🥀Capítulo 3 🥀

2077 Words
Henry O'Connor. Acendo um cigarro e dou um longo trago. Prendo a fumaça por alguns segundos antes de soltar, como quem tenta prender a cabeça no lugar. Minha mente vagueia a mil por hora. Minha vida tem sido um maldito caos desde que peguei minha agora ex-esposa na cama com outro cara. A desgraçada teve a audácia de me acusar dizendo que era minha culpa ela ter traído, que eu nunca estava presente e bla bla bla. Que se dane essa ladainha infernal. Eu dei tudo para aquela desgraça. Tudo o que uma mulher poderia querer - tratei ela como rainha - apenas para ser apunhalado pelas costas. Enquanto ela estava com outro homem na nossa cama. Merda. Eu perdi a compostura. Parti para cima daquele desgraçado. Bati tanto que ele ficou quase irreconhecível. E aquela víbora aproveitou isso e quis me pintar como um homem violento e descontrolado. Mas p***a: eu peguei minha mulher na cama com outro cara. O que eu deveria fazer? Chamar o filho da p**a para tomar um chá? Tá brincando. Essa palhaçada de divórcio já se arrasta por meses - estamos quase fazendo aniversário disso. Eloísa continua a rejeitar toda e qualquer proposta de divisão de bens. Por mim, ela pode arrastar isso por anos. Tenho dinheiro suficiente pra segurar a onda. Mas eu me recuso a abrir mão da casa em que moro, ainda mais sabendo que eu comprei antes de a gente estar junto. E o escritório? Ela está sonhando se acha que vai pôr a mão no que Daniel e eu construímos. Não só sonho - é arrogância. Cada contrato, cada cliente que conquistamos, foi com suor. Não vou passar um centímetro do nosso trabalho pra quem me traiu por diversão. E como se não bastasse tudo isso, aparece aquela pirralha ingrata inventando de atentar contra a própria vida. Eu disse pro Daniel: não é uma boa ideia deixá-la aqui. Quando voltamos pra buscar a vó Sônia três anos atrás eu já falei isso. Mas Daniel é mole - "ela já é adulta, ela é independente, ela consegue, quer seguir a vida dela", ele falou. Pois olha no que deu: seguir a vida virou um tiro no pé. Melina estava prestes a fazer quatorze anos quando Daniel e eu decidimos largar tudo e ir pra Los Angeles pela primeira vez. A gente tinha começado a faculdade aqui em Boston; estávamos no segundo ano e cansados da cidade. Deu na cabeça: vamos embora. Fomos com a cara e a coragem. Terminamos a faculdade lá; as coisas começaram a andar; construímos alguma estabilidade. Quando voltamos, ela tinha uns dezoito. Voltamos pra buscar a ambas, - a vó topou ir com a gente de boa - e o Daniel, com o coração mole, deixou que Melina escolhesse onde queria ficar. Claro que ela escolheu ficar. Se eu soubesse o que viria depois, teria amarrado a fedelha e metido na mala. Ela iria comigo, com cara de quem odeia, mas iria. Só que não sou o irmão dela. Não posso forçar. Não era minha função. E pra que, se no fim o resultado seria essa m***a toda? Dou um novo trago no cigarro tentando acalmar a mente. Preciso retornar a Los Angeles em dois dias para uma audiência e Daniel vai ficar com a pirralha ate ela receber alta. Tem sido assim nossa vida nos últimos três meses desde que ela sofreu aquele acidente. E ela ainda tem a coragem de me olhar dizer que não sou nada dela. Ela tá certa. Eu não sou nada dela. Mas o irmão dela é o irmão que eu nunca tive, e se, pra manter nossa amizade, eu precisar aturar uma fedelha mimada que m*l saiu das fraldas e acha que sabe o que é a vida - então que seja. Eu aturo. - Ei, cara. - a voz de Daniel surge ao meu lado, e a mão dele pousa firme sobre meu ombro. - Sinto muito pelo que a Mel disse. Ela só... - Não precisa pedir desculpas por ela, irmão. - respondo, soltando a fumaça devagar antes de dar outro trago. - Tua irmã já é adulta, Dani. Ela sabe o que diz. E ela tá certa, eu não sou nada dela. - um riso curto me escapa, amargo. - O que não vai me impedir de dar uma lição de moral quando ela precisar. Daniel ri baixo, balançando a cabeça. Ofereço um cigarro - ele recusa, como sempre. Certinho demais pro próprio bem. - Eu conversei com a Mel. - ele começa, com aquela voz que já carrega o peso de quem tentou todas as alternativas possíveis. - Dei um ultimato a ela. Ela vai voltar conosco quando retornarmos pra Los Angeles. - E ela quer isso? - pergunto, sem esconder a curiosidade. - Dei duas escolhas. - ele diz, e eu ergo as sobrancelhas, esperando pela bomba. - Ela vem comigo, e eu ajudo a reconstruir a vida dela. Ou ela fica... e me esquece de uma vez por todas. Fico em silêncio. O cigarro para a poucos centímetros da minha boca. Viro o rosto pra encará-lo, e é aí que vejo - o cansaço preso nos olhos dele, a culpa silenciosa, o peso de decisões que ele nunca quis tomar, mas que ainda assim carrega como se fossem sua cruz. - Tem previsão de quando ela vai ter alta? - pergunto, num tom que tento parecer casual, mas não consigo disfarçar o interesse. - Em alguns dias, mano. - ele responde, e a voz dele soa exausta, quase desbotada. - Eu não vejo a hora de voltar pra casa. ●●● Dias depois ●●●● Melina Sullivan. Os primeiros raios do sol tocam minha pele pela primeira vez em meses, e a sensação é quase estranha - como se o mundo tivesse esquecido de mim e agora, de repente, resolvesse me lembrar que ainda existo. Estou tão pálida que poderia facilmente me camuflar nas paredes brancas do hospital, se não fosse pelo vermelho intenso dos meus cabelos. Ele é o único traço vivo em mim, como se fosse a lembrança teimosa de quem eu era antes de tudo desabar. Daniel empurra minha cadeira de rodas em direção ao estacionamento, mesmo depois de eu insistir mil vezes que poderia andar. Mentira. Eu não poderia. Pelo menos não como antes. Ainda carrego aquele maldito gesso na perna - o troféu do meu desastre - e ele só será removido em uma ou duas semanas. Segundo os médicos, posso fazer isso em qualquer hospital, o que arrancou um suspiro aliviado do Daniel. Ele claramente não estava disposto a cruzar o país de novo só por causa da minha perna quebrada. E, sinceramente, eu também não. Deixar tudo pra trás é mais difícil do que imaginei, mesmo quando o "tudo" já não significa quase nada. Aaron? Que vá pro inferno com a Sophia. Amigos? Poucos. E os poucos que restaram prometeram que me visitariam "assim que pudessem", o que na prática significa nunca. É estranho perceber que, no fundo, ninguém realmente fica. Daniel vendeu meu estúdio - aquele pequeno caos colorido que eu chamei de lar nos últimos anos, cem mil dólares para ser exata, a estrutura junto com todos os equipamentos. Eu o havia comprado com a herança que nossa mãe deixou pra nós, um dos poucos pedaços dela que ainda restavam. A casa também era parte disso. Daniel me deixou ficar com ela quando foi pra Los Angeles, e agora... bem, ela também foi vendida. Setecentos e cinquenta mil dólares. Um bom valor, segundo o corretor. Um preço justo, segundo Daniel. Um pedaço da minha história, segundo eu. Agora tenho dinheiro o suficiente pra recomeçar, o que é uma ideia bonita até você perceber que recomeçar dói mais do que ficar parada. Mas talvez seja hora. Rever a vó Sônia, respirar outros ares, tentar me reconstruir - mesmo que eu ainda não saiba quem diabos eu sou. Enquanto Daniel fala algo sobre o voo, deixo o vento frio da manhã bater no meu rosto e fecho os olhos por um instante. A luz do sol parece me atravessar inteira, como se quisesse acordar partes de mim que ainda dormem em algum canto escuro. E por um segundo - só um segundo - eu quase acredito que dá pra começar de novo. ●●●● Horas depois ●●●● Foram cinco longas horas de voo. Sentei-me entre o Daniel - Que estava sentado próximo a janela, dormindo o sono dos justos - e uma senhora de meia-idade adorável demais, que passou o tempo todo me oferecendo coisas pra comer e contando a saga do papagaio Fred e do marido brutos. Ou era o contrário? A ave era o brutos e o marido o Fred? Não sei. Só sei que ouvi a história inteira, de cabo a r**o. Na verdade, eu estava mais entretida nos planos que rondavam minha cabeça. Eu odeio mudanças com todas as minhas forças. Só de pensar em ter que correr atrás de um novo espaço pro estúdio, procurar apartamento, decidir se vou morar perto do Daniel ou numa rua com barulho demais... já me dá dor de cabeça. E claro: preciso comprar uma nova moto, ja que minha antiga deu perda total. Oque não vai ser problema com o dinheiro do seguro. - E pensar que o Dani nem sonha, que esse é um dos meus planos. Daniel fez com que eu prometesse ficar com ele pelos próximos meses. Em casa, até eu me reerguer - nada de drama, só um teto, comida decente e alguém que saiba o que fazer quando eu esquecer como respirar direito. Não me opus. Vai ser bom passar um tempo com ele; relembrar as tardes de bagunça, mesmo que hoje ele pareça um velho ranzinza. Só espero não ter que lidar com o O'Connor bancando meu pai de novo - igual fez aquele dia no hospital. Não suporto o cara. Nunca suportei. Antipatia pura. Henry adora se intrometer onde não foi chamado. E isso me irrita em nível profissional. Saímos do avião, pegamos malas, atravessamos o aeroporto. E, por falar em demônio, lá está ele: parado no estacionamento, encostado num carro preto, roupa casual, fumando como se o mundo não tivesse pressa. Se ele fumasse dinamite, a morte ia ser mais rápida - um favor ao universo. Caminho ao lado do Daniel - que, contra a própria vontade, aceitou que eu deixasse a cadeira de rodas pra trás - enquanto ele empurra o carrinho de malas. - E aí, irmão. - O'Connor cumprimenta Daniel com o toque de mãos que eles usam desde que eu me lembro. - Tudo certo? - Tudo certo. - Daniel responde, cansado. - Tivemos alguns problemas no embarque, mas deu tudo certo. Ele leva o carrinho até o porta-malas. Henry inclina o rosto, aquele sorriso torto de sempre. - Eu te avisei que não seria uma boa ideia trazer um animal selvagem dentro do avião. - O sarcasmo dele é afi ado, cotidiano, e eu reviro os olhos. - Mas é claro, você nunca me ouve. Os olhos de Henry se voltam pra mim. O sarcasmo fica mais nítido - e eu respondo com o gesto que ele merece: o dedo do meio, pontual e honesto. A expressão dele escurece por um segundo, e eu sigo para o carro, abrindo a porta e mergulhando no banco de trás. Sinceramente? Eu poderia retrucar. Mas minha paciência está em níveis críticos. Só quero chegar na casa do Daniel, tomar um banho quente e tentar lembrar como é ser gente de novo. Daniel fecha o porta-malas, e faz a volta entrando no carro, no lado do motorista, ouço o barulho do motor preencher o ar enquanto saímos do estacionamento. Pelo retrovisor do carro eu vejo Henry acender outro cigarro, e por um breve segundo penso que daqui para frente, talvez eu precise do dobro de paciencia para me manter sã e não mandá-lo a m***a. Oque será fácil contato que ele se mantenha fora da minha vista. Fecho os olhos e deixo o silêncio tomar conta - o ronco do motor, um perfume de cidade que ainda é estranho aos meus sentidos. Recomeçar dói. Mas amanhã talvez eu consiga encaixar a mesa do estúdio num canto da sala, talvez eu consiga levantar sem me sentir frágil. Talvez. Por enquanto, só quero chegar e me enterrar numa banheira quente ate esquecer o caos que me cerca.
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