Flashback - A traição

2329 Words
Eu estava nervosa. Não parava de correr de um lado para o outro verificando os últimos detalhes. O Ben faz aniversário hoje e eu planejei uma festa surpresa com todos os nossos amigos. Eu estava tão ansiosa! Ele não sabe que estou na cidade, viajei para a casa da vovó como faço em todas as férias, mas insisti para conseguir voltar um pouco mais cedo dessa vez. É o primeiro aniversário que passo com o meu namorado, afinal. É importante. Os meus sogros também entraram na surpresa e inventaram algo sobre precisar passar o dia trabalhando. O coitadinho acha que vai passar o dia inteiro sozinho e ele não para de mandar mensagens reclamando. Ben: Saudades, gata Eu: Tambéem... Como está o meu aniversariante? Ben: Abandonado... sozinho... Eu: Aw bebê... vou recompensar quando voltar. O que vai fazer hoje? Ben: Eu vou esperar Tô indo pro treino de natação e depois vou ficar vendo algum filme em casa, acho Eu: parece um saco Ben: Sim, mas não é minha culpa ter sido abandonado pela minha namorada no dia do meu aniversário. Eu rio da sua mensagem dramática, mas não respondo. Ele não perdia por esperar. Não restava muito tempo para terminar de arrumar a festa, Ben logo estaria chegando do treino. Olhei ao redor, decidindo por onde começar, quando Clarke se aproximou segurando um monte de toalhinhas coloridas para cobrir as mesas. — Dúvida. — Manda. — Por que ele está aqui? — Ele quem? Eu sigo o seu olhar e encontro Dean apoiada na parede com os braços cruzados no peito. Ele observa a movimentação ao redor com uma expressão entediada. — Ok. Eu vou resolver isso. — Vá. Aproveita e manda ele ajudar. Todo mundo está fazendo alguma coisa. — Deixe comigo. Dean percebe a minha aproximação quase imediatamente. Os olhos dele se fixam em mim e é um pouco desconcertante caminhar enquanto ele me encara. Eu faço o meu melhor para não parecer patética. — Oi, Dean. — Gabriella. Dean é sempre frio e distante comigo. Eu acho isso um pouco frustrante porque ele já foi doce e gentil um dia. Mas algo mudou para o garoto, ele só esqueceu de me avisar o que foi. — Eu não esperava te ver aqui. — Eu aposto que não. Não recebi um convite seu. Dr*ga... — Eu pensei que você não iria querer vir e... — Você pensou certo. Certo, ele não vai facilitar para mim. Tudo bem, eu posso lidar com ele. — Você e o Ben não se dão muito bem. Não ultimamente. — Eufemismo. — Sim. E já que nós dois concordamos com isso, por que está aqui? Ele sorri. — Uau... parece que as coisas estão sérias entre vocês. Você está até me expulsando da casa dele. — Eu não estou te expulsando. — Ah, não? — Não. Eu só quero entender a sua presença. Dean dá de ombros. — Boca livre. — Conta outra. Por que você decidiu aparecer na festa surpresa de Ben? Ele suspira. — Não sei.  — Estreito os meus olhos. — Não, é sério. Não sei. Eu nunca perdi um aniversário de Ben. Os seus olhos não estão mais em mim, mas em algum ponto sobre o meu ombro. Eu olho para lá também. A estante da sala continha um mar de porta-retratos e entre eles, um de Ben e Dean abraçados. Eu sabia que era para lá que ele estava olhando. Eu olhava muito para esse também, sempre tentando entender o que aconteceu entre os dois. — Você sente falta dele? — pergunto suavemente. — Você está sendo ridícula agora, Gabriella. — Não me chame de ridícula. — Então não diga coisas como essa. Eu não sinto falta dele. — Não precisa entrar na defensiva. — Eu não estou... — Ele para de falar. Provavelmente percebeu que só conseguiria mostrar como está mesmo na defensiva. Dean suspira. — Eu gosto dos pais dele. Eles sentem a minha falta e me convidaram e eu achei que poderia fazer um esforço. Por eles. Não pelo Ben. Eu concordo com a cabeça. — Isso é legal. — Não enche. — Você é irritante — reviro os olhos. — bom, já que está aqui faça algo de útil. Você não percebeu que todo mundo está ajudando? Me ajude a encher as bolas. Ele dá de ombros e me segue sem falar nada. — Sabe, eu não estou dizendo que você sente falta dele. — É claro que não. — Mas... caso sinta, sei lá, você reparou que aquele porta-retratos continua ali? — Os pais dele fizeram isso. Eu aposto que ele nem percebeu que aquilo está lá. — Eu duvido. Aposto que se realmente o incomodasse, já não estaria mais lá. Talvez você apenas esteja alimentando um ressentimento sem sentido. Dean para de andar e segura o meu braço para me forçar a acompanhá-lo. — Não faça isso. — O que? — Tentar concertar as coisas. Eu estou alimentando um ressentimento que não faz sentido? Você nem sabe o que aconteceu entre nós. — Quem disse? Talvez Ben tenha me contado. Ele não tinha, mas Dean não sabe disso. Ele riu. — Essa eu pagaria para ver. Eu sei que ele não te contou, Gabriella. Eu sei, porque Ben é um... não importa. Eu e ele não somos mais amigos. Estou bem com isso e você não precisa tentar bancar a boazinha e concertar a coisas. — Tudo bem. Eu só acho que... — Você não acha nada. Vamos logo encher essas bolas. * A decoração está linda, todos os nossos amigos estão aqui e eu estou muito feliz por ter tido essa ideia. — Será que ele vai demorar? — Clarke pergunta quando para ao meu lado. — eu quero começar a comer aqueles salgadinhos. Ela deve ter o invocado porque imediatamente escutamos o barulho de alguém mexendo no portão. — É ele! — Ryan, que estava espiando atrás da cortina, avisa. — Certo, galera! — eu digo — todo mundo se esconde. Com a minha visão periférica, vejo Dean revirar os olhos, mas ele obedece e se abaixa atrás do sofá. Por falta de opção melhor, e sentindo que tenho pouco tempo para procurar outro lugar, eu me junto a ele. — Oi para você. — Shiiu... fique quieto. Dean dá uma risadinha baixa. Ele abre a boca provavelmente para voltar a me encher o saco, mas para quando ouvimos a risada abafada de Ben. A risada é seguida por outra...feminina. Eu nem sei o que pensar sobre isso, o meu cérebro não é rápido o bastante, mas eu consigo entender que algo parece errado. Eu olho para Dean e ele está com a testa profundamente franzida. Ele parece tão chateado. A expressão dele me empurra para mais perto da compreensão e eu começo a ficar apavorada. — Tem certeza que podemos ficar aqui? A voz feminina pergunta. — Sim. Não tem ninguém em casa. Eu acho que vou vomitar. Eu escuto a chave e sei que Ben está prestes a entrar. Eu quero sair daqui, mas também quero ficar. Talvez eu esteja interpretando isso errado? Ela pode ser uma amiga? Uma amiga que ele precisa que ninguém esteja em casa para trazê-la? Até parece. — Gabi, você não precisa ver isso. Vamos sair daqui. Isso é r**m. Dean está me chamando de Gabi e sendo educado e é muito obvio para mim agora que estou prestes a ver o meu namorado com outra garota. Eu quero aceitar a sugestão de ir embora, mas balanço a cabeça. Eu nunca sairia rápido o suficiente agora. Quando a porta abre, eu fico muito pouco surpresa ao ver uma garota pendurada em Ben. Eu sabia que isso estava vindo. Mas dói. Dói para caramba. Ele está ocupado demais devorando a boca da garota para perceber que foi flagrado. Ainda estou decidindo o que fazer quando ouço o coro de vozes dizendo “surpresa”. Claramente, os nossos colegas não estavam perto o suficiente para ouvir o que estava acontecendo e quando saem dos seus esconderijos, a surpresa é deles também. É difícil dizer quem está mais chocado. Ben salta para longe da garota como se ela tivesse desenvolvido alguma doença contagiosa nos últimos segundos. Os convidados estão alternando olhares entre mim e Ben. Essa vai ser uma fofoca quente amanhã. Que piada. Meu namorado, ou melhor, ex-namorado olha ao redor em pânico. Ele está me procurando e os seus ombros despencam quando me encontra. — Gabi... A sua voz é hesitante, como se estivesse tentando acalmar um animar. — Gabi... me deixa explicar. Explicar... Eu queria rir, mas minha garganta estava seca e não consegui produzir som algum. Ben se aproveitou da minha falta de reação para se aproximar. — Vamos conversar sobre isso. Ele estende a mão para me segurar, mas Dean o para antes que me toque. — Acho que ela não quer falar com você. — E o que você tem com isso? — Ben puxa o braço do aperto de Dean e o encara com raiva. — Por que você está na minha casa? Isso é entre eu e minha namorada. — Ex-namorada. É a primeira coisa que consigo dizer. Ben arregala os olhos e balança a cabeça. — Gabi, não. Vamos conversar sobre isso, por favor. — Ben, saia. Eu vou te remover fisicamente se não o fizer. Gabriella não vai falar com você agora. — Saia você da p*rra da minha casa. — Todo mundo está olhando, cara. Não faça isso com ela agora. Você já fez o bastante. As palavras de Dean me fazem olhar ao redor, só para confirmar que temos mesmo uma plateia. Estou chocada que ninguém tentou pegar o celular para filmar ainda. Meus olhos encontram os de Clarke, que parece despertar do choque e finalmente me alcança. Ela agarra o meu braço protetoramente. — Vamos sair daqui, Bibi. Balanço a cabeça e deixo que ela me puxe. — Gabi — Ben nos segue — Deixe eu te levar para casa, vamos conversar lá. — Não vai rolar — Dean responde — eu já avisei. — Sai daqui, Dean! — Se você vier atrás de nós, eu vou arrancar as suas bolas — Clarke grita por cima do ombro enquanto me empurra para a saída de trás. — Eu não tô brincando. Inacreditavelmente, ela me faz sorrir. Eu olho para trás e vejo Dean plantado na frente de Ben e o impedindo de continuar a me seguir. Eu não esperava ser defendida por Dean, mas eu sou grata pelo que está fazendo por mim. Clarke me leva embora e durante todo o caminho a minha mente continua repetindo o que aconteceu. De novo e de novo. * É preciso muito esforço para convencer Clarke a me deixar sozinha, mas eu consigo. Eu me arrasto para o quintal e subo para a antiga casinha da árvore. Ela não era minha. Eu não tenho nenhuma história sobre brincar aqui quando eu era criança. Esse lugar pertenceu a antiga família que viveu na minha atual casa. Mesmo estando velha demais para isso, eu gostava de estar ali. Eu me perdia imaginando quantos segredos infantis essas paredes guardam. Eu não estou pensando sobre isso agora. Estou tentando não pensar em nada. Ouço um barulho na escada e acho que a minha mãe já escutou sobre o que aconteceu e largou o trabalho mais cedo para consolar o meu coração partido. Eu fico realmente chocada quando os cabelos castanhos e sempre despenteados de Dean aparecem no topo da escada. Ele não consegue ficar em pé na casa e eu observo em silêncio quando ele engatinha até mim. Dean não fala nada por um tempo e embora eu queira questionar a sua presença, eu não faço. — Como você está se sentindo? É a primeira coisa que sai da sua boca e a situação é tão bizarra, ele aqui comigo, que isso arranca a verdade para fora de mim. — Humilhada. — Você não deveria. — Os nossos amigos viram. Amanhã a escola toda vai ficar sabendo. — Sim. Todo mundo vai ficar sabendo que Ben é um bab*ca. Ele deveria estar se sentindo humilhado, não você. Eu rio, sem ânimo. — Até parece. — É sério, Gabi. Não sinta vergonha pelo erro dele. Você não merece isso. Não. Eu não mereço. Como Ben pôde fazer isso? Eu pensei que as coisas entre nós eram especiais. Pensei que eu era especial para ele. Que patétic*a. Sem permissão, as lágrimas que eu tentei segurar desde o momento em que vi o meu namorado beijando outra garota aparecem. Que hora terrível para desabar! Eu tento sufocar o choro para que Dean não perceba, mas não adianta. Ele franze a testa e segura o meu queixo para me fazer olhar diretamente para ele. — Tudo bem se você quer chorar. — Ele não merece as minhas lágrimas. Dean assente. — É verdade. Mas você tem o direito de ficar triste. Não deixe que ele tire isso de você. — ele morde o lábio inferior. Os seus olhos analisam o meu rosto cuidadosamente — Só não fique triste por muito tempo. O seu rosto combina mais com um sorriso. Eu consigo sorrir entre as lágrimas. — Está dizendo que eu fico fei*a quando choro? Estou muito surpresa por conseguir brincar depois de tudo o que aconteceu hoje e acho que só posso agradecer ao garoto na minha frente. — Estou dizendo que gosto do seu sorriso. Eu não tenho uma resposta para isso, mas no meio de toda aquela dor no meu peito, sinto algo diferente. Algo bom. Dean estica a mão, um pouco hesitante, e me alcança para depois me puxar para perto. A minha cabeça se encaixa no seu peito e ele desliza os dedos pelo meu cabelo. — Pode chorar agora. Depois, eu quero que você mande o Ben ir se fud*r. Eu rio. Eu choro também. Dean me segura e me deixa fazer as duas coisas. 
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