Capítulo 21
O príncipe Adormecido
Foi nesse instante que Isadora percebeu. As famílias reunidas, à disposição das cadeiras.
— Karim… — ela sussurrou, sentindo o sangue sumindo do seu rosto e seu coração bobo acelerar — Isso não é um jantar, é?
O amigo respirou fundo, a expressão mudando de divertida para séria.
— Me desculpe, Isadora… Mas Rafique não me contou nada até ontem...E presumi que o caso de vocês não seria sério, afinal se fosse mesmo nada disso estaria acontecendo.
Ela sentiu o mundo desabar sob seus pés. O que via não deixava mais dúvidas, aquilo era um noivado real. Doeu violentamente nela, sabe que ele mentiu.
E assim que ele entrou e ficou no centro, conversando com diplomatas e sorrindo de forma controlada. Ela chorou por dentro.
Rafique, seu príncipe, o homem que a fez acreditar que quebraria as regras e protocolos e tradições para ficarem juntos, e por ele ela assinará um contrato frio para gerar herdeiros ainda quando ele estava em coma. Nada doeria mais na sua vida, Isadora estava magoada.
Ao lado dele, de pé, uma jovem de pele muito clara, com véu vermelho cobrindo seu cabelo e tiara cravejada de diamantes, a então princesa Kaisle da Pérsia.
— Não tem problema. — Isadora respondeu num fio de voz, forçando um sorriso. — Eu realmente não posso exigir nada dele. Não temos um relacionamento real, Karim… Eu. — ela engoliu o nó na garganta. — Só assinei um contrato para gerar os filhos dele, acho que para salvar a descendência. É esse o meu papel na vida dele. Eu fui uma boba por acreditar que poderia ser algo diferente.
Karim abriu a boca para responder, mas o mestre de cerimônias anunciou em árabe o início do ritual. Todos se voltaram para o centro, e Isadora foi empurrada suavemente para uma mesa lateral, longe o suficiente para não ser vista, mas perto demais para ouvir e sentir.
O ritual do noivado começou com a troca de presentes simbólicos: o Sheik Hassan Al-Nahyan colocou uma espada cerimonial diante de Rafique, sinalizando a força e a proteção da família. O pai de Kaisle entregou uma bandeja de ouro com perfumes raros e um anel, símbolo da união. Havia rezas baixas, murmúrios, e todo o salão parecia prender a respiração. Rafique, no entanto, mantinha o olhar frio e distante, como se cada gesto fosse apenas parte de um acordo, e era.
Ele aceitará aquele noivado apenas para ganhar tempo e o apoio do tio Sheik Malik Al Salim, que lhe prometera, no momento certo, realizar o casamento com Isadora. Mas jamais imaginaria que ela estivesse ali, assistindo tudo.
Durante o banquete, Isadora pediu licença a Karim para ir ao banheiro. O véu ainda cobria parte de seu rosto, mas no espelho de mármore branco, iluminado por lâmpadas douradas, ela decidiu retirá-lo. Precisava respirar. Seus cabelos castanhos ondulados caíram sobre os ombros, e sua pele clara refletiu a luz suave, revelando uma beleza natural que não precisava maquiagem pesada de coroas ou jóias.
Foi então que a porta se abriu. Kaisle entrou, acompanhada de uma amiga igualmente impecável. A princesa, ao vê-la sem véu, parou, estreitou os olhos e caminhou até ela. Isadora ficou corada por saber que ela era a verdadeira noiva de Rafique, e que mulher teria o homem que prometeu lutar para ser ela sua noiva. Mas não seria mais possível e Isadora estava magoada, mas aceitava que não podia ser adequada como a princesa da pérsia, por isso lavou o rosto banhado em lágrimas.
— Então é você… — disse em inglês com sotaque persa, o tom carregado de desprezo — A p**a brasileira que está aqui em Dubai e pensa que pode roubar meu noivo.
Isadora recuou um passo, confusa e assustada.
— Eu… não sei do que está falando. Alteza.
— Ah, sabe sim. — Kaisle avançou, o olhar faiscando de ódio. — Ele te mantém como uma amante barata enquanto honra sua verdadeira noiva diante do mundo. Você é nada.
Kaisle soube de tudo um pouco antes de subir no altar para o noivado, ela recebeu um dossiê no celular, por alguém que dizia ser seu amigo.
A amiga da princesa fechou a porta, bloqueando a saída. Por um momento, Kaisle deu um passo rápido e, sem aviso, empurrou Isadora contra a parede de mármore. A dor foi instantânea. Antes que pudesse reagir, um tapa seco ecoou pelo banheiro. Depois outro. Um puxão de cabelo. Um chute. Mas outro, e ela odiava aquela ordinária e fez sangrar na grande sala de espera do banheiro.
Algumas mulheres saíram do espaço da privada, mas ficaram só olhando.
Enquanto isso, Isadora caiu no chão, tentando se proteger, mas a princesa não parou.
— Dei a ela o que merecia. — Kaisle disse, ofegante, olhando para a amiga e para outras. — Essa p**a brasileira v***a, pensa que se deu bem em Dubai, e pode ter um caso com meu noivo. Mas não vai. Agora a deixe sangrar.
Nenhuma das mulheres presentes ousou ajudá-la. O medo de enfrentar a princesa da Pérsia era maior que qualquer compaixão.
Sentindo muita dor, Isadora pediu socorro, mas em português, estava muito m*l. Para racionar em árabe.
Uma trabalhadora da limpeza, usando uniforme azul, apareceu na porta lateral da última privada. Era brasileira. E ouviu o pedido de socorro, e também ouviu a briga.
Ela correu até Isadora, ignorando o olhar fulminante da princesa. E não se acovardou só pensou em socorrer uma irmã de pátria.
— Aguenta firme, vou chamar ajuda!
A funcionária se ajoelhou ao lado dela, pressionando um lenço contra a testa e em seguida no corte no lábio. O sangue manchava o dourado do vestido.
Isadora tentou falar, mas a dor e o choque a silenciaram. O mundo parecia girar, o som abafado, como se estivesse debaixo d’água.
Quando finalmente os seguranças chegaram, Kaisle já havia se afastado, recomposta, voltando ao salão como se nada tivesse acontecido.
Enquanto isso, Rafique, que conversava com um ministro aliado, mas assim que percebeu Karim gesticular nervosamente perto da porta lateral. Abandonando a formalidade do ritual, ele foi até o amigo.
— O que está fazendo aqui, Karim, onde está Isadora? — a voz era baixa, mas havia um fio de ameaça nela.
Autora: Graciliane Guimarães