🥀Capítulo 6.🥀

2368 Words
Melina Sullivan. Isis e eu conversamos por longos minutos enquanto a festa se desenrolava ao nosso redor, luzes dançando pelas paredes e aquele burburinho constante de gente rica falando demais e dizendo muito pouco. No meio desse caos elegante, descobri algo maravilhoso: ela vai ser minha cúmplice oficial na missão de desbravar essa cidade nos próximos dias. Entre uma risada e outra, enquanto dividíamos histórias completamente aleatórias, ela me contou que faz estágio no escritório do meu irmão. E, com ainda mais naturalidade, revelou que o pai dela tem uma obsessão particular: juntar os dois. - Ele vai usar da nossa amizade pra tentar me empurrar pro seu irmão. - foram as palavras exatas dela, logo antes de gargalharmos como duas conspiradoras prestes a aprontar. E aquilo ficou ecoando na minha cabeça. Talvez - só talvez - eu não ache uma ideia tão absurda assim. Sério, eu não lembro, em toda minha curtíssima trajetória caótica, de algum momento em que vi Daniel realmente envolvido com alguém. Ninguém. Nem mulher, nem homem. Nada. E eu sei por quê. Daniel trabalha como se a vida dele dependesse disso. Desde que nossa mãe morreu, ele parece ter assumido o papel de adulto absoluto, não deixando brecha pra sentir, viver ou... existir fora do escritório. Meu irmão é, sem exageros, um dos maiores exemplos de responsabilidade que já tive na vida. Ele batalhou, conquistou, construiu tudo com as próprias mãos, e eu sinto orgulho dele até os ossos. Mas às vezes eu me pego pensando se nesse caminho impecável ele não esqueceu de viver. Não digo viver como eu vivo, porque aí já seria pedir demais - Daniel jamais sobreviveria um único dia dentro da minha rotina de caos poético. O homem m*l consegue subir numa moto sem tremer como um filhote de cachorro na chuva. Mas, sei lá... ele deve gostar de alguma coisa além de trabalho, né? - Planejando como vai voltar para o Egito, praga? - A voz rouca chega antes do cheiro: colônia masculina misturada com tabaco fresco. Reconheço de longe. E reviro os olhos, já preparando meu sorriso mais m*****o. Viro-me e lá está ele: O'Connor. Visual um pouco mais rebelde que o do meu irmão, mas ainda perfeitamente arrumado para a ocasião. Preto dos pés à cabeça - camisa social com as mangas arregaçadas, revelando antebraços fortes, e calça alinhada que deixava claro que ele sabia exatamente o efeito que produzia. Numa mão, um isqueiro; na outra, um cigarro recém-aceso que brilhava na penumbra como uma pequena ameaça. - Por que a pergunta? - devolvo, inclinando a cabeça e deixando meu sorriso de escárnio se espalhar pelos lábios. - Perdeu o trem pro inferno e veio pedir carona comigo, O'Connor? Ele estreita os olhos, mas não cai na provocação. Em vez disso, dá um longo trago no cigarro, prendendo a fumaça como se estivesse saboreando algum prazer proibido. Fico observando o corpo dele relaxar por um instante, músculos soltando a tensão antes que ele libere a fumaça em um sopro lento. - O que estava conversando com a filha de Adrian? - pergunta enfim, com aquele tom de acusação velada que me dá vontade de rir. Arqueio uma sobrancelha, estalo a língua e desvio o olhar só pra irritar. - Estávamos planejando assaltar um banco. - digo num tom suave, quase entediado, enquanto examino minhas unhas. - Quer participar? Volto meus olhos para os dele e encontro exatamente o que esperava. A ruiva subindo pelo pescoço e tomando conta do rosto. A pele pegando fogo. Uma veia saltando na testa, pulsando como se ele estivesse prestes a explodir. Por um segundo, penso que talvez ele vá se transformar no Hulk... mas o Hulk fica verde, não vermelho. O'Connor praticamente esmaga o cigarro nas próprias mãos antes de avançar na minha direção. Os passos são firmes, certeiros. E então ele para a poucos centímetros de mim, pairando como um espírito obsessor que se recusa a ir embora. - Olha aqui, garota... - ele praticamente rosna, como um cão raivoso à beira de atacar. - Eu não sei o que Daniel tinha na cabeça para trazê-la para cá, muito menos para deixar que viesse essa noite. Tampouco sei de onde você e a filha de Adrian se conhecem, mas eu vou deixar uma coisa muito clara, Melina. - Ele aponta o dedo no meu rosto, tão perto que quase toca minha pele. - Você não ouse fazer qualquer coisa que possa prejudicar seu irmão ou o nosso escritório. Está me ouvindo? A fúria dele vibra no ar, densa o suficiente para cortar com uma faca. Eu o encaro. Não um olhar rápido - eu encaro. Absorvo cada sílaba cuspida, cada gota da prepotência dele, cada grama de autoridade que ele pensa ter sobre mim. E me pergunto o quanto mais consigo tolerar antes de, literalmente, quebrar esse dedo em três lugares. Afinal, vó Sônia não me fez enfrentar oito anos de artes marciais e defesa pessoal à toa. - ...Nós não passamos quase cinco anos construindo tudo o que temos, - ele continua, cuspindo cada palavra - para você surgir do inferno e querer jogar tudo pro alto, influenciando a filha de Adrian a- Chego ao meu limite. E o limite chega com gosto. O estrondo da minha mão contra a cara dele ecoa pelo terraço como um tiro abafado. Quente. Preciso. Satisfatório de um jeito quase poético. O'Connor pisca algumas vezes, completamente atônito, como se o cérebro dele estivesse tentando recalcular a própria existência. - Você já falou o que queria, seu i****a arrogante. - Minha voz sai baixa, afiada como lâmina embebida em veneno. - Agora é a minha vez. Aproximo o rosto, sem medo nenhum. - Primeiro: você vai tirar essa p***a desse dedo da minha cara, se não quiser que eu corte ele e enfie no seu r**o. O dedo some imediatamente. - Segundo... - continuo, firme, cada palavra carregando raiva e precisão. - Você vai sumir da minha frente, O'Connor, porque eu não sou obrigada a escutar você d*****r pela boca cada vez que abre a m***a dos seus lábios. Os olhos azuis dele explodem em pura fúria, fogo frio, intenso, como tempestade elétrica prestes a estourar. E, dessa vez, sou eu quem avança um passo. Fico tão perto que o ar entre nós parece vibrar. - E terceiro... - sussurro, deixando a provocação deslizar entre nós como faca quente em manteiga. - Sabe a garota de cabelos loiros ondulados e olhos azuis angelicais? Pois é. Um verdadeiro monstro nas pistas. Eu não preciso influenciar porcaria nenhuma, O'Connor... quando ela já nasce quebrando regras só pelo prazer de ver o mundo arder. Eu sorrio. Lento. Afiado. Mortal. - Agora faça-me o favor e me deixe em paz. Vim ao terraço para tomar um ar, não para responder ao seu interrogatório de macho alfa frustrado. - Minha voz é calma, quase pacífica... o tipo de calma que precede tempestades. Viro-me sem pressa, caminhando até a sacada enquanto o vento frio me abraça. E atrás de mim, O'Connor permanece imóvel - estupefato, humilhado, e sem conseguir mover um músculo sequer. Estou prestes a me debruçar sobre o parapeito para apreciar a vista deslumbrante da cidade. A casa de Adrian Miller fica na parte alta de Los Angeles, e dali o mundo se abre: luzes tremeluzindo como constelações humanas, prédios recortando o céu e, ao fundo, a linha prateada da praia brilhando sob a lua. Por um breve segundo, tudo parece perfeito - silencioso, amplo, livre - até que uma voz suave ecoa atrás de mim, vinda da porta. Viro-me, e lá está Isis - impecável, com aquele jeito angelical que engana qualquer um que não a conheça. - Mel, estava te procurando. Nós iríamos... - ela faz uma pausa súbita. Os olhos dela deslizam de mim para O'Connor, depois voltam para mim com interesse renovado. - Está tudo bem por aqui? A mudança no tom é perceptível: mais analítico, mais atento, um pouco formal até. Como se estivesse avaliando a cena com precisão cirúrgica. - Nada demais, Izzi. - respondo com um sorriso doce que não combina em nada com a situação. - O'Connor estava apenas dizendo que eu não deveria te influenciar com a minha forma desinibida de viver. Falo sem pudor nenhum, e a fúria que Henry O'Connor me lança é tão intensa que quase posso sentir o calor queimando minha pele. Só não é melhor do que a risadinha de escárnio que escapa de Isis - baixa, breve, deliciosa. - Senhor O'Connor... - Isis começa, a postura impecável, a voz firme. - Eu realmente agradeço a sua ilustre preocupação. Mas devo lembrá-lo que sou uma mulher adulta, mentalmente estável e perfeitamente capaz de me cuidar. Então, encarecidamente, gostaria de sugerir que tomasse conta da sua própria vida e, de preferência, esquecesse a minha. Minha vida não é da sua conta - então tente não se intrometer onde não é chamado. E ela diz isso com uma serenidade cirúrgica que faria qualquer homem repensar a própria existência. Antes que eu possa reagir, Isis se aproxima e praticamente me puxa pela mão, com determinação, me arrastando de volta para dentro da festa. Passo por O'Connor devagar, saboreando a cena, saboreando a derrota engolida à força. Inclino-me levemente na direção dele e murmuro, baixo o bastante para ser insulto pessoal, alto o suficiente para doer: - Eu avisei. E então desapareço, envolta no perfume doce de Isis e na risada que ela solta quando fechamos a porta atrás de nós - deixando Henry O'Connor parado no meio do terraço, completamente desmontado. ●●●●●●●●●●● Henry O'Connor. Pirralha intrometida. Insolente. Mimada. Filha da puta... Soco a parede mais próxima com tanta força que sinto a vibração subir pelo meu braço como uma descarga elétrica. A raiva me consome inteiro, queimando no peito, nas mãos, no maxilar travado. É quase incontrolável, quase maior do que eu. Eu simplesmente não acredito que aquela fedelha teve a audácia - a p**a coragem - de me dar um t**a. Um maldito t**a. E tudo porque não aguenta ouvir a verdade. Porque a realidade, nua e crua, fere o ego dela. Mas eu não menti em momento algum. A pior ideia que Daniel teve foi trazê-la para cá. Desde que ela chegou, tudo se desestabilizou, como se a simples presença dela fosse um fósforo aceso jogado em um deserto inflamável. Daniel anda aéreo. Distraído. Sempre preocupado com qual vai ser o próximo passo dela, se está bem, se comeu, onde foi, com quem está... E isso está começando a afetar ele em todos os aspectos. Na vida pessoal. No escritório. Nos casos. Em tudo. Não posso permitir isso. Temos um caso gigantesco batendo na porta - talvez o maior de toda nossa carreira - e eu não posso ter o meu irmão de guerra, o homem mais disciplinado que conheço, completamente desnorteado porque a irmãzinha rebelde resolveu aparecer do nada e bagunçar o mundo dele. Eu sei que ela é sangue dele. Eu sei que Daniel morreria por ela. Mas ele também é meu irmão, mesmo que não tenhamos o mesmo sangue. E eu não vou ficar vendo ele se afundar enquanto tenta salvar alguém que claramente está pouco se lixando se vive ou morre em cima de uma moto, correndo a duzentos por hora em alguma pista ilegal. Não vou deixar meu irmão ir pro buraco junto. Eu não deixo. Eu não permito. Ponto. Acendo outro cigarro. As mãos tremem um pouco - de raiva, de adrenalina, de alguma coisa que eu não quero nomear. Trago fundo, segurando a fumaça nos pulmões até arder. Preciso me acalmar antes de voltar lá pra dentro. Porque se eu entrar nesse estado, sou eu quem vai acabar dizendo o que não devia. E aí... bem. Talvez não haja mais volta. ●●●●●●●●●●●● - Que cara é essa, irmão? Parece que comeu algo estragado. - O tom brincalhão de Daniel me alcança antes mesmo de eu me aproximar dele, e, apesar de tudo, sinto meus ombros relaxarem um pouco. - Infelizmente é a única que eu tenho, irmão. - respondo num tom mais leve, esfregando o rosto rapidamente. - Me diz que essa "festa" já está chegando ao fim, por favor. Juro que já estive em eventos da vó Sônia e o clube da terceira idade que eram mais animados que isso aqui. Daniel solta uma risada curta. - Nem me fala. Até eu, que sou fã de calmaria, estou me sentindo entediado. - Ele admite, e acho que é a primeira vez na vida que ouço algo assim saindo da boca dele. - Ao menos alguém está se divertindo... Ele inclina a cabeça discretamente para o canto do salão. E lá estão elas: a praga loira e a ruiva, unidas como uma dupla criminosa prestes a arquitetar o caos. Rindo alto, inclinadas uma para a outra, animadas demais para serem inocentes. - Você sabe que isso vai dar m***a, né? - digo, estreitando o olhar para as duas. - A filha do Adrian nunca foi exatamente o símbolo do juízo. E a sua irmã... bom, acho que ela nunca nem conheceu essa palavra. - Nem me fala, cara... - Daniel balança a cabeça em frustração. - E eu aqui, preocupado que a Mel não conseguisse fazer amizades. Estou me repreendendo internamente por isso agora. Do outro lado do salão, elas gargalham de algo que provavelmente as condenaria moralmente em qualquer tribunal. E a desgraçada da ruiva - aquela mesma que me deu um t**a minutos atrás - age como se fosse a filha mais santa já produzida por Boston. Rindo. Gesticulando. Como se não tivesse acabado de atravessar meu limite com a mão aberta. Se ela acha que isso vai passar despercebido... Se acha que vou fingir que nada aconteceu... Está muito enganada. Vai ter volta. Ah, isso eu garanto. Não - eu não bato em mulher. Nunca fiz isso e não vou começar agora, muito menos com a irmã do meu melhor amigo. Mas se o jogo da Melina é arrogância, provocação e ousadia... Então, porra... Ela encontrou, enfim, um oponente à altura. ...
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