Capítulo 11
O Príncipe Adormecido
Na Ala Norte do palácio, era conduzida uma reunião secreta.
Zayra, a terceira esposa do sheik Al Hassan, encontrava-se em seus aposentos, cercada por perfumes doces e almofadas luxuosas, quando Lyaza entrou, convocada por um bilhete urgente. Taric e Jafer, os filhos de ambas, estavam presentes, com expressões tensas e olhos sombrios.
— Temos informações — disse Taric, com a voz firme. — Rafique, em breve, terá herdeiros. Acreditávamos, no início, que fosse por meio de mais de uma barriga de aluguel. E que alguma delas se chamava Isabela. Mas estávamos errados.
— Como sabem disso? — indagou Zayra, já com o sangue frio, os olhos fixos no filho.
— Primeiro, nosso pai, o sheik Al Hassan, deixou o segredo escapar durante uma discussão com a víbora da Annia. Depois, as servas contaram o restante. Mãe, quando essas ordinárias são pressionadas... com um bom suborno, falam mais do que deviam.
Jafer deu um meio sorriso. E foi ele quem continuou:
— É somente uma mulher que carrega os filhos gêmeos de Rafique. Ela se chama Isadora. É sobrinha de uma das enfermeiras que está no palácio desde o acidente. E essa mulher grávida está alojada aqui dentro, sob a proteção de Annia.
Os olhos de Lyaza brilharam.
— E por que, vocês não nos contaram antes?
— Queríamos ter certeza — respondeu Taric. — Agora sabemos quem ela é. Já vimos onde come, quem a serve. Está vulnerável.
Zayra se levantou, o olhar implacável.
— Então vamos planejar com cuidado. Nada que chame atenção. Um veneno leve, mas eficaz. Algo silencioso.
— Eu cuidarei disso com minhas criadas — garantiu Lyaza. — Aquela menina não verá a próxima lua nova que se aproximar.
E assim, no coração dourado do palácio, a morte de Isadora começou a ser preparada.
A noite parecia ter sido escrita por estrelas silenciosas. Havia paz no ar, um raro momento de contentamento no coração de Isadora. Ela se sentia acolhida, enfim aceita pela princesa Annia, mãe de Rafique. E esse sentimento de pertencimento a fazia respirar com alívio, quase acreditando que poderia ser feliz naquele lugar tão distante do seu mundo.
Mas a madrugada trouxe consigo mais do que o silêncio. Trouxe um sonho. Um pesadelo.
No sonho, Isadora corria por uma planície árida, gritando desesperadamente por ajuda. Seu vestido se rasgava nos galhos secos do deserto. Ao longe, o som de água. Mas não era uma fonte, era um poço profundo. E nele, Rafique. Submerso até o pescoço, lutando para respirar.
“— Me ajuda... Isadora... — dizia ele, com os olhos desesperados.”
Ela estendia as mãos, rastejava até a borda do poço, mas, ao olhar para baixo, via o próprio corpo coberto de sangue. Ela também estava morrendo.
Acordou num sobressalto. Suada, ofegante, o coração martelando em dor. As lágrimas vieram antes mesmo que conseguisse organizar os pensamentos. Aquilo não era apenas um sonho. Era um aviso. Um presságio.
Ainda era muito cedo quando ela chamou uma serva e pediu que fosse buscar sua tia Simone. Pediu com urgência. A mesma serva foi instruída a avisar a princesa Annia, tudo que Isadora pedisse. E foi por isso que a princesa chegou primeiro.
Annia entrou apressada, aproximou-se e sentou-se à beira da cama.
— Diga, Isadora. O que aconteceu? Me disseram que você está m*l, chorando, e pediu para ver sua tia.
Isadora enxugou o rosto com as costas da mão, tentando manter-se forte.
— Não foi nada, princesa... alteza. Foi apenas um pesadelo terrível. E eu queria ver minha tia.
— Você está muito enjoada hoje? — Annia a observava com preocupação. — Não acordou bem? O que sente? Podemos chamar um médico.
— Não é nada físico... eu só não consigo me alimentar, e estou angustiada.
— Entendi, mas me diga o que posso fazer por você, Isadora.
— Eu... eu gostaria de ver o Rafique. Na verdade, preciso vê-lo.
Annia assentiu com doçura, sem hesitar.
— Claro. Você pode vê-lo quando quiser. Vamos juntas agora.
As duas caminharam pelos corredores em silêncio, seguidas por dois guardas discretos. O quarto do príncipe estava calmo, silencioso como sempre. Ele permanecia deitado, os traços serenos, mas distantes. Era um sono que desafiava os anos, o tempo e a esperança.
Isso era o que viam no mundo real. Mas, na vastidão da mente adormecida de Rafique, onde as dunas dançavam em círculos e o céu era sempre crepuscular, ele caminhava. Descalço, exausto, sozinho.
A areia sob seus pés não queimava. Era fria como o silêncio da morte. E o vento levava sussurros, nomes, fragmentos de memórias que ele não sabia de onde vinham, mas sabia que pertenciam a ele.
Isadora se aproximou da cama, sentou-se devagar ao lado dele e segurou sua mão. A pele dele estava morna.
— Ya habibi…( Eu estou aqui)... — disse ela, com a voz trêmula.
Ele a ouviu…
No mundo do coma, Rafique estremeceu. Só ele sentia o calafrio que subia pelas costas. Ainda não visível no mundo real, sua luta era intensa. Como se, naquele deserto, o próprio tempo houvesse parado.
O vento calou. A areia estagnou. E o mundo real pulsava, próximo. Ele também voltou a ouvir. O som dos monitores. O farfalhar dos lençóis, puxando por alguém. A respiração dela ao seu lado.
— Hoje vim cedo, não é? Eu não queria e nem sei se posso te dizer isso, mas estou com muito medo, Rafique. Por favor, acorde. Eu acho que realmente preciso de você aqui comigo...
Uma lágrima escorreu por seu rosto.
Ela respirou fundo, tentando conter o choro que crescia.
Inclinou-se e tocou com delicadeza o rosto dele com os dedos, como se buscasse acordá-lo com o seu toque.
— Sabe, eu tive um sonho horrível. Eu estava morrendo, enquanto você se afogava num poço. Eu gritava, mas não conseguia te alcançar. E quando eu tentava, também estava caindo. Isso me tirou a paz. Me tirou o chão. Por favor, Rafique, acorde. Eu acho que estou em perigo.
E Rafique acreditou nela.
Por isso tentou correr. Tentando alcançar a luz que surgia à frente pequena, porém mas viva, como uma chama de lamparina ao longe. Só que suas pernas ainda eram pesadas. O corpo, um fardo. E a alma, cansada.
Ali, naquele instante, Rafique chorou. Sem lágrimas. Dentro da mente. Dentro do espírito.
Queria protegê-la.
Queria tirar dela aquela dor.
Com coragem e determinação, ele continuava atravessando a escuridão da morte. Ela era seu elo com a vida e com o mundo real. Por isso, o sangue dele começou a querer fluir mais rápido. Mais vivo.
Ele correu. Correu pelo deserto interminável.
Mas quanto mais corria, mais o chão se esticava, como se o destino o testasse.
Ele caiu. Os joelhos cederam. O corpo se curvou.
Mas ele não iria desistir.
Com os dedos fincados na areia, gritou, não com a voz, mas com a alma:
“— Espere por mim... eu vou te proteger…”
Autora: Graciliane Guimarães