Melina Sullivan.
01h27 da madrugada.
A chuva começa a cair com fúria, castigando o asfalto à minha frente. As gotas batem no vidro do capacete e escorrem lentas, borrando o mundo numa mistura de reflexos e luzes distorcidas. Cada gota que desliza rouba um pouco mais da minha visão, mas não importa - eu sempre enxerguei melhor no caos.
01h30.
Os motores à minha volta rugem como feras despertas, famintas por liberdade e perigo. O som é uma sinfonia de aço e fogo, e o meu próprio motor vibra junto, pulsando como um coração extra no meu peito.
Minha moto é mais que uma máquina. É um prolongamento do meu corpo, da minha alma inquieta. É o lugar onde deixo de existir para o mundo e passo a ser só instinto.
É onde eu me sinto viva.
Livre.
Em paz.
O sinal é dado.
A contagem começa.
3.
Aperto o guidão com força. Meus dedos coçam, prontos para liberar o acelerador.
2.
A multidão desaparece, engolida pelo som ensurdecedor. Nesse instante, somos só eu e a pista - duas entidades que se entendem sem precisar de palavras.
1.
O rugido dos motores cresce, um trovão coletivo que sacode o peito e faz o sangue ferver.
A largada é dada.
Acelero com tudo o que tenho - e o mundo inteiro se torna um borrão de luz e chuva. Sinto as gotas cortarem minha pele como pequenas lâminas. O frio da madrugada tenta me dominar, mas a adrenalina é fogo líquido correndo em minhas veias.
Nada me segura.
Nada me detém.
A curva se aproxima, traiçoeira e familiar. Eu a conheço. Sei onde ela morde e onde ela cede. Inclino o corpo, e a moto responde com precisão cirúrgica.
Em um impulso insano, ergo a roda dianteira, deixando o pneu traseiro rasgar a pista molhada. Por um segundo, tudo parece em perfeito equilíbrio - o corpo, o vento, o barulho, o caos.
Quando a roda toca o chão de novo, o pneu escapa, e meu coração quase explode dentro do peito. Mas eu recupero o controle, rindo por trás do capacete.
Eu quero mais.
Mais velocidade, mais adrenalina, mais doçura amarga dessa sensação de viver à beira do abismo.
Acelero até o limite, sentindo o motor gritar junto comigo.
- Uuuuuuuoooooooohhhhh!
O grito rasga a madrugada.
Sou vento.
Sou fúria.
Sou livre pela primeira vez em muito tempo.
Mas então tudo acontece rápido demais.
O impacto.
O som seco do metal se partindo.
Meu corpo é lançado no ar - por um instante, estou flutuando, suspensa entre o céu e o chão, entre o viver e o desaparecer.
A dor chega como um raio, rasgando tudo. Minha visão turva, o gosto metálico no ar, o som do próprio coração tentando se lembrar de bater.
E ainda assim... eu sorrio.
Será que agora, finalmente...
eu estou livre?
E então, tudo escurece.
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Daniel Sullivan
- Eu declaro o réu culpado pelos crimes de lavagem de dinheiro, porte ilegal de armas e pelos assassinatos das vítimas Amelie Hamilton e Ashley Miller. Condeno-o a quarenta anos de prisão, sem direito à fiança. - O som seco do martelo do juiz ecoou pelo tribunal, cortando o ar como uma sentença divina. Era o fim da linha.
Soltei o ar que vinha prendendo desde o início da audiência. O desgraçado - conhecido no submundo como Gárgula - foi arrastado pelos policiais, esperneando e gritando ameaças que ecoavam pelos corredores. Que gritasse à vontade. Aquele filho da p**a finalmente ia apodrecer atrás das grades.
Virei-me para minhas clientes - as mães das garotas sequestradas e brutalmente assassinadas por aquele psicopata. O alívio nos olhos delas dizia tudo. E, por um segundo, o peso que eu carregava nos ombros pareceu diminuir.
Foram meses de investigação, noites m*l dormidas e audiências intermináveis, mas, no fim, justiça foi feita. Nenhuma sentença traria de volta as filhas delas, eu sabia disso. Mas ao menos aquele monstro não teria a chance de fazer novas vítimas.
Depois de algumas palavras e abraços contidos, saí da sala de audiência. Caminhei pelo tribunal em direção à saída, já esperando Henry aparecer. Precisávamos ir embora dali antes que a adrenalina caísse e o cansaço me atropelasse de vez.
Não demorou muito. Ele surgiu no saguão - gravata torta, expressão fechada, e aquele olhar de quem tá a um passo de explodir. Parecia pronto pra m***r alguém com as próprias mãos.
Cruzei os braços, observando-o. A cada dia, Henry parecia mais exausto. E eu, sinceramente, já sabia o motivo.
- Como foi a audiência? - perguntei, enquanto caminhávamos para fora do prédio. Ele afrouxou a gravata como quem arranca uma corda do pescoço.
- Um inferno. Um verdadeiro inferno, é isso que foi. - rosnou, passando as mãos pelos cabelos, claramente à beira de perder o controle. - Ela se recusa a aceitar a maldita proposta que o Leo preparou. E o advogado dela - aquele moleque arrogante que ainda devia estar aprendendo a limpar a própria b***a - teve a audácia de propor uma divisão de cinquenta por cento de tudo que eu tenho.
- E você, obviamente, não aceitou. - respondi, sem surpresa. Conhecendo o temperamento do Henry, era impossível imaginar outra reação.
- É óbvio que não, p***a! - ele rebateu, irritado. - Por acaso eu tenho a palavra "o****o" tatuada na testa?
A raiva dele era tão palpável que, por um instante, me peguei rindo. Ele me lançou um olhar mortal. - Vai, seu imbecil... fala logo que eu te avisei.
- Eu avisei, Henry. Eu te disse que ela não era boa pra você. - retruquei, sem me desculpar nem aliviar o tom.
O motivo de toda essa fúria era simples. Henry foi i****a o suficiente pra se casar com uma mulher que só amava o dinheiro dele. Um ano depois, ela pediu o divórcio.
Alegou "incompatibilidade irreversível", "negligência emocional" e até uma suposta traição. Pra completar o espetáculo, ainda entrou com um pedido de indenização de duzentos mil dólares por "danos psicológicos causados por um relacionamento abusivo".
Abusivo, claro. Só se for o a***o de paciência que ele teve pra aturar aquela cobra.
Conheço o Henry desde que me entendo por gente. Crescemos juntos, nossas mães eram grandes amigas - daquelas que dividiam o café, as fofocas e os conselhos de vida. Ele é o irmão que a vida me deu, o tipo de cara que está comigo em todas, até nas piores.
Claro, o Henry também pode ser um completo i****a quando quer. Mulherengo, teimoso e dono de um talento impressionante pra se meter em confusão. Mas uma coisa eu sei de olhos fechados: ele jamais levantaria um dedo pra uma mulher. Nem bêbado. Nem puto da vida. Ele tem noção do certo e do errado - e, sinceramente, a mãe dele arrancaria os dedos um a um se soubesse o contrário.
A m***a toda começou há dois anos, quando ele conheceu Eloisa Simmons num bar qualquer.
Um mês depois já estavam namorando. Seis meses, casados. Todo mundo no nosso círculo sabia que ia dar r**m - e deu.
Eloisa era aquele tipo de mulher que nasce sabendo como manipular. Uma aproveitadora disfarçada de donzela moderna. Doce na frente dos outros, mas venenosa por dentro. Isolou o Henry de tudo e de todos, e o pior é que ele estava cego demais pra perceber.
Até o dia em que pegou a infeliz transando com outro cara na própria cama.
Ele perdeu o controle.
Surtou de vez.
Bateu tanto no desgraçado que o sujeito ficou irreconhecível. E esse foi o erro dele. Porque Eloisa, esperta como uma cobra, usou isso a favor dela. Disse que ele era perigoso, instável, violento. Montou um teatro digno de Oscar.
Agora ele tá atolado num divórcio infernal, que já se arrasta há meses. A v***a ainda tem a coragem de achar que tem direito a parte do nosso escritório e da casa onde moravam - uma casa que ele comprou bem antes de conhecer aquela golpista barata.
Reviro os olhos e bato em seu ombro, tentando aliviar a tensão.
- Vamos, seu i****a. Temos que almoçar e ainda tem mais dois casos pela frente. - falo, empurrando-o levemente em direção ao carro.
Ele bufa, resmunga qualquer palavrão, mas me acompanha. O som dos passos ecoa no estacionamento até que meu celular vibra no bolso do paletó.
Atendo por puro reflexo. Pode ser cliente, promotor, quem sabe.
- Daniel Sullivan falando. - digo no meu tom mais profissional, o de sempre.
Do outro lado, uma voz feminina e formal responde:
- Olá, senhor Sullivan. Aqui é Alice Brown, do Saint John Memorial Hospital. Estamos entrando em contato porque o seu número está listado como contato de emergência de uma de nossas pacientes.
Sinto o sangue gelar antes mesmo que ela continue.
Meu corpo inteiro trava.
- ...A jovem de nome Melina Sullivan deu entrada essa madrugada em estado grave, após sofrer um acidente de moto. A pessoa que a trouxe não se identificou - apenas nos entregou a documentação e foi embora. Pedimos encarecidamente que o senhor compareça ao hospital para reconhecer a vítima e...
A voz dela se torna um zumbido distante.
Meu coração despenca no peito, e o mundo parece ficar sem som.
O telefone começa a escorregar da minha mão, e tudo o que consigo pensar é no nome que ela acabou de dizer.
Melina.
Minha irmã.
O celular escapa das minhas mãos, e por um instante sinto o mundo girar à minha volta.
Meu corpo cambaleia, o chão parece sumir, e minha mente entra numa espiral caótica.
Minha irmã.
Hospital.
Reconhecer a vítima.
As palavras da atendente ecoam na minha cabeça, cortando como navalhas.
Falei com ela na noite passada. Não faz nem vinte e quatro horas que aquela pirralha que eu amo me ligou, rindo, reclamando de qualquer bobagem do trabalho. E agora... isso.
- Daniel, cara, se acalma. - A voz de Henry chega até mim como se viesse debaixo d'água.
Ele me segura pelos ombros, firme, tentando me ancorar à realidade. - Vamos, anda, senta aí.
Mas tudo está confuso demais. Mel é tudo o que me restou.
Somos só nós dois - sempre fomos.
Ela me prometeu. Me prometeu que estava se cuidando, que não ia se meter em m***a nenhuma, que ficaria bem.
Promessas quebradas em segundos.
Ouço Henry falando ao telefone, sua voz firme e profissional assumindo o controle enquanto eu tento respirar.
- Aqui é o Henry, amigo do Daniel... sim, ele não está em condições de falar agora.
(...)
- A irmã dele... certo... qual o endereço?... Boston?... Entendido.
Pode colocar todas as despesas em meu nome, Henry O'Connor. Acertarei tudo quando chegarmos hoje à noite.
Obrigado.
Ele desliga e me encara. O rosto dele está tenso, mas vejo um leve brilho de alívio em seus olhos.
- Ela tá viva, cara. - diz, e o ar finalmente volta aos meus pulmões.
Uma onda quente de alívio me atravessa o peito, mas logo vem o medo.
- Está em estado crítico. Acidente de moto essa madrugada. A pessoa que a levou ao hospital não se identificou - só deixou os documentos e sumiu. Eles precisam de você lá pra resolver a parte burocrática... e ela precisa de alguém ao lado dela.
Engulo em seco.
- Boston, Henry... fazem sete anos que não piso naquela cidade, e agora que volto é pra... - As palavras morrem na minha garganta.
- Vou pedir pra Débora reservar o próximo voo. - Henry fala com a firmeza que eu já conheço. - Devemos chegar lá ao anoitecer.
Ele coloca a mão no meu ombro. - Você não tá sozinho, irmão. Vamos enfrentar o que tiver que ser enfrentado, juntos. É pra isso que serve a família.
Toco o punho dele, e fazemos nosso velho toque de mãos. Ele me dá um tapinha nas costas.
Henry é meu irmão de outra mãe, e se tem alguém nesse mundo em quem eu confio cegamente, é ele.
A gente começou do zero. Deixamos nossa cidade natal com pouco dinheiro e um sonho i****a de abrir um escritório de advocacia. Dois garotos recém-formados, cheios de coragem e nenhuma garantia.
Mas o tempo foi bom conosco. Hoje o escritório vai bem, e o dinheiro deixou de ser um problema.
Nossas mães teriam orgulho do que construímos.
As duas faleceram há alguns anos. Mel tinha apenas dez quando tudo aconteceu.
Elas estavam voltando de um retiro de bem-estar quando um motorista bêbado invadiu a pista. Morreram na hora. Eu tinha dezoito. Henry, dezenove. E, de repente, não tínhamos mais ninguém.
Foi a avó dele, dona Sônia, quem nos acolheu.
E eu serei grato a ela até o último dia da minha vida.
Cuidou de nós como filhos, sem nunca pedir nada em troca. Hoje, aos setenta anos, vive tranquila, porque fizemos questão de retribuir cada segundo do que ela nos deu.
Ela é nossa mãe de coração. E eu juro - enquanto eu respirar, nada vai faltar pra ela.