4 CAPÍTULO – Fiona

2817 Words
Pov Catarina Eu nunca fui alguém impulsiva na minha vida, para ser bem sincera racionalidade deveria ser meu sobrenome. Pensar duas vezes antes de agir era pouco, eu sempre pensava um milhão de vezes, principalmente depois que fui extremamente machucada pela única mulher que amei de verdade. Sobreviver a uma traição já é bem difícil, a duas então... Desde que Angélica me traiu com meu primo, que era também meu melhor amigo, nunca mais fui à mesma, jamais voltei a me entregar a uma relação novamente. Não voltei confiar a ninguém meu coração, em resumo... Depois de Angélica, me envolvi com poucas mulheres, mas para nenhuma tive desejo de dar o título de namorada, tão pouco fui carinhosa, menos ainda quis mantê-las ao meu lado. Eu não era exatamente o tipo de pessoa que me importava com as dores dos outros, pois ninguém importou-se com as minhas dores. No entanto, desde o dia que Verônica contou sobre sua preocupação com o emocional da amiga que teve seu casamento interrompido durante a cerimônia, por alguma razão me sensibilizei com a história e incentivei Verônica a convencê-la mudar para BH. Mesmo sem saber dos detalhes daquele final trágico, meu coração palpitou com a história, não quis pensar a respeito, mas talvez fosse porque eu conhecia a dor de uma expectativa frustrada. De alguma forma eu entendia o que estava se passando no coração daquela desconhecida, e assim como eu no meu passado, acredito que ela precisava se reinventar, mas isso não seria possível se ficasse presa a tudo que viveu com o ex noivo. Ela precisava de novos ares. Verônica havia me falado sobre a personalidade desajeitada da amiga, lógico que sua preocupação estava com os problemas que a convivência poderia nos trazer, tamanha eram nossas inúmeras diferenças, mas juro que não pensei que fossem tantas. Em apenas uma semana de convivência com Lorena, eu estava quase enlouquecendo. Nós duas discutíamos quase que 24 horas por dia, eu digo quase porque isso só não acontecia quando estávamos dormindo ou quando eu ia trabalhar. O que Samantha tinha de bagunceira, Lorena tinha de estabanada, sua desatenção arrancava diversas gargalhadas de Samantha, que por sinal parecia venerar a recém-chegada. Mas eu? Bom, isso me tirava do sério com uma facilidade incomum, me tirava mais do sério ainda a capacidade que Lorena tinha de me fazer mudar de opinião com a mesma rapidez. Quando eu via aquele seu jeito carinhoso com Laika ou a bondade que transbordava em seus olhos, meu coração amolecia a ponto de me sentir culpada por ser rude com ela. Nenhuma outra mulher conseguia me desestabilizar com facilidade e de repente viver isso me enlouquecia. – Bom dia! – Verônica entrou na cozinha já roubando meu suco. – Ei, esse suco é meu. – Disse indignada. – Era seu, meu amor. – Ela piscou para mim provocando risadas em Samantha. – Eu estou super atrasada para aplicar prova em uma das minhas turmas, então praticidade nessa hora. – Já vi que hoje você não volta para o almoço. – Sam passou uma torrada para Verônica, que sequer mastigava. – Não mesmo, Sam. O dia vai ser de cão na universidade. A propósito, qual de vocês vai poder levar Lorena no local que ela quer alugar para montar o pet shop? Tratei de baixar a cabeça quase enfiando-a dentro do prato com cereal que comia. Não que Lorena parecesse ser uma companhia chata, ela só era irritante, e eu não conseguia me imaginar ao seu lado por cinco minutos sem idealizar formas de matá-la. – Eu adoraria, mas hoje tenho uma lista de remédios para serem manipulados. Não posso correr o risco de chegar atrasada. Meu chefe me mata. Permanecia em silêncio, mas senti o olhar das duas me queimando e isso estava quase me provocando um tique nervoso. – O que foi? Por que estão me olhando assim? – Qual é, Cat. Nós sabemos que você consegue atrasar um pouquinho para chegar até a agência. Seu pai não vai brigar nadinha com você. – Aquele olhar de cachorro pidão de Verônica era um golpe baixo. – Ela não conhece nada por aqui. – É justamente por isso que existe GPS. Tentei ser indiferente, mas a verdade é que imaginar o tanto de confusão que aquela estabanada poderia se meter andando por Belo Horizonte sozinha chegava a me dar calafrios. – Não seja escrota, Catarina. – Samantha ralhou comigo. – A Lorena não merece ser tratada m*l por você, ela é uma ótima pessoa e está passando por um momento de transição depois de um caos em sua vida. Além disso, ela não anda muito bem. – O que aconteceu? – Verônica adiantou-se e fez a pergunta que eu também quis fazer. – Essa é a segunda noite que escutei gemidos de choro vindo do quarto dela. Apesar de sempre estar querendo mostrar que está bem e superando, a verdade é que eu acho que ela nunca esteve tão m*l. – Droga, eu tenho sido uma péssima amiga. – Vero lamentou. – Eu deveria ser mais presente nesse momento. Do jeito que ela é teimosa, jamais vai admitir que está m*l. – Você não vai mesmo nos contar porque o noivado foi interrompido? – Larga de ser fofoqueira. – Joguei a casca de banana em Samantha. – O que é? Vai me dizer que você também não tem curiosidade? – Eu não! Afirmei, mas nem eu mesma acreditava naquela mentira. Tudo bem que Lorena era estabanada, mas ela aparentava ser alguém divertida, carinhosa, bonita, inteligente, companheira... Nossa, pensando bem ela parecia ter bastantes qualidades. O que faria alguém desistir de casar com ela? – Cara de p*u! – Senti a casca de banana atingindo meu rosto. – Aposto que está agora mesmo pensando na novata. Quase fuzilei Samantha com o olhar. – Chega vocês duas! Parem de jogar essa casca de banana uma na outra, às vezes eu acho que estou morando em um jardim de infância. Vocês parecem duas crianças. Verônica sempre foi como uma mãezona para mim, e Samantha. Nós três moramos juntas desde a época que fazíamos faculdade. Nos conhecemos em uma das feiras culturais produzidas pela universidade, na época meus pais precisaram mudar para a chácara da minha avó, que esteve muito doente e precisando de cuidados especiais, Agatha ainda estava no ensino médio, então foi fácil conseguir vaga em uma escola que ficava próximo à chácara, mas eu precisava continuar na cidade para continuar a faculdade, além de auxiliar na agência de viagens da família. O fato de ter escolhido cursar turismo deixou meu pai radiante, não foi difícil dele confiar em minhas mãos um dos cargos mais importantes da agência Alcântara. Samantha por sua vez, assim como Verônica, eram recém-chegada à Belo Horizonte, ambas buscavam dividir apartamento e desde então estamos as três juntas. – Eu não vou contar nada a vocês. Essa é uma coisa que cabe a Lolo fazer. – Verônica voltou a afirmar o que tentava convencer Samantha desde o dia que conversamos as três por chamada de vídeo. – E então Cat, você pode ou não pode levá-la? – Verônica, olha bem para minha cara e vê se eu lá tenho vocação para ser babá dessa desajeitada. O GPS pode não ajudá-la a encontrar o noivo perdido, mas certamente levará ela onde quer. No mesmo instante que falei, o olhar aterrorizado de Samantha olhando fixamente para trás de mim fez com que o arrependimento pelas palavras ditas batesse em meu coração de imediato. Verônica claramente me repreendia, mas já era tarde, só me restava encarar a besteira que fiz. – Lolo, sente-se conosco para tomar café. – Estou sem fome, Vero. O disfarce para esconder a voz magoada não adiantou, meu coração martelou e busquei sem sucesso o olhar de Lorena quando essa foi até Verônica deixando um beijo em sua testa. – Bom dia, Sam. – Ela repetiu o gesto beijando Samantha, que parecia envergonhada pelo o que eu havia dito. – Lorena, se você se apressar eu posso te dar uma carona até um ponto de táxi. – Não se preocupe Sam, não quero te atrapalhar. Posso ser do interior, mas sei me virar sozinha. Essa preocupação da Verônica é exagerada. Primeiro fato, pela primeira vez desde que chegou Lorena tinha ignorado minha presença, ela sequer retribuiu a provocação que ouviu anteriormente. Segundo fato, eu não estava certa dessa última afirmação da outra. – Tem certeza, Lorena? – Verônica sequer olhava em minha direção, eu tinha certeza que iria ouvir um sermão depois. – Pode ir trabalhar tranquila, amiga. – Observei Lorena encher um copo de suco, e percebi que seus olhos estavam tristes, demonstrando que a noite não tinha sido nada agradável para ela. – Vou voltar para cama, estou com dor de cabeça. Depois que Lorena se retirou da cozinha dois pares de olhos me fulminaram. – No momento estou atrasada, mas depois conversaremos sobre esse comportamento horrível. – Verônica afirmou já sumindo da cozinha. – O que é? Vai ficar me olhando assim até quando? – Perguntei para Samantha, que continuava a me crucificar com o olhar. – Que vergonha, dona Catarina. Que vergonha. Samantha também se retirou me deixando sozinha com a culpa tomando conta do coração que acreditavam que eu já não tinha. “Droga, porque diabos essa mulher me faz sentir essas coisas? Nós duas sequer temos i********e para que eu me sinta m*l em vê-la tão destruída”. Os pensamentos tomavam conta do meu bom senso. Horas mais tarde Já fazia vinte minutos que eu estava andando de um lado para o outro do meu quarto... Sentava, levantava, voltava a andar novamente. O motivo? Lorena furacão, esse era o apelido que dei para minha mais nova companheira de casa. Depois da besteira que falei durante o café da manhã sem saber que Lorena estava ouvindo, eu vivia um conflito comigo mesma. Eu sabia que não era certo fazer piadas com uma situação tão delicada e que estava fazendo m*l a outra, obviamente eu não sabia das suas dores, tão pouco conhecia o caminho que ela havia trilhado para chegar até ali, me sentia m*l pela besteira que falei, e agora buscava uma forma de me aproximar dela com a intenção de me desculpar, mas o que fazer quando o orgulho é maior? – Mas que droga hein Catarina, custava ter ficado de boca fechada? – Eu falava em voz alta, enquanto buscava pela chave do meu carro. – Agora é isso, vá em busca de consertar o erro que cometeu. Fui em direção ao quarto de Lorena, sem fazer ideia do que me esperava. Do jeito que é delicada como uma flor, provavelmente vai buscar qualquer coisa ao redor e me ameaçar, igual fez quando nos conhecemos. Depois eu que sou a maluca da casa. Ao chegar diante da porta percebi que estava entreaberta, e por isso não foi difícil ouvir um choro abafado no espaço interno. Ao que parecia, Lorena falava no telefone com alguém, enquanto chorava. Tudo bem, eu sabia que era falta de educação ouvir atrás da porta a conversa dos outros, provavelmente dona Silvia me mataria se soubesse que naquele momento eu estava deixando toda educação que ela me deu em último plano, mas a curiosidade falou mais alto, eu queria entender o motivo que estava levando Lorena a chorar tanto nos últimos dias. – Eu sei que devo superar, Mário. Não é como se eu fizesse questão de viver sofrendo, sabia? Mas acredite, saber disso é como uma segunda apunhalada pelas costas. Se já dar para ver a barriga como você diz, é sinal que ele já me traía há bastante tempo. Então foi por isso que o casamento não aconteceu... Traição! Eu nem conhecia o i****a do ex noivo de Lorena, mas já o considerava um pilantra. Como pode alguém ser capaz de machucar uma mulher como ela? Apesar de tudo, era notório como Lorena era daquele tipo de mulher que se doava em uma relação. Não acho que ela merecia passar por isso. – Tudo bem mano, eu preciso desligar agora. Tenho que ir ver o prédio onde pretendo abrir o pet shop. A grana da venda do apartamento e do carro já entrou na conta. Além disso, ainda preciso ver uma forma de comprar um carro novo, não posso ficar dependendo das meninas, elas trabalham bastante por aqui, e eu não sou nenhuma criança para ficar dando trabalho. Um silêncio se fez e eu imaginei que o irmão dela estava se despedindo também. A propósito, alguém deveria dizer para ela que existe controversas em relação aquela última afirmação. – Ok! Eu prometo tentar ficar bem, e você se cuida. Nada de sair procurando confusão por ai, ouviu bem, Mário? – Sua voz era suave. – Manda um beijo para a mamãe e o papai. Também te amo! Percebendo que a ligação foi finalizada soltei o ar que havia prendido e resolvi bater na porta antes que ela surgisse ali e me pegasse com a boca na botija. – Com licença... – Terminei de abrir a porta e logo recebi um olhar magoado de Lorena. – Posso? – Apontei para dentro. – O que quer? Respondeu com rispidez, mas foquei mesmo foi em seus olhos vermelhos. Por alguma razão, me incomodava vê-la chorando. – Ei, calma. – Ergui os braços em sinal de rendição. – Bandeira branca, ok? – Seu olhar tornou-se desconfiado. – Eu... Bom, eu só queria dizer que vou te dar uma carona. Ótimo! Algo me dizia que comecei errado com aquela aproximação. Depois do que falei mais cedo o certo era começar pedindo desculpas pela minha estupidez, o problema é que as vezes eu tinha uma pequena dificuldade em pedir desculpas. – Não precisa se incomodar com isso, Catarina. Como você mesma disse hoje cedo, o GPS me ajudará. Além disso, vou pedir um uber. É, parece que consegui encontrar alguém mais teimosa que eu, aliás, não apenas teimosa, mas também orgulhosa. – Para com isso Lorena, você sequer conhece direito a cidade, eu posso levá-la sem problemas. Recebi um olhar gélido da outra, que veio em minha direção em passos curtos. – Sabe o que é Catarina? Eu não costumo gostar de falsidade. Eu ouvi tudo que você falou mais cedo, sei que você não gosta de mim, e hoje realmente não é um bom dia para me fazer perder a paciência que ainda me resta, então realmente prefiro pegar um uber. Tchau! Ô mulherzinha tinhosa essa! Eu esperava do fundo do meu coração que Verônica não surgisse com mais amigas daquele jeito, ou eu correria um sério risco de envelhecer mais rápido do que era esperado. – Mas não vai mesmo! – Fui mais rápida impedindo-a de passar pela porta. – Você vai comigo nem que seja preciso eu te levar até o carro nos braços. – Ah, mas essa eu quero ver. Pronto, ela lançou o desafio para a pessoa errada. Apenas sorri de canto e nada respondi. ... – ME SOLTE AGORA OU EU JURO QUE VOU GRITAR. Ela esperneava e se debatia em meu ombro, enquanto eu a carregava quase de cabeça para baixo até o elevador. – Ô queridinha, não sei se percebeu, mas você já está gritando. – f**a-SE! – Credo, nunca pensei ouvir coisas do tipo da boca de Lorena. – Eu juro que você vai me pagar, Catarina. – Ok, OK... – Eu realmente já estava com medo da sindica fofoqueira surgir. – Eu te coloco no chão com uma condição. – CATARINA... Seu grito fazia meus ouvidos doerem. – Pegar ou largar. Ouvi um suspiro derrotado. – O que você quer, sua i****a? – Te coloco no chão se você prometer se comportar como uma mocinha e me deixar levá-la até onde quer. – Quais as minhas escolhas? – Não tem muitas, de qualquer jeito eu vou acompanhá-la. Se existia uma coisa sobre mim, que Lorena ainda precisava saber, é que eu adorava um desafio. Sempre fui muito competitiva e por isso quase nunca meu antigo time de vôlei perdia no ensino médio. – Ok, agora me coloca na droga do chão, sua Fiona dos infernos. Uma das curiosidades que eu tinha sobre Lorena, era o porquê ela sempre mencionava algum desenho animada para se referir a qualquer coisa ou pessoa. Percebi que aquilo era algo que saía tão naturalmente que chegava a ser engraçado como uma mulher daquele tamanho se apegava tanto a desenhos bobos. Seguimos para a garagem em silêncio. Lorena estava visivelmente irritada, e eu me segurava para não rir do bico que ela tinha no rosto. Assim que entramos no veiculo perguntei o endereço para onde deveríamos seguir, a outra que estava de braços cruzados igual criança birrenta, me respondeu contra vontade. Saímos do condomínio e um silêncio constrangedor se instalou no carro me deixando com a sensação que aquele seria um longo dia.
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