tentando absorver tudo.
— Então… vocês me esperam?
— Esperamos. — respondeu a morena. — Quando você terminar, a gente te leva.
Hope apertou o bloco de anotações contra o peito. A garganta queimava.
— Obrigada. Vocês não sabem o quanto isso significa.
Elas trocaram um olhar cúmplice.
— Só… não conte a ninguém. Esse mundo é perigoso, mas o Mark vai cuidar disso.
Hope assentiu.
— Eu prometo.
Saiu dali com o coração em disparada, as pernas tremendo. Por trás do balcão, ajeitou o avental, pegou a bandeja seguinte e tentou sorrir para os clientes. Mas por dentro, o mundo girava.
Em trinta minutos, tudo poderia mudar.
E, pela primeira vez, Hope sentiu que a promessa de salvar Faith talvez pudesse ser cumprida… ainda que o preço fosse a própria alma.