Melina Sullivan
Eu ouço tudo à minha volta. Lembro de tudo, e ainda assim sinto como se estivesse fora do meu corpo. A escuridão ao meu redor me consome. Quanto tempo faz? Não faço ideia.
Mas eu ouço. Ouço a voz melancólica de Daniel e suas súplicas para que eu acorde logo. Por vezes, suas lágrimas tocam minha pele. Eu sinto, mas não consigo responder ao seu toque.
Sei que há outra presença no quarto, mas não faço ideia de quem seja. Não é a doutora responsável por mim, nem as enfermeiras. No tempo em que estou deitada e presa dentro de mim mesma, aprendi a diferenciar os cheiros. A presença misteriosa não é passageira. Ela é constante. Assim como Daniel, que está sempre ao meu lado.
Ontem, ou hoje, ou há algumas horas... não tenho muita noção do tempo. Ouvi dizer que já faz semanas que estou aqui. E que os médicos afirmam que posso acordar em breve.
Eu anseio por isso.
Não queria que nada disso acontecesse. Eu só... eu só queria me sentir livre. Faz tanto tempo que não corro, e eu sinto falta da sensação de liberdade que estar sobre duas rodas me proporcionava. É só que a vida andava meio caótica, o estúdio de tatuagem não estava indo tão bem, Aaron e eu estávamos brigando constantemente, e eu peguei conversas no telefone dele flertando com Sophia, minha "melhor amiga", e também com outras garotas.
Eu só queria um alívio de tudo, por um momento, e quando Kaio me contou sobre a corrida daquela noite, vi a oportunidade de me sentir livre mais uma vez.
Sinto as lágrimas de Daniel molhando meu braço, e quero lhe abraçar, dizer que ainda estou aqui, que vai ficar tudo bem. Mas meu corpo não reage. É como se dissesse que ainda não estamos prontos para voltar.
Ainda não.
●●●● Semanas depois ●●●●
A claridade invade meus olhos como uma lâmina de luz, cortante e c***l, obrigando-me a fechá-los de imediato. Piscar se torna um ato de coragem - a cada tentativa, o brilho branco do ambiente me atinge, insistente, até que minha visão, turva e indecisa, começa a ganhar contornos. O teto toma forma, os sons ganham nitidez, e a dor... ah, a dor desperta comigo, latejando em cada músculo, em cada osso, em lugares que eu nem sabia que existiam.
Minha garganta arde como se tivesse engolido areia. Tento mover o corpo, mas uma fisgada violenta percorre minha coluna, rasgando o ar num gemido abafado. Solto um palavrão, quase num sussurro rouco, e é nesse instante que percebo um movimento ao meu lado.
Viro o rosto com esforço - e me arrependo no mesmo segundo. A dor me atravessa como um raio, mas não consigo parar. Há algo ali que me prende.
E então o vejo.
Sentado ao lado da maca, os braços largados sobre a borda da cama, o rosto encostado próximo à minha mão. Dorme - ou ao menos parece. O semblante relaxado, a respiração calma, mas aquela cabeleira n***a e indomável eu reconheceria até no escuro.
- p**a merda... - minha voz sai fraca, rouca, mas alta o bastante para romper o silêncio. - Eu morri e fui pro inferno.
A frase parece uma senha. Ele desperta num salto, o corpo tenso, os olhos verdes arregalados me encarando como se eu fosse uma miragem prestes a evaporar. O horror e o alívio se misturam no olhar dele, e por um momento, eu quase sinto pena.
- Mel... é você? - a voz dele treme, e há algo de infantil nela. - Você realmente acordou... ou eu que tô sonhando?
Reviro os olhos - ou tento. A simples tentativa faz minha cabeça latejar. Então, suspiro e os fecho de novo.
- Claro que não, O'Connor... só abri os olhos pra ver quem tava puxando meu lençol. Agora, se não se importa, vou voltar pro coma. - minha voz é um fiapo, rouca e entrecortada, mas o sarcasmo ainda respira nela. - É óbvio que sou eu, gênio. O que esperava? A rainha da Inglaterra?
- p**a merda... pirralha mimada da p***a. - ele rosna, começando a andar de um lado pro outro, as mãos nos cabelos. - Eu devia te dar um sermão. Na real, eu devia te amarrar nessa cama pra você não aprontar de novo! Mas... m***a, Melina, eu vou chamar os médicos. E o Dani. - Ele pausa, e o tom muda, quebrado. - Ele tava enlouquecendo com medo de você nunca acordar.
E antes que eu possa soltar outro comentário espirituoso, ele sai pela porta, me deixando sozinha com o zumbido das máquinas.
Abro os olhos devagar e, pela primeira vez, presto atenção no quarto. As paredes têm um tom verde-água desbotado, tão sem vida quanto o ar impregnado de antisséptico. Há uma janela estreita no canto, por onde entra um fio de luz pálida, e duas poltronas gastas ao lado da maca. O único som é o bip constante das máquinas, denunciando que, de alguma forma, eu ainda existo.
Não demora muito para a tranquilidade se desfazer. De repente, o quarto se enche de médicos e enfermeiras, todos falando ao mesmo tempo, com pranchetas, luzes e perguntas demais. Sou tocada, examinada, virada, espetada - quase uma cobaia humana.
- Consegue ouvir minha voz?
- Sente alguma dor?
- Lembra o que aconteceu antes do coma?
As perguntas caem sobre mim como uma enxurrada, e eu só consigo pensar que talvez o verdadeiro inferno não tenha chamas - tenha jalecos brancos e pranchetas.
●●●● Horas depois ●●●●
- Você me deu um baita susto, sabia? - A voz de Daniel ecoa suave, mas há algo trêmulo escondido no fundo, aquele tom sereno que ele sempre usava quando queria me consolar. - Eu pensei que tinha te perdido, Mel. - Ele passa os dedos pelos meus cabelos, separando as mechas avermelhadas com cuidado, como se o simples toque pudesse me manter ali, desperta. - O que diabos aconteceu? O que você tava fazendo na rua aquela hora?
Eu sinto o desespero do meu irmão vibrar em cada palavra, mesmo que ele lute para se manter firme. Daniel sempre foi assim - o tipo de pessoa que carrega o peso do mundo nos ombros e ainda sorri pra disfarçar. É meu único parente de sangue, o único elo real que me restou.
Quer dizer... tem a avó Sônia. Ela não é nossa avó de verdade, mas é mais do que muita gente de sangue jamais seria. Mãe da melhor amiga da nossa mãe, foi ela quem nos acolheu quando tudo desabou, quando as duas morreram e o mundo pareceu desabar junto. Ela foi quem nos segurou quando ninguém mais o faria.
- Eu só perdi o controle da moto. - respondo, tentando soar leve, mesmo com a voz ainda rouca, raspando na garganta. - Não foi nada demais.
Os olhos de Daniel se estreitam, o cenho franzido denuncia o sermão que vem vindo. Mas antes que ele abra a boca, uma voz rouca e grave corta o ar, vinda da porta.
- Não foi nada demais? - O som reverbera pelas paredes, carregado de sarcasmo e irritação. - Não foi nada demais?! - repete, e cada palavra parece cuspida com raiva. - Você perdeu o juízo, garota? Por acaso tem noção do que fez? Ou seu cérebro parou de funcionar por causa desse maldito acidente?
Henry - O'Connor, pra ser mais exata - dá um passo à frente, e o brilho em seus olhos é puro fogo. - Você passou quase três meses em coma! - a voz dele sobe mais um tom. - Três malditos meses, Melina! Nós atravessamos o país, nós viramos noites do seu lado, nós achamos que você nunca mais ia acordar... e agora você me olha com essa cara de deboche e diz que não foi nada demais?
Ele está tremendo. Posso ver a veia pulsando em sua têmpora, o maxilar travado, o peito subindo e descendo num ritmo furioso. Cada palavra dele pesa no ar, deixando o quarto menor, o ar mais denso.
Mas eu não me deixo intimidar. Nunca deixei.
- E em qual momento eu pedi que fizesse isso? - pergunto, firme, minha voz calma, quase fria, mas com um toque venenoso de desafio. - Porque, até onde me lembro, você não é nada meu, O'Connor. Nunca foi. - ergo o queixo, fitando-o de frente. - Você é amigo do meu irmão, só isso. E essa amizade não te dá o direito de vir até aqui e bancar o dono da minha vida.
O silêncio que se segue é tão pesado que chega a doer. Ele me encara por alguns segundos - longos, intensos - e vejo a fúria queima-lo de dentro pra fora. Por um instante, acho que ele vai responder, gritar, quebrar alguma coisa. Mas, em vez disso, ele vira as costas e sai.
A porta se fecha com um estrondo que faz ecoar pelo quarto.
O som se apaga, e o silêncio toma conta.
Daniel suspira, exausto, os ombros caídos, o olhar cansado. Ele não precisa dizer nada - o peso no ar já diz tudo. Eu olho pra ele e, por um momento, a ironia desaparece. É só meu irmão ali, com o coração machucado e os olhos vermelhos de preocupação.
E, apesar de tudo, o que mais me dói... é saber que eu o fiz passar por isso.
- Não precisava falar com ele daquela forma. - Daniel rompe o silêncio, a voz cansada, baixa, mas firme. Ele se recosta na cadeira, passando as mãos pelo rosto antes de continuar. - O Henry só quer o seu bem, Mel. Ele também se preocupa com você.
- Pois não deveria. - retruco rápido, o tom cortante escapando antes que eu possa controlar. - Não temos nenhuma ligação de sangue, e tudo o que eu menos preciso agora é do seu amigo querendo bancar meu pai. - Ergo o queixo, fitando-o de frente. - Eu sou uma mulher adulta, Daniel. Sei o que faço... ou deixo de fazer da minha vida.
Ele suspira, e quando volta a falar, o tom muda - não é mais de consolo, é de repreensão.
- E ainda assim, conseguiu se meter num acidente às duas da manhã. - seus olhos me atravessam. - O que aconteceu naquela noite, Melina?
- Não foi nada. - fecho os olhos, respirando fundo, tentando me manter firme. - Só perdi o controle da moto, foi isso.
- As autoridades disseram que você tava a quase duzentos por hora. - ele rebate, a voz baixa, mas afiada. - Sua moto deu perda total, Mel. Perda total. - Ele se inclina para frente. - O que diabos você tava fazendo na chuva, de madrugada, a quase duzentos por hora?
- Nada. - repito, desta vez sem hesitar.
- Melina... - ele balança a cabeça, e há raiva em seu tom, mas o olhar é o de quem sofre. - Eu não sou i****a. Eu sei o que você tava fazendo naquela parte da cidade, naquela hora. - Ele se levanta, os passos pesados ecoando pelo quarto. - p**a m***a, você vai continuar fingindo? Vai continuar mentindo, dizendo que não foi nada? - a voz dele sobe, carregada de dor. - Quando todo mundo sabe que você quase morreu participando de mais um daqueles malditos rachas?
Ele para, o peito arfando, os olhos marejados. - Eu não sou i****a, Melina! - grita, e o som rasga o ar. - c*****o, como você acha que eu me senti quando recebi a notícia do seu acidente?
Daniel anda de um lado a outro, passando as mãos pelos cabelos, as palavras saindo em soluços contidos. E eu percebo que o que o move não é raiva - é mágoa. É medo. É impotência.
- Você podia ter morrido. - diz por fim, a voz embargando. - Nós só temos um ao outro, Mel. E eu quase te perdi. - as lágrimas caem sem que ele tente esconder. - Você faz ideia do que é isso? Pensar que, se não fosse um estranho qualquer te encontrar, você teria morrido sozinha naquele lugar?
Eu engulo em seco, as palavras travando na garganta.
- Dani... eu só queria...
- Não, Mel. - ele interrompe, enxugando as lágrimas com raiva. - Sem desculpas agora. Eu confiei em você, acreditei quando disse que tinha deixado as pistas, te ajudei com o estúdio, te dei tudo pra recomeçar. - Ele respira fundo, como se precisasse de ar pra dizer o que vem a seguir. - Acabou. Você volta comigo pra Los Angeles assim que estiver recuperada.
- Eu não sou uma criança, Daniel. - minha voz sai mais firme do que eu pretendia. - Você não pode me arrastar pro outro lado do país só pra me manter sob vigilância.
Ele para, no meio do quarto, me encara - e o que vejo nos olhos dele não é apenas fúria, é decisão.
- Pois bem. - diz, e a voz dele agora é fria, cortante. - Você escolhe. Se vier comigo, eu te ajudo a recomeçar lá, do zero, com tudo o que for preciso. Mas se decidir ficar... - ele faz uma pausa longa, como se as palavras pesassem. - Então vai ser por sua conta e risco.
Meu coração aperta, mas ele continua, a frieza no tom contrastando com o brilho das lágrimas ainda nos olhos.
- E vai esquecer que eu existo. - solta, sem hesitar. - Porque eu não vou carregar a culpa de ver você morrer por imprudência, Melina. Não vou me destruir tentando salvar alguém que não quer ser salva.
O silêncio que se segue é ensurdecedor.
E então ele sai - sem olhar pra trás, sem se permitir fraquejar -, batendo a porta com força o bastante pra me fazer estremecer.
Fico ali, imóvel, o som ainda ecoando dentro de mim. O quarto parece pequeno demais, sufocante. Fecho os olhos com força, e é quando sinto as lágrimas escorrendo quentes pela pele.
Daniel não entende. Nunca entendeu.
Ele não entende o que é sentir o vento cortando o rosto, o ronco do motor vibrando no peito, a sensação de que, por um breve instante, o mundo inteiro se curva diante de você.
Eu não queria morrer.
Só queria... me sentir viva. Nem que fosse por alguns instantes.