Capítulo 24
O príncipe Adormecido
A porta se abriu e uma enfermeira entrou, trazendo um envelope escondido na cor creme com o selo dourado.
— Chegou há pouco, senhora, e fui obrigada a lhe trazer. — disse, hesitante, como se o papel carregasse peso demais para ser apenas correspondência.
Isadora abriu lentamente, reconhecendo o brasão que viu na festa de noivado. Dentro, havia uma carta escrita em persa e traduzida para o inglês:
_-_-_-_-_-
“Não se iluda com a proteção do príncipe. O deserto guarda segredos e cobra caro de quem ousa caminhar onde não pertence. Sua presença já custou alianças. Não deixe que custe vidas.”
_-_-_-_-_-_
A assinatura era apenas um traço caligráfico, mas a mensagem estava clara: um aviso velado, com cheiro de ameaça de guerra.
Isadora sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Instintivamente, a mão pousou sobre o ventre, como se pudesse proteger os três pequenos que cresciam ali.
No escritório improvisado do hospital, Rafique recebia o seu tio Malik, e dois de seus conselheiros de confiança.
— Eles estão sondando diplomatas de outros emirados, tentando nos isolar. — Malik falou, jogando um dossiê sobre a mesa. — E essa carta é apenas o começo.
— Já leu? — Rafique perguntou, a voz grave.
— Sim. É ameaça clara.
Rafique fechou os punhos.
— Quero segurança 24 horas para Isadora, dentro e fora deste hospital. E quero rastrear de onde essa carta foi enviada.
— Já estamos fazendo isso. — Malik respondeu. — Mas precisamos pensar nos próximos passos. Você quer levar isso ao Conselho de Estados do Golfo ou… resolver à sua maneira?
Rafique olhou para a janela, onde a cidade brilhava sob o sol como um tesouro de vidro e ouro.
— Eles estão jogando xadrez. — disse, lentamente. — Mas esqueceram que eu não sigo regras do modelo antigo deles, ainda mais quando se trata da minha mulher.
À tarde, Annia apareceu, acompanhada por dois diplomatas mais velhos. O Sheik Hassan não estava bem, e ele deu plenos poderes para ela agir em seu nome, por isso ela estava ali para falar com o filho uma última vez.
— Filho, se continuar escalando isso, com essa noiva inadequada não haverá volta. — ela disse, tentando manter a voz calma. — A Pérsia é um parceiro estratégico. Se rompermos totalmente, haverá retaliação econômica… e talvez pior.
— Mãe… — Rafique se aproximou, o olhar firme — Se um parceiro estratégico acha aceitável agredir a mãe dos meus filhos, não é parceiro. É uma ameaça. É, portanto eu sigo mantendo minha palavra, Isadora será minha esposa agora.
Um dos diplomatas tentou intervir:
— Alteza, deixe-o cumprir o novo casamento e quanto a princesa da pérsia, existe a possibilidade de um acordo silencioso que o Sheik Hassan já está negociando. Kaisle poderá fazer um pedido de desculpas formal, para Isadora sem admitir culpa, e o assunto morreria…
— Morreria para quem? — Rafique cortou, frio — Para vocês? Porque para ela… — apontou para a porta do quarto, onde Isadora descansava. — Esse dia nunca vai desaparecer.
No início da noite, Rafique entrou no quarto. Isadora segurava a carta com as mãos trêmulas..
— Eles estão tentando me assustar. — disse ela, baixinho — E… acho que está funcionando.
Ele ajoelhou-se diante dela, tomando-lhe as mãos. E pegou a carta e leu em segundos, bufando de raiva.
— Eu não vou deixar que toquem em você, habibti. Nem que se aproximem. — sua voz era grave, quase uma promessa selada. — Se quiser, partimos amanhã. Vou te levar para o palácio no deserto do meu tio Malik, onde ninguém entra sem permissão dele, nem mesmo meus pais.
Ela o olhou nos olhos, sentindo que aquele homem não recuaria.
— E a guerra? — perguntou.
— Então que venha a guerra. — respondeu, com uma calma perigosa. — Porque não vou perder você.
— Não Rafique, eu não posso deixar você continuar com essa loucura, olha eu não posso ser sua esposa, eu assinei um contrato para te dar filhos, e só. Por favor, continue com seu casamento com a princesa da pérsia, e não entre em guerra com eles. — disse muito séria.
— Então é isso habibti. Você prefere me ver casado com outra mulher, é não me quer?
— É, se for evitar uma guerra, é isso mesmo. — murmurou com voz dolorosa.
— Você não está bem, Isadora, não vou levar em consideração suas palavras, e agora descanse, vou organizar tudo. Ficaremos uns dias no deserto até que o casamento seja organizado para o mundo aqui em Dubai.
No dia seguinte, enquanto Rafique se preparava para sair com Isadora sob escolta pesada, a Casa Real Persa convocou uma coletiva. Kaisle, trajando um vestido azul profundo e joias discretas, apareceu diante das câmeras com um sorriso calculado. Agora ela sabia que não teria mais volta seu noivado com príncipe Rafique.
— Desejo apenas o bem-estar do príncipe Rafique e da senhora Isadora. — disse, pausando estrategicamente antes do nome, como se fosse veneno. — Espero que ela compreenda que meu noivado foi um acordo entre famílias e que certas interferências… têm consequências. Mas, já estamos resolvendo.
Era um recado mascarado de cordialidade, mas para quem conhecia o jogo político do Oriente Médio, era mais um aviso: a Pérsia não recuaria.
E no íntimo de Rafique, a decisão já estava tomada, ele não recuaria também.
Apesar de que não poderia forçar Isadora a ser sua esposa diante do mundo, e sim ele estava disposto a fazer o que fosse preciso para manter sua palavra, ela seria sua única mulher.
O sol do deserto ainda queimava no horizonte quando Rafique ajudou Isadora a entrar no carro blindado que os levaria para o refúgio secreto. O hospital ficava para trás, silencioso, mas dentro dela o turbilhão de emoções não cessava. Ele fechou a porta com cuidado, ajustou o cinto dela e, antes de entrar, tocou seu ombro com um gesto firme, quase protetor.
— Descansará em breve, habibti — murmurou, a voz baixa, como se fosse uma promessa.
A viagem seguiu por estradas estreitas e depois por um caminho quase invisível entre dunas douradas. O vento levantava véus de areia, e cada curva parecia afundá-los mais no coração do deserto. Até que, ao longe, uma miragem tomou forma não uma ilusão, mas um palácio que surgia das areias como um segredo preservado há séculos.
A fachada reluzia em tons de dourado e marfim, com torres esguias e cúpulas revestidas de mosaicos azuis e verdes que refletiam a luz do pôr do sol. O portão de ferro entalhado se abriu lentamente, revelando um pátio interno com fontes de mármore onde a água caía em suaves cascatas, e jardins exóticos onde várias flores do oriente espalhavam perfume doce no ar quente.
Rafique a ajudou a descer, apoiando-a com o braço firme em sua cintura. O toque dele não era apenas cavalheiresco, era um muro contra o mundo exterior, um cuidado que a envolvia por completo como dele.
— Aqui ninguém a encontrará, Isadora. Meu tio Malik não costuma receber visitas… e mesmo minha mãe não ousaria vir até aqui.
No interior, salões com tapetes persas se estendiam sob lustres de cristal que pendiam de tetos pintados à mão. Mesas baixas, incrustadas com madrepérola, exibiam jarros de prata e taças com pedras preciosas. Servos silenciosos apareceram, oferecendo tâmaras e água aromatizada com rosas.
Rapidamente ela foi levada para um quarto luxuoso para descansar.
Autora: Graciliane Guimarães