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O recomeço em Luzes do céu

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Blurb

Após perder o marido, Daiane Novaes deixa sua cidade natal e parte para Luzes do Céu em busca de paz. Viúva, ela acredita que precisa se afastar das lembranças, da cobrança da família e da culpa que a acompanha desde a tragédia que mudou sua vida. Em meio às ruas cobertas pela neblina, aos cafés acolhedores e à rotina da confeitaria Sabores de Domingo, Daiane tenta reconstruir a própria existência sem imaginar que o destino lhe reserva um novo encontro com o amor.É na cidade que ela conhece Maurício Santoro, um psicólogo maduro, atencioso e dono de uma imponente mansão. Sensível à dor de Daiane, Maurício se aproxima com cuidado e passa a oferecer a ela algo que há muito tempo parecia impossível: escuta, segurança e a possibilidade de voltar a sorrir. Ele se apaixona primeiro, mas Daiane, fechada em seu luto, ignora suas tentativas de aproximação e resiste a qualquer sentimento que possa ameaçar a memória do homem que perdeu.

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Capítulo 1: A chegada em Luzes do Céu
Daiane Novaes chegou a Luzes do Céu numa manhã fria, escondida atrás dos vidros embaçados de um ônibus intermunicipal. Durante quase toda a viagem, manteve o rosto voltado para a janela. A paisagem passava em tons de verde, cinza e azul, interrompida por montanhas cobertas de neblina e pequenas casas construídas às margens da estrada. Em alguns trechos, o céu parecia tão baixo que ela tinha a impressão de poder tocá-lo. A cidade recebeu o ônibus com uma garoa fina. Quando o veículo parou na pequena rodoviária, Daiane permaneceu sentada por alguns segundos, observando os passageiros descerem. Uma senhora carregava uma cesta de palha; um casal discutia sobre as malas; dois jovens riam enquanto consultavam o mapa no celular. Todos pareciam ter um destino definido. Ela não. Ou melhor, tinha um destino, mas não queria pensar nele como uma fuga. Daiane apertou a alça da bolsa e conferiu os documentos. Seu nome estava ali, impresso no cartão de identidade, como se aquela sequência de letras ainda fosse capaz de explicar quem ela era. Durante três meses, ouvira seu nome acompanhado de expressões como “a viúva”, “a esposa de Paulo” e “a mulher que ficou sozinha”. Em Luzes do Céu, ninguém precisava saber de nada. Ela desceu do ônibus carregando uma mala pequena e uma bolsa de couro. O frio atravessou o casaco, mas Daiane não se importou. A cidade era menor do que imaginara. A rodoviária ficava próxima à praça central, e as ruas eram cercadas por construções antigas, lojas de portas coloridas e árvores que balançavam sob o vento. Havia algo acolhedor naquele lugar. Daiane não queria acolhimento. Queria anonimato. Ajeitou os cabelos diante do reflexo escuro de uma vitrine e tentou compor uma expressão tranquila. Não podia parecer triste. Não podia permitir que ninguém perguntasse se estava bem. Se alguém perguntasse, diria que viera conhecer a cidade. Uma turista em busca de descanso. Apenas isso. Repetiu a frase em pensamento algumas vezes. “Vim passar alguns dias.” “Quero conhecer os pontos turísticos.” “Estou viajando sozinha porque gosto de liberdade.” As mentiras eram simples. O difícil seria fazê-las parecer verdadeiras. Perto da rodoviária, encontrou uma placa indicando o caminho até a Praça dos Sabores. O nome chamou sua atenção. Daiane seguiu pela calçada, puxando a mala sobre as pedras irregulares. As rodas faziam um ruído constante, que se misturava ao som distante de sinos e ao movimento dos moradores. A praça era maior do que parecia nos cartões-postais. Tinha um coreto no centro, bancos de madeira, canteiros de flores e barracas que ainda começavam a ser montadas. Um homem pendurava luminárias entre as árvores, enquanto duas mulheres discutiam a posição de uma placa sobre o Festival de Inverno de Luzes do Céu. Daiane parou para observar. Em outra época, Paulo teria tirado uma fotografia daquele cenário. Ele gostava de registrar lugares novos, mesmo os mais simples. Dizia que uma cidade não se revelava apenas pelos pontos famosos, mas também pelos detalhes que os turistas costumavam ignorar. A lembrança veio sem aviso. Daiane sentiu a garganta fechar e desviou o rosto. Não podia começar. Ainda não. O primeiro dia naquela cidade não poderia ser marcado por lágrimas. Ela continuou caminhando até encontrar o hotel que havia reservado pela internet. Ficava em uma rua tranquila, a poucos minutos da praça. A fachada era pintada de amarelo-claro, com vasos de flores nas janelas e uma pequena placa de madeira onde se lia: Pousada Recanto das Nuvens. Uma mulher de cabelos grisalhos estava atrás do balcão da recepção. Levantou os olhos assim que Daiane entrou. — Bom dia. Seja bem-vinda. — Bom dia. — A senhora tem uma reserva? — Tenho. Em nome de Daiane Novaes. A mulher consultou um caderno e encontrou o nome rapidamente. — Quarto 12, no segundo andar. A reserva é para três noites, correto? Daiane hesitou por uma fração de segundo. — Sim. Três noites. Não queria que a recepcionista percebesse que talvez não tivesse intenção de voltar para casa tão cedo. — Veio conhecer a cidade? A pergunta chegou exatamente como ela esperava. Mesmo assim, seu corpo enrijeceu. Daiane sorriu, ou tentou sorrir. — Vim. Sempre tive curiosidade de conhecer Luzes do Céu. — É uma cidade bonita. A senhora vai gostar dos passeios. Há trilhas, mirantes, a igreja antiga e a Praça dos Sabores. Neste período, também temos o Festival de Inverno. — Parece interessante. — Está viajando sozinha? Daiane segurou a alça da bolsa com mais força. — Sim. Eu precisava de alguns dias para descansar. A resposta não era exatamente uma mentira. Ela precisava descansar. Só não explicou do que estava tentando se recuperar. A recepcionista entregou a chave. — Se precisar de alguma coisa, pode me procurar. Meu nome é Celina. — Obrigada, Celina. — Espero que aproveite a estadia. Daiane agradeceu novamente e subiu as escadas. Cada degrau parecia afastá-la um pouco mais da cidade que deixara para trás. No segundo andar, encontrou um corredor estreito, com tapetes floridos e fotografias antigas de Luzes do Céu. Havia imagens da praça coberta de neve artificial, do festival e de famílias reunidas diante de grandes panelas de chocolate quente. Ela entrou no quarto 12. Era simples e confortável. Tinha uma cama de casal, uma poltrona próxima à janela, uma escrivaninha pequena e um armário de madeira clara. Sobre a mesa, havia um folheto com os principais atrativos turísticos da região. Daiane colocou a mala no chão, mas não a abriu. Tirou o casaco e sentou-se na cama. O colchão cedeu sob seu peso, e o silêncio do quarto pareceu crescer ao redor dela. Por alguns instantes, fingiu que estava apenas cansada da viagem. Depois, levou a mão ao bolso interno da bolsa e tirou uma fotografia. Paulo sorria na imagem. Estava sentado ao lado dela em um banco de praça, usando uma camisa azul e segurando dois copos de café. A fotografia foi tirada poucos meses antes da viagem que planejavam fazer juntos. Luzes do Céu deveria ter sido o começo de um futuro a dois. Eles falavam em conhecer a cidade, procurar uma casa maior e talvez abrir um pequeno negócio. Paulo brincava que Daiane faria os melhores doces da região, enquanto ele cuidaria da parte administrativa. Tinham planos simples, mas acreditavam neles com a confiança de quem imagina ter muitos anos pela frente. Então veio a tragédia. A lembrança do dia em que Paulo desapareceu atravessou a mente de Daiane como um relâmpago. A busca. Os telefonemas. Os policiais. As portas batendo. As pessoas dizendo que ela precisava aceitar a realidade. O corpo que nunca fora encontrado. As respostas incompletas. A certeza que ninguém conseguia oferecer. Ela fechou os olhos. — Não agora — sussurrou. Guardou a fotografia de volta na bolsa e levantou-se rapidamente. Aproximou-se da janela. Dali, conseguia ver parte da rua e o movimento dos hóspedes entrando e saindo. Um homem carregava malas; uma família conversava perto do portão; duas mulheres riam enquanto seguravam guarda-chuvas coloridos. A movimentação trouxe um estranho alívio. Uma casa vazia seria insuportável. Um lugar onde ninguém passasse, onde o silêncio pudesse obrigá-la a ouvir seus próprios pensamentos. O hotel, ao contrário, tinha vozes nos corredores, passos no andar de cima e portas que se abriam e fechavam. Ali, Daiane podia fingir que fazia parte do mundo sem precisar conversar com ele. Depois de algum tempo, decidiu sair para caminhar. Vestiu o casaco novamente, prendeu os cabelos e deixou a bolsa sobre a cama. Antes de sair, conferiu o reflexo no espelho. O rosto estava pálido, e os olhos denunciavam noites m*l dormidas. Ela aplicou um pouco de batom, não por vaidade, mas porque precisava construir uma aparência. Uma turista. Na recepção, Celina estava organizando algumas correspondências. — Vai sair? — Vou conhecer a praça. — Se quiser uma sugestão, há uma cafeteria muito boa perto do coreto. E a loja de Dona Francisca tem lembranças bonitas da cidade. — Vou procurar. — Está gostando do hotel? — É muito agradável. — Fique tranquila. Temos muitos hóspedes nesta época. A senhora não ficará sozinha. Daiane agradeceu com um sorriso discreto. A frase, dita sem malícia, tocou um ponto sensível. Não queria ficar sozinha. Também não queria que alguém descobrisse o quanto precisava de companhia. Do lado de fora, a garoa havia diminuído. Daiane caminhou sem pressa, observando as vitrines e os moradores. Em uma loja, havia casacos de lã expostos. Em outra, canecas decoradas com imagens da cidade. Um restaurante anunciava sopa de cebola, pão artesanal e chocolate quente. Tudo parecia pertencer a uma vida tranquila. Ela passou diante de um espelho de vitrine e viu seu próprio reflexo misturado às luzes da rua. Por um momento, imaginou Paulo caminhando ao seu lado, comentando sobre os preços e reclamando do frio. A fantasia durou apenas alguns segundos, mas foi suficiente para doer. Daiane parou diante de uma banca de flores. — Gostaria de alguma? — perguntou a vendedora. — Não, obrigada. — As margaridas estão bonitas hoje. Daiane olhou para as flores brancas. Paulo costumava dizer que margaridas pareciam pequenas estrelas pousadas sobre a terra. — São lindas — respondeu. A vendedora sorriu.

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