####O LEILÃO

948 Words
O Sussurro do Leilão O relógio da parede da lanchonete parecia arrastar os minutos com crueldade. Hope se movia rápido entre as mesas, equilibrando a bandeja com pedidos de café, sanduíches e sobremesas. O corpo já reclamava da rotina dupla, mas a mente estava em outro lugar: no hospital, nos exames, no diagnóstico que parecia uma sentença. Faith precisava de cirurgia, e Hope não via como conseguir o dinheiro. Cada bandeja servida era um lembrete da urgência. Na mesa do canto, duas jovens conversavam animadamente. Estavam bem vestidas, com roupas simples mas de corte elegante, e exalavam a confiança de quem já havia conquistado algo. Hope se aproximou com um sorriso automático, colocando sobre a mesa dois milk-shakes e uma porção de batatas fritas. Foi nesse momento que ouviu o sussurro. — …vai ter outro leilão no clube essa semana — disse uma delas, inclinando-se sobre a mesa. — Eu soube que já tem três meninas novas confirmadas. — É, ouvi o mesmo. Uma vez por mês, sempre aparece alguém desesperada… Hope parou por um segundo, os ouvidos atentos. O coração acelerou. Leilão? Ela ajeitou a bandeja contra o corpo e, sem conseguir se conter, perguntou em voz baixa: — Desculpem… eu não queria ser indiscreta. Eu só vim trazer o pedido de vocês, mas… vocês falaram sobre um leilão de… virgindade? As duas congelaram. Trocaram olhares rápidos, desconfiados. Uma delas, a morena de cabelo liso e olhos castanhos, estreitou o olhar. — Você escutou? Hope engoliu em seco, apertando o pano do avental entre os dedos. — Não foi por curiosidade. É que… eu ouvi enquanto colocava os pratos. As duas meninas ficaram em silêncio por alguns segundos. A outra, loira de rosto delicado, suspirou fundo e sussurrou: — É verdade. Existe um clube na cidade. Uma vez por mês, fazem um leilão de virgindade. Quem está precisando de dinheiro urgente vai lá e… vende. Hope sentiu o ar preso no peito. A boca ficou seca. Ainda assim, forçou a voz: — Vocês… conhecem alguém que já fez isso? Que deu certo? As duas se inclinaram, baixaram o tom, como se a conversa fosse segredo perigoso. — Nós duas — disse a morena, apontando para si e para a amiga. — Mas você promete que não conta a ninguém? Hope assentiu sem hesitar. — Prometo. A loira abriu um sorriso pequeno. — Nós duas vendemos nossa virgindade lá. Cada uma recebeu um milhão. Hope arregalou os olhos. — Um milhão… cada uma? — Sim. — a morena confirmou. — Nós já pagamos toda a faculdade. Compramos um apartamento pequeno para dividir e cada uma de nós tem um carro popular. Agora trabalhamos só meio período. Nossa vida mudou. Hope respirou fundo, a voz embargada pela urgência que queimava por dentro. — Eu preciso me inscrever nesse leilão. As duas se entreolharam. — Você… é virgem? — perguntou a morena. Hope corou, mas não hesitou. — Nunca tive namorado. Nunca estive com ninguém. A loira inclinou-se para a frente, intrigada. — E por que você faria isso? Hope sentiu as lágrimas subirem, mas manteve a voz firme. — Minha irmã está com câncer. Ela precisa de cirurgia urgente. O tumor já se espalhou para o fígado. Eu trabalho em dois turnos aqui, faço o meu horário e o dela porque ela não pode mais trabalhar. Mas… não é suficiente. Eu preciso de dinheiro. Preciso salvar a vida dela. O silêncio tomou a mesa. As duas jovens ficaram tocadas, os rostos suavizados. Finalmente, a loira sorriu, quase com ternura. — Você é linda. E é diferente. Tem uma beleza natural, exótica. Aposto que consegue um bom dinheiro. A morena assentiu. — Você vai conseguir muito mais do que nós conseguimos. Hope piscou as lágrimas, tentando se segurar. — Vocês podem me ajudar? — Sim. — a loira respondeu de imediato. — Mas precisa ser discreta. Termine o seu trabalho. A que horas você sai hoje? — Pedi para sair mais cedo — disse Hope. — Tenho que levar minha irmã ao médico às dezoito horas. — Que horas você sai daqui? — insistiu a morena. — Daqui a meia hora. — Hope olhou para o relógio. — Saio às dezesseis. A loira sorriu. — Perfeito. Nós te esperamos. Enquanto isso, falamos com o Mark. Hope franziu a testa. — Mark? — Ele é quem nos apresentou ao clube. — a morena explicou. — É amigo do dono. Consegue que as meninas não caiam em mãos ruins. Nós duas tivemos sorte, graças a ele. Até hoje estamos com os caras que compraram nossa virgindade. Não somos amantes, como muita gente pensa. Viramos namoradas deles. E queremos casar um dia. Hope sentiu uma pontada de esperança. — Vocês acham que ele pode me ajudar? — Absoluta certeza. — a loira disse. — Ele é justo. Vai ouvir sua história e encontrar um homem decente para você. Hope respirou fundo, tentando absorver tudo. — Então… vocês me esperam? — Esperamos. — respondeu a morena. — Quando você terminar, a gente te leva. Hope apertou o bloco de anotações contra o peito. A garganta queimava. — Obrigada. Vocês não sabem o quanto isso significa. Elas trocaram um olhar cúmplice. — Só… não conte a ninguém. Esse mundo é perigoso, mas o Mark vai cuidar disso. Hope assentiu. — Eu prometo. Saiu dali com o coração em disparada, as pernas tremendo. Por trás do balcão, ajeitou o avental, pegou a bandeja seguinte e tentou sorrir para os clientes. Mas por dentro, o mundo girava. Em trinta minutos, tudo poderia mudar. E, pela primeira vez, Hope sentiu que a promessa de salvar Faith talvez pudesse ser cumprida… ainda que o preço fosse a própria alma.
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