Ela será protegida

1107 Words
Capítulo 09 O Príncipe Adormecido — Ah, muito obrigado, Alteza, senhor Sheik Hassan, boa noite. — Boa noite, Isadora. Ali, naquele silêncio antigo e sagrado, nascia um pacto entre dois mundos, o visível e o invisível, unidos por uma fé que não precisa de explicação. A primeira visita após autorização do Sheik Hassan foi esperada com muita ansiedade por ela. Mesmo jantando com a tia e tendo conversas alegres, Isadora seguia ansiosa, contando as horas para o momento de ir até o quarto dele. E novamente os guardas a levaram muito tarde da noite. Ela andou pelos corredores do palácio calada, mas radiante por dentro. A porta se fechou devagar atrás dela. Assim que entrou, a penumbra do quarto envolvia tudo com um silêncio respeitoso. Isadora caminhou até a cama e puxou a cadeira devagar. — Boa noite, Rafique... — disse baixinho. — Sou eu de novo, Isadora Oliveira. Seu pai me deixou te ver, e eu estou aqui. Abriu a bolsa e retirou algumas fotos que imprimira naquele dia. — Olha são do deserto. Fui em um passeio de camelo. Disse a um deles que ele era lindo, e ele me ignorou. Orgulhoso, talvez igual você, né? Sorriu sozinha e apoiou os cotovelos na beirada da cama, observando o rosto sereno dele. — Você parece estar dormindo, mas eu sei que está me ouvindo. Por favor, reaja. Eu prometo que não vou exigir nada, só quero ouvir você falar meu nome, uma única vez. Com tempo contado pelos guardas, ela saiu em seguida. Na noite seguinte, chegou ainda mais tarde. O quarto estava calmo, o som das máquinas constante. Isadora trouxe um livro grosso nas mãos. — Oi, voltei. Como prometi, descobri que você ama história medieval. — sussurrou, sentando-se novamente. — Este livro é sobre a dinastia Tang, um incrível imperador chinês. Mas soube que você já devorou lendo ele duas vezes. Passou os dedos pelas bordas da capa, pensativa. — Não faz m*l, eu vou ler mesmo assim um trecho para você. Mas não reclame da minha voz, porque tenho vergonha de ler em público. — brincou. Ela o olhou por um longo momento. Seus dedos tocaram levemente a mão dele. — Então, lá vai... Com voz baixa, de vergonha e corada, Isadora deu início: “Sob os céus de Chang’an, o Imperador Xuanzong reinava com esplendor. Seu trono dourado refletia o destino de um império vasto, onde poesia, guerra e amor moldaram o curso da eternidade. Naquela manhã de névoa perfumada por flores de ameixeira, o som delicado de pipa ecoava pelos corredores do palácio. A concubina Yang Gui Fei, a mais bela entre mil, sorria em silêncio, seus olhos profundos como as montanhas ao sul. O imperador a observava, entre encantos e presságios, sem saber que aquele amor mudaria o destino da dinastia. Porque, às vezes, um reino inteiro pode desabar por causa de um único coração.” — Oh, é um romance e deve ser lindo. Com certeza eu vou adorar, mas por hoje paramos aqui. Os guardas já me avisaram que preciso ir, mas prometo continuar nas próximas visitas. Rafique ouviu a voz linda dela, lendo para ele um livro que conhecia muito bem, e mesmo no coma, recitou o trecho final onde ela parou: “Porque, às vezes, um reino inteiro pode desabar por causa de um único coração.” A terceira visita, depois do acordo com o sheik, foi mais confessional. Após ler outro trecho do livro, ela tirou os sapatos e respirou fundo. — Quando eu era pequena, caí da cama e fiquei com um g**o horrível na testa. Não podia dormir, então minha mãe Sinara, ela é irmã da minha tia, sua enfermeira Simone, ah, foi ela quem me trouxe aqui. Já te contei sobre ela. Você sabe que, para ela não morrer, eu estou grávida de você. Bem, voltando ao meu relato, foi tão bom aquela noite... Mamãe me deixou ver desenho a noite toda. O que eu mais amava era Aladim... Riu com doçura. — Acho que desde então sou apaixonada pelo mundo árabe. Coincidência, não é? Eu agora estou aqui. Olhou para ele com ternura, como se esperasse uma resposta que sabia não vir. — Príncipe Rafique, quando eu puder ir embora, por favor, você tem que acordar antes dos bebês nascerem, ok? Talvez eu trabalhe de intérprete no aeroporto no meu país. Ou quem sabe, no Brasil, eu faça um concurso federal. Mas por enquanto fico aqui com você, torcendo para você acordar e só dizer meu nome. Só isso, Rafique que desejo de você. Ela ficou só mais um pouco, e como sempre deixava um beijo na testa dele antes de se retirar. A cada dia ganhava mais tempo com o príncipe, permissão do Sheik Hassan, que ficava cheio de esperança. A cada visita de Isadora, Rafique ainda permanecia estático, mas sentia algo. Um vínculo invisível crescendo, ele lá longe, no mundo do coma, andava no deserto até a pequena luz que parecia estar ficando finalmente mais próxima. Até que Annia descobriu. A princesa Annia invadiu o salão do sheik com fúria nos olhos. — Seu filho está sendo exposto àquela mulher! Uma barriga comprada ambulante! Isso é uma afronta à tradição! O sheik permaneceu sereno diante da explosão da primeira esposa, que ele respeitava, como a principal delas, mesmo afastado a gosto dela do leito conjugal. — Ela é a mãe dos herdeiros do príncipe, Annia. Já não será tratada como um objeto. — Uma barriga não tem voz, meu marido! Ela não pertence a este palácio. Ela vendeu o ventre! É uma serviçal de luxo! Taric e Jafer entraram no grande salão real nesse momento e pegaram só o final da discussão. — Pai, o que vai desonrar o trono? Olha, a tradição deve ser mantida. — É, não tem essa de serviçal de luxo. Os bobos dos outros palácios que estão inventando essa moda ocidental. Taric e Jafer falaram sem saber do que se tratava a discussão da princesa com o pai deles. Isso só fez o sheik nem dar moral às falas dos filhos e continuar: — A tradição é manter viva a esperança. Rafique teve reações. Isso é mais do que qualquer médico conseguiu! Taric e Jafer continuavam ali, agora prestando atenção, afinal eles não eram perspicazes como o filho primogênito. Annia cuspiu, quase como se fosse veneno: — Ela não pertence a nós! O sheik ergueu-se com dignidade, mesmo fraco por ter feito, dois dias antes, quimioterapia. — Pois eu decreto: enquanto o coração de Rafique bater, Isadora terá direito a visitá-lo. Ela será protegida por este palácio até quando quiser ficar. Autora: Graciliane Guimarães
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