Inconsolávelmente

1259 Words
Khiera tinha apenas nove meses quando sua mão fora prometida a um Príncipe distante de apenas dois anos de idade. Ela sabia muito pouca coisa sobre a história, mas estava certa que jamais se esqueceria do quanto se abalara com ela na primeira vez em que a ouviu. Acontecera aos doze anos. Ela se lembrava muito bem de vários detalhes daquele dia, em especial. Havia sido na Festa do Trono. Khiera havia estado se preparando o dia todo para os Jogos dos Tronos, em companhia a uma Suheila menor e tagarela. Em meio aos Jogos, Khiera o conhecera. O garotinho franzino de cachos ruivos que juntara seu leque quando este caiu a seus pés. Na época, o garotinho lhe parecera o Príncipe Encantado do qual tanto ouvira falar que um dia lhe apareceria, e depois dos Jogos, Khiera cometera a imprudência de confessar logo a Abadia sua afeição pelo ruivinho. Foi quando Abadia lhe comunicara em tom de reprimenda pela primeira vez, que o dono de sua mão era o futuro rei de Moheren, e que Khiera jamais f27u poderia se casar com alguém além dele. Khiera se lembrava de haver chorado aquele dia, ainda sem conseguir compreender direito toda a plenitude que o problema englobava. Apenas quando completou seus quinze anos, entendeu direito o que todo o problema significava. Significava que ao completar dezessete anos, ela seria obrigada a dividir sua vida e sua cama com um homem que não amava e que nunca havia visto na vida. O pensamento era suficiente para estarrecer seu coração de maneira dolorosa, e pôr abaixo qualquer possibilidade de dar vazão ao sentimento que uma vez nutrira pelo garoto ruivo, que algum tempo depois, Khiera descobriu chamar-se James. Ele era filho de um comerciante de objetos e peças de bronze. Apenas alguém que Khiera passara a admirar de longe e alguém por quem ela julgara manter um carinho diferente escondido em seu coração. Era o máximo que ela havia chegado de interesse por alguém. James havia se tornado um belo rapaz, com grossos cachos ruivos contornando o rosto oval, e isso lhe rendera um lugar na Guarda Real do Castelo. Nas raras vezes em que descia ao reino, Khiera tinha a oportunidade de trocar com ele apenas algumas poucas palavras impessoais, e nunca se passava disso. Agora, enquanto caminhava pelos corredores do castelo, rumo a Sala do Trono, ela se perguntava em como as coisas seriam se James fosse Rhajaran. Ela estaria contente ou satisfeita com a ideia de se casar em apenas algumas semanas? Estaria anelando pelo momento em que trocaria alianças com ele? Talvez fosse a simples ideia de ter que se casar que lhe causasse o mais absoluto pavor? Apesar de não ter certeza de nada disso, imaginava que o que quer que fosse que ela sentisse nessa ocasião, deveria ser mais agradável do que o que sentia agora. Imagens suas despejando a bebida de mel que bebera a pouco aos pés de Rhajaran fizeram sua cabeça rodar por alguns segundos. — Tudo bem, Khiera? — Suheila a cutucou entre as costelas. f28u — Não. — A princesa regurgitou, provavelmente verde outra vez. Estava apavorada. Assombrada. Com a serva de um lado, e Joshua de outro, ela se concentrava em não pisar em falso enquanto caminhava com o máximo de dignidade que conseguia reunir. Algo em seu interior fazia com que todo o cenário se convertesse de maneira desagradável, como se ela estivesse rumando para a própria forca. Os utensílios dourados ao seu redor apenas lhe lembravam de tudo que ela era e teria que ser, sempre. A cor dourada fora oficializada como cor do Reino de Alladien em homenagem aos cabelos da rainha Jullien, e Khiera participava do decreto de maneira quase ofensiva, por herdar os mesmos cachos, cor de trigo. Havia o ruído suave de falas na Sala do Trono, e Khiera podia ouvi-las com clareza quando se aproximou o suficiente. Sabia que o Príncipe ainda não se fazia presente, já que não era esse o costume, mas saber que o que os separava agora eram apenas alguns minutos, fez com que uma bolota amarga se formasse em sua garganta, a fazendo engolir com dificuldade. Quando os pajens lhe deram passagem, todas as falas da Sala ampla e abobadada cessaram. Ao fim do amplo corredor adornado com um grosso tapete de veludo dourado, repousavam os três Tronos de Alladien. O rei e a rainha já estavam sentados, esperando pacientemente pela filha. Khiera soube estar atrasada assim que vislumbrou o tom de recriminação nos olhos esverdeados da mãe. “Oh! Deus, Khiera! Já começou m*l, muito m*l! ”. Com um pigarro curto, a princesa se precipitou corredor à frente, notando pela primeira vez o quanto a Sala estava lotada. Haviam alguns aldeões e concidadãos de Alladien, assim como várias pessoas desconhecidas. Khiera imaginou que pudessem ser visitantes de Moheren. No lado direito da grande Sala, havia também uma mesa longa forrada com o que deveriam ser aperitivos f29u para os convidados, que não seriam tocados até que o rei se levantasse do Trono e liberasse o início das Festividades. Tantas normas lhe rendiam coceiras. Khiera tomou seu lugar no último trono, ao lado da mãe, que se virou para ela apenas o suficiente para que pudesse ser ouvida acima da música clássica que ressoava vinda do grande piano de cauda num dos cantos da Sala. — Devo considerar este atraso intencional, Khiera? A princesa conteve um leve engasgo enquanto procurava encarar os enormes e incisivos olhos da mãe. — Eu... tive alguns problemas com... — ela gaguejou por alguns instantes — As presilhas do cabelo! Elas ficavam caindo, e você sabe como eu odeio penteados frouxos. Dá a sensação que meus cabelos vão todos se desgrudar da cabeça e cair a qualquer terrível momento, e também parece que... — Tudo bem, Khiera, tudo bem... — a rainha a interrompeu com um aceno de mãos, e Suheila sufocou o riso enquanto se prostrava ao lado da princesa. Falar asneiras descontroladamente era o melhor modo de fazer a rainha desistir de um sermão. Khiera observou pálida enquanto Joshua procurava um lugar mais afastado dos Tronos, apesar de que não muito. Se ele se afastasse muito, teria que ouvir muitas repreensões mais tarde. No fundo, Khiera sabia que os amigos só queriam se certificar de que ela não intentaria contra a vida de Rhajaran em nenhum momento, e pensar nisso, lhe rendia certo desgosto. Khiera apertou o leque entre os dedos enquanto deslizava os olhos pelo salão lotado. Percebeu que muitos dos desconhecidos trajavam vestuários em tons de azul, e mentalmente, Khiera tomou nota que esta deveria ser a cor oficial de Moheren. Em seu passeio de olhos pelo salão, ela detectou Abadia em pé perto das portas. Seus olhos desfocados estavam nela, e a serva acenou afirmativamente em sua direção enquanto apontava dois dedos para os f30u próprios olhos, e depois, os apontava em direção à Khiera. Khiera sabia bem o que significava aquele gesto. “Estou de olho em você”! — Era o que ele dizia. Ora, que afronta. Khiera conteve a v*****e de tirar a língua para fora, pulando no assento macio quando a música cessou, assim como todas as vozes no salão. “Ah! Santo Deus, Ah! Santo Deus, que as fadas me ajudem! ”. Confirmando suas suspeitas, um Pajem barrigudo e vestido de azul-cobalto adentrou no salão, desenrolando um pergaminho enquanto se colocava de lado, deixando a passagem livre. O som das trombetas soou quando ele se pôs a recitar seu texto.
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