3 CAPÍTULO – Seja bem vinda

2388 Words
Pov Lorena Dois dias já haviam se passado desde que cheguei a Belo Horizonte. Eu ainda estava organizando toda minha bagunça que chamava de mudança. Olhar para algumas caixas ao redor me fazia recordar a cara desacreditada da balconista da companhia aérea quando fui despachar minha bagagem, mas o que ela queria? Eu não poderia simplesmente deixar toda minha coleção de cd’s e dvd’s da banda Calypso para trás. Além disso, eu sempre fui inseparável dos meus livros e algumas outras bugigangas que sempre faziam meu dia mais feliz. A única coisa que consegui deixar para trás sem nenhum remorso foi minha coleção de dvd’s e pelúcias das princesas de contos de fadas que colecionei ao longo da vida. Aquelas mentiras não me pertenciam mais. Enfim... No geral talvez eu tivesse levado para minha casa nova mais bugigangas do que roupas. As malas eram poucas, o que me deixou triste essa constatação, talvez esse fosse um dos motivos que levou Humberto a deixar de me amar, afinal, eu nunca fui o tipo de mulher extremamente vaidosa e homens gostam disso, não gostam? Mas contrariando o ego masculino, eu sempre acreditei que a maior beleza do ser humano vem da alma, em outras palavras o que quero dizer é que sempre vi Verônica e outras amigas acharem super divertido irem ao shopping para curar suas tristezas ou comemorar suas alegrias em diversos provadores, depois de muitas compras o caminho ao salão de beleza era inevitável, um verdadeiro tédio em minha opinião, mas sempre acompanhei, eu adorava ler as revistas que tinham no salão de beleza e saber da vida dos famosos, quem nunca curtiu uma fofoca de salão que atire a primeira pedra. O fato é que enquanto elas sorriam no presente esquecendo que no fim do mês quando chegassem às faturas dos cartões de crédito lágrimas iriam rolar, eu estava plena e livre de dividas. No entanto, agora olhando ao meu redor e analisando todas as mudanças drásticas pela qual minha vida estava passando e levando em consideração o motivo que me levou até ali, talvez, só talvez, hoje meu coração desejasse que eu conseguisse ser uma mulher diferente e cheia de dividas feitas ao comprar roupas, maquiagens, ir a salão... Sabe, esse padrão social ao qual os homens se encantam, talvez minha vida amorosa fosse mais fácil, apesar de ser frustrante já que nós mulheres devemos nos sentir bem do nosso jeitinho, devemos ser amadas pelo o que somos e não pelo o que o padrão define como perfeito. – Está vendo Dudu? Minha cabeça está uma verdadeira bagunça, eu sequer consigo formular o que quero realmente para minha vida, minha ética e valores não entram mais em acordo com meu coração. – Está falando sozinha de novo? Samantha perguntou divertida enquanto me analisava parada na porta do meu novo quarto. – Não estou falando sozinha, estou falando com o Dudu. Apontei para meu cachorrinho de pelúcia de estimação não deixando de notar Samantha prendendo o riso, isso estava se tornando rotineiro desde que cheguei ali, Samantha me achava uma verdadeira concorrente dos palhaços patati patatá, eu já estava me acostumando. Muitos podem até me julgar por Dudu ser meu companheiro a essa altura da minha vida, imagina só uma mulher de 27 anos falando com um urso de pelúcia? É, eu sei, isso é estranho, mas aquele não era uma pelúcia qualquer, ele tinha um significado sentimental na minha vida. Durante minha adolescência em determinada época perdi meu avô Eduardo, alguém que tinha como o super herói da minha vida, com sua partida para os braços de Deus desenvolvi sérios problemas psicológicos que foram difíceis de superar. As crises de ansiedade hoje já não faziam tanta parte dos meus dias, mas elas existiram e quase me tiraram a esperança de viver. Foi durante esse período que me dediquei aos estudos como escape da tristeza, prestei vestibular para medicina veterinária que era meu sonho desde criança, eu sempre dizia a vovô que seria a médica que cuidaria dos animais das suas fazendas, mas ali diante daquela prova eu já não me sentia boa o suficiente para cumprir com a promessa que fiz a meu velho, então quando saiu o resultado eu não tinha coragem de olhar e foi ai que o Dudu surgiu em minha cama despois que sai do banho. Dona Laura sempre soube da minha paixão por pelúcia e aquela foi a forma carinhosa que ela encontrou de me dar uma das notícias mais alegres da minha vida. – Certo... – Samantha entrou no cômodo encarando as pilhas de caixas que tinham ali. – Pelo o que vejo você tem muita coisa para arrumar ainda, eu até te ajudaria, mas preciso ir trabalhar antes de me tornar mais uma desempregada nesse país caótico. Assim como foi dito por Verônica eu gostei da minha nova companheira de casa, ela era animada é muito atenciosa, apesar de parecer buscar as palavras certas para conversar comigo, chegava a ser incomodo a forma como me tratavam, era como se eu fosse algo quebrável que a qualquer momento explodiria. Apesar dos pesares nossa convivência estava sendo agradável e eu achava pouco provável que teríamos problemas futuros. – Não se preocupe Sam, pode ir trabalhar tranquila. – Tem certeza? Às vezes eu me questionava porque todos pareciam ter medo de me deixar sozinha. Aquele questionamento soava mais como “Você vai estar inteira quando eu voltar?” – Absoluta! – Disse convicta. – Ótimo! A Verônica hoje só volta tarde da noite da faculdade, ela disse que tem umas aulas extras para ministrar hoje. Depois do trabalho eu vou participar de uma comemoração do aniversário de uma das minhas amigas, mas tem comida no forno, é só esquentar. Qualquer coisa pode pedir ajuda para seu Juca, ele é um porteiro meio ranzinza, mas é gente boa. – Pode deixar, eu entendi tudinho. – Ela não parecia muito convicta, então tentei convencê-la. – Amigas na gandaia, comida no forno, velho chato... Viu só? Eu entendi tudo. – Ela sorriu. – Você irá me encontrar sã e salva quando voltar. – Ou o condomínio terá caído. Mostrei a língua para a morena que saiu gargalhando. É isso mesmo, nosso grau de i********e já estava em um nível elevado onde ela sentia-se à vontade para tirar sarro da minha cara igual à Verônica. O dia passou rapidamente e logo meu aspecto não era dos melhores, eu mesma me assustei quando vi no espelho o reflexo da própria gata borralheira. Nossa senhora das depenadas, eu estava parecendo uma galinha choca! Como pode uma simples organização de quarto me deixar tão descabelada e suja daquela forma? Resolvi tomar um bom banho, tudo bem que eu não estava nos meus melhores dias, mas isso não significava que eu precisava me entregar ao fundo da calamidade dessa forma, mamãe me deixaria sem orelha se me encontrasse naquele estado. Depois que novamente minha cara de gente levemente descente tinha dado o ar da graça, fiquei perdida pelo apartamento sem saber o que fazer. Andei pelos cômodos silenciosos, passei em frente ao acesso proibido, isso mesmo, tinha uma plaquinha exatamente com esses dizeres na porta do quarto da tal Catarina. Eu ainda não conhecia a outra moradora daquela casa, segundo Samantha, a mesma estava viajando para a chácara da família, mas só pelas informações que eu tinha recebido, já era motivo suficiente para me fazer temer a Cruela da vida real. Claro que ninguém sabia que esse era o apelido particular que eu usava para me referir internamente à outra, mas que culpa tenho eu, se essa era a imagem que me fizeram ter dela? O fato é que eu tinha curiosidade de entrar naquele quarto e ver o porquê era tão restrito assim, talvez esse fosse um bom momento para matar minha curiosidade. “Melhor não arriscar, Lorena, quando o cão não atenta manda o secretário, e você não é exatamente fã do capeta. Ele provavelmente deve ter uma longa lista das almas podres que você já desejou em silêncio que fosse para o inferno só para dar trabalho a ele, então é melhor não atiçar o homem”. E foi com esse pensamento que mais uma vez resisti à tentação do capiroto. Minha barriga roncou dando sinal que eu estava sendo muito relapsa com ela, talvez desde o dia que eu fui abandonada no altar do padre fofoqueiro eu já tivesse perdido uns cinco kg, juro que se não fosse algo tão doloroso eu recomendaria para as amigas experimentarem passar por isso pelo menos uma vez na vida, tenho certeza que logo perderiam os famosos kg indesejáveis. Assim que entrei na cozinha... – HÁAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA... – HÁAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA... Ok, eu não sabia quem gritava mais naquele pequeno espaço de m². Mesmo em meio ao desespero não pude deixar de perceber o quanto aquela mulher era tonta, se não fosse pelo fato de estar em pânico eu facilmente iria rir da cena quando vi a outra molhar o próprio rosto com a água que estava dentro do copo que tinha na mão. Peguei uma vassoura que eu tinha esquecido ali próximo à mesa pouco tempo antes... – Quem é você? O que faz aqui? Eu juro que te dou vassouradas se não sair daqui. Não, não... – Falei apontando a vassoura na direção da outra que aos poucos ia parecendo assustadoramente furiosa. – Farei melhor, eu juro que usarei minhas técnicas de karatê. – Você é louca ou o quê? – Ela colocou o copo vazio na mesa, enquanto procurava um pano para se secar, mas acho que meus olhos já estavam fazendo isso sem pedir pedágios, p**a que pariu, ela era uma linda mulher. – Larga de ser desmiolada, solte essa vassoura. Ignorei o insulto gratuito. – Afaste-se de mim, eu já disse que sou faixa preta em karatê. Tudo bem que eu falava aquilo quando na verdade era eu que estava dando dois passos para trás rezando para minha nossa senhora das sem coordenação para que a beldade esquisita não percebesse que na verdade eu m*l tinha coordenação motora para andar duas quadras sem tropeçar. – Ora, pelo amor de Deus, me dá isso aqui. – A estranha tirou a vassoura da minha mão com uma facilidade incrível. – Ô Shaolin do Paraguai, eu sinto muito informar, mas você tem cara de quem não faz m*l a uma barata, se quer saber. E eu não tenho paciências para loucuras. – Sua mãe nunca te disse que quem ver cara não ver coração? – Dei mais um passo para trás. – Pois bem, eu oculto minhas habilidades. – A estranha revirou os olhos. – O que você quer aqui? Aliás, como entrou aqui? – Pela porta, gênio? Você deve ser a Lorena. Suas palavras saíram entre deboche e impaciência, eu definitivamente não tinha gostado daquela mulher. – Como sabe meu nome? Antes que eu pudesse responder ouvi latidos e logo uma pequena bola de pelos estava lambendo meus pés, eu poderia jurar que meus olhos estavam brilhando diante da cadelinha de lacinhos rosa, era uma shih-tzu de pelo branco e caramelo, aliás, seu pelo estava tão grande que cobria seus olhinhos. – Owwwwnt que coisinha mais fofa. Como você se chama? – Me abaixei para conversar com aquela bolotinha. – Você é tão linda, sabia? – Ela latiu e abanava o rabinho parecendo feliz com o afago que recebia na cabeça. – Apesar de achar que você está com esses pelos precisando de uma bela tosa. Deve ter uma dona muito irresponsável. – Ei, eu não sou irresponsável. – A voz da estranha voltou a soar me trazendo de volta à realidade. – E ela se chama Laika. Parece que ela gostou de você. A cadelinha se enlaçava por minhas pernas demonstrando uma felicidade contagiante. – Você é dona dela? – Perguntei desconfiada. – Meu Deus, a Verônica me falou que você era meio diferente, mas eu não imaginei que estaria diante de um caso sério de desatenção. – Ergui a sobrancelha vendo-a prender o riso. – Eu sou a Catarina. Moro aqui e entrei pela porta da frente com minha própria chave. E sim, a Laika é minha. “Nossa senhora das distraídas, será possível que não poderia ter me dado uma ajudinha ai de cima?” Pensei comigo mesma m*l sabendo onde enfiar minha cara de envergonhada. Como podia eu não ter lembrado que a Cruela morava ali também? Se bem que não é totalmente culpa minha não reconhecê-la, eu nunca a vi nem mesmo por fotos e ninguém me informou que ela já iria retornar de viagem. Bom, agora não tinha muito o que fazer, só me restava bancar a plena e seguir o baile. – As meninas não me avisaram que você voltaria hoje, desculpa. – Tentei esconder a vergonha. – Tudo bem! – Ela deu de ombros voltando a fuçar a geladeira. – Eu não acredito que ninguém teve coragem de ir fazer as compras da semana. – Eu continuava brincando com a cadelinha que agora eu sabia se chamar Laika, ela parecia mesmo ter gostado de mim. – Já te passaram as regras da casa? – Algumas! Na verdade, só estou aqui há dois dias, mas não se preocupe, já sei que não podemos entrar em sua toca. – Ela me encarou por cima do ombro. – Quer dizer, desculpa... – Droga eu não dava uma a dentro. – Eu só quis dizer que sei que não posso entrar no seu quarto. Se bem que esse não é exatamente o tipo de coisa que você faça questão de esconder. – Não mesmo! – Sua afirmação era zero constrangimento e ela não se esforçava para parecer simpática. – Odeio bagunça! Meu quarto é como meu refúgio dos muitos dias cansados, minha cama é sagrada, meu travesseiro então... Em resumo, fique longe. – Ela finalizou caminhando em direção à porta da cozinha onde eu ainda me encontrava brincando com a cadelinha. – A propósito... – Parou ao meu lado. – Seja bem-vinda! Catarina sumiu do meu campo de visão me deixando levemente irritada tentando conter a vontade de xingá-la. “Sujeitinha rude”, disse em pensamento. Quando foi mesmo que eu pensei que não teria problemas? Não sei, mas algo dentro de mim dizia que dias agitados ainda iriam chegar naquele meu novo lar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD