Capítulo 22
O príncipe Adormecido
Karim hesitou, os olhos fugindo do contato direto.
— Eu não sabia...
Foi então que antes de Karim terminar suas palavras, e olhando para a porta do banheiro o som de passos rápidos ecoou no mármore junto a um alvoroço. Que chamou a atenção de Rafique que olhou na mesma direção que o amigo olhava.
E viu os dois seguranças surgindo, carregando uma mulher. O vestido dourado estava manchado de sangue, o véu desaparecera do rosto, e os cabelos longos castanho colovam à pele úmida.
Rafique reconheceu-a imediatamente. E correu afastando os convidados da sua frente.
— Isadora! — a voz dele cortou o salão como uma lâmina.
Annia ofegou, levando a mão ao peito. Ao ouvir o nome gritando pelo filho.
Karim ficou imóvel, o rosto empalidecendo.
Rafique atravessou o espaço entre eles como um predador ferido. Agarrou o braço de um dos seguranças, obrigando-o a parar.
— O que aconteceu com ela? — a pergunta foi um rugido.
— Ela foi agredida no banheiro, senhor. — respondeu um deles, firme, mas nervoso. A faxineira disse que foi a princesa da pérsia.
Rafique se voltou para a mãe. Que se aproximava, como medo pelos bebês que Isadora carregava. Ela tinha sido raptada, e a própria Annia estava negociando a soltura da moça, assim até o momento ela pensava. Por foi a informação que obtiveram dos guardas com uma carta e entregue a ela..
A raiva dele queimava em seus olhos não era contida por nenhum protocolo.
— Isso é culpa sua minha mãe. — disse, a voz baixa, porém carregada de veneno. — Se algo acontecer com ela, eu juro que não sobrará nada.
O salão, até então preenchido pelo som suave de instrumentos árabes, mergulhou num silêncio pesado. Os convidados e chefes de estado, famílias reais, empresários milionários assistiam, paralisados, à cena que rompia todas as regras de etiqueta.
— E mais… — Rafique ergueu o queixo, projetando a voz para que todos ouvissem. — Este noivado está encerrado.
O anúncio explodiu como um trovão. Murmúrios percorreram o salão, celulares começaram a ser erguidos discretamente para registrar a cena, e repórteres infiltrados no evento já enviavam mensagens frenéticas para suas redações.
Kaisle, que havia retornado ao salão segundos antes, parou no centro, a boca entreaberta, o olhar incrédulo. A amiga dela se encolheu, mas o dano já estava feito: a humilhação pública de uma princesa da Pérsia e a ruptura de um acordo de noivado diplomático milionário.
Annia tentou falar:
— Rafique, você não entende…
— Entendo, sim! — ele a cortou, a voz finalmente explodindo. — Entendo que eu permiti que esta noite se tornasse uma armadilha para ela! Entendo que o sangue que mancha esse vestido dourado está nas mãos dessa família que você, minha mãe e meu pai insistem em me empurrar!
Ele segurou Isadora contra o peito, protegendo-a com o próprio corpo.
— Ela e nossos filhos vêm comigo agora. —
E, diante de centenas de testemunhas, Rafique virou-se e deixou o salão, carregando-a nos braços, enquanto o escândalo crescia como tempestade no deserto.
O silêncio dentro da limusine blindada só era quebrado pelo som ritmado dos pneus contra o asfalto liso da avenida costeira de Dubai. Rafique segurava Isadora nos braços como se ela fosse feita de vidro, o corpo curvado sobre o dela, protegendo-a de qualquer olhar ou toque.
A seda dourada do vestido, agora manchada de vermelho, grudava na pele dela. O perfume suave que costumava sentir estava misturado ao cheiro metálico do sangue. Cada vez que via a mancha aumentar, a respiração dele se acelerava.
— Aguente firme, habibti. — sussurrou, quase num pedido desesperado. — Você e nossos filhos vão ficar bem, eu prometo.
Isadora tentou falar, mas a voz saiu fraca:
— Aí está doendo, mas..eu estou bem… só… só me tira daqui por favor.
Ele passou a mão nos cabelos dela, afastando-os do rosto.
— Nunca mais você vai passar por isso. Nunca mais.
Do banco da frente, Karim tentava mostrar o peso da culpa quase sufocando. Como um bom ator, que era.
— Rafique, eu juro que não imaginei que ela fosse…
— Cale-se, Karim. — a voz dele foi cortante. — Se algo acontecer com ela ou com os bebês, a culpa também será sua.
O motorista acelerou, guiando a limusine diretamente para o Al Zahra Royal Hospital, um centro médico reservado à realeza e a magnatas internacionais. Os portões se abriram assim que viram a placa diplomática do carro.
No hospital, uma equipe de médicos e enfermeiros aguardava na entrada privativa.
Rafique desceu sem esperar ajuda, carregando Isadora nos braços até a maca que o chefe da equipe empurrou em sua direção.
— Três vidas. — Rafique falou rápido em árabe para o obstetra principal. — Três bebês. Nenhum risco de perda é aceitável. Quero ultrassom, exames de sangue, tudo agora.
Isadora foi levada para uma sala de atendimento de emergência VIP, enquanto Rafique caminhava de um lado para o outro, o maxilar travado. Seu tio Sheik Malik chegou minutos depois, trazendo seguranças adicionais.
— Já sei de tudo. — Malik falou baixo. — Está em todos os portais de notícias. O noivado acabou ainda no meio da festa.
— O noivado acabou quando aquela… — Rafique fechou os olhos, tentando controlar a raiva. — Quando aquela maldita mulher tocou um dedo na Isadora.
Na sala de exames, a obstetra ajustou o gel frio sobre o ventre de Isadora, e a imagem em preto e branco apareceu no monitor. Rafique estava ao lado dela, segurando sua mão.
— Aqui… — a médica apontou. — Os três fetos estão com batimentos cardíacos estáveis. Não há deslocamento de placenta. A agressão não causou trauma interno grave, mas ela vai precisar de repouso absoluto pelos próximos dias.
Ele fechou os olhos, soltando um suspiro pesado, uma mistura de alívio e fúria.
Isadora, exausta, murmurou:
— Eu só queria sair um pouco daquele apartamento, não sabia que ia…
— Shhh. — ele a silenciou, beijando a testa. — Não fale mais sobre essa noite. Acabou.
Isadora dormiu, e Rafique saiu do quarto porque foi avisado da presença da sua mãe.
No corredor, Annia chegou acompanhada de dois conselheiros da família. Assim que a viu, Rafique se ergueu como um predador pronto para o ataque.
— Espero que esteja satisfeita. — disse, com um frio cortante na voz.
— Pela humilhação pública que aconteceu hoje, manchando o nome de toda nossa família, é disso que você está falando.
— Humilhação, pública…Que se explodam todos. — disse, com voz como lâmina.
— Filho, ouça… eu não…
— Não, mãe. Ouça você: se algo tivesse acontecido a Isadora ou aos nossos filhos, eu teria acabado com qualquer laço entre nós. E ainda posso fazê-lo. Porque a única culpada é a senhora.
Os conselheiros trocaram olhares nervosos, cientes de que aquela ameaça, vinda do único príncipe herdeiro legítimo do palácio Al-Nahyan, tinha peso político real.
Enquanto isso, do lado de fora do hospital, jornalistas e fotógrafos se aglomeravam, tentando captar qualquer imagem. A notícia já havia se espalhado:
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“Escândalo no noivado real em Dubai, príncipe Rafique encerra cerimônia no meio do evento e sai carregando mulher misteriosa ensanguentada.”
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No quarto privativo, horas depois, Isadora estava deitada, vestindo um robe branco do hospital, com uma linha de soro ligada ao braço. Rafique estava sentado na poltrona ao lado, agora de terno, havia tirado as vestes reais do noivado forçado, mas com o paletó jogado no chão e a gravata solta. Ele segurava a mão dela como se fosse a única âncora que o impedia de afundar.
— Habibti, você é minha para sempre . E agora não vou esperar mais por promessas vazias. — disse, olhando-a nos olhos. — Com ou sem o meu tio Sheik Malik eu vou cuidar de dissolver o acordo com a Pérsia, e em breve vamos oficializar nosso casamento.
Isadora piscou, confusa.
— Mas, e a sua família?
— Que queimem no próprio orgulho. — ele respondeu, sem hesitar. — A única coisa que importa agora é aqui… — ele pousou a mão no ventre dela. — E aqui. — tocou o coração dela.
Autora: Graciliane Guimarães