Dia 1 (parte dois)

2867 Words
Não foi fácil fugir da minha melhor amiga. Eu precisei inventar uma dor de barriga e fingi correr para o banheiro. Dean achou tudo muito engraçado. Eu não tinha tanta vontade rir com essa história. Mentir para Clarke não me agradava nem um pouquinho. Mas não é como se eu tivesse outra opção. Eu confio em Clarke, mas sei que ela deixaria escapar alguma coisa para o seu namorado. Acontece que Ryan é amigo de Ben e por mais que eu acredite nas boas intenções do cara, ele acabaria contando sem querer. Pretty little liars me ensinou uma ou outra coisa sobre guardar segredos. Não. Eu não estava indo contar para a minha melhor amiga, por mais que me doesse. Dean estava atrasado. De novo. O chão provavelmente cederia sob os meus pés com a quantidade de voltas que estou dando. Nós precisaríamos ter uma conversa sobre os seus atrasos, eles eram irritantes para caramba. Quando a campainha finalmente tocou, eu corri apressada para atender. Mas parei por um momento antes de abrir a porta. Eu não queria parecer toda ansiosa. Contei mentalmente até dez. Depois, achei insuficiente e contei até vinte. Dean estava bonito, o que não era uma novidade de forma nenhuma. Ele usava uma camiseta preta que deixava os seus braços musculosos livres para serem admirados. Os seus estavam úmidos e um pouco despenteados. Eles sempre estavam. Imagino que seja culpa do capacete. Mas é claro que como o mundo é injusto e dá muito para alguns e pouco para outros, o visual ficava ótimo nele. — Você está atrasado. — Lá vem você com isso. Pare de reclamar, Gabriella. — Hunf! Você é sempre m*l-educado? — Você é sempre chata e neurótica? Eu me recuso a respondê-lo e me contento em lançar sobre ele um olhar frio. — Entre logo, Dean. Com um sorriso vitorioso, ele passou por mim. Tão, tão irritante! Depois que fechei a porta e me virei, encontrei Dean já acomodado no sofá, sem nenhuma cerimônia. Bom, acho que isso combinava com ele. Eu me sentei ao seu lado e puxei para o meu colo o caderno em que estava fazendo anotações mais cedo. Vamos direto ao ponto, para que Dean possa ir embora e eu volte a respirar normalmente. Quer dizer, essa coisa de namoro falso era muito estressante. — Vamos começar. Eu fiz algumas regras. — Regras? — Sim. Você sabe o que é isso Dean? — ironizo. — São coisas que você deve obedecer e não quebrar. Será que você é capaz disso? — Está dizendo que eu sou um rebelde? — ele sorri. — Então você tem uma queda nos caras m*aus? — O que? Eu não tenha uma queda por você. — rebati irritada — não seja ridículo. — Claro, claro. Diga isso para si mesma. — Você é tão... — parei. Respirei fundo. — Você está tentando me deixar irritada, não é? Ele ri. — Descobri recentemente que sou muito bom nisso. — Você não é mais! A partir de agora não vou me importar com nada que saia da sua boca. — Isso é um desafio? — Eu não vou nem escutar quando você estiver sendo um b*baca. — Isso parece um desafio. — Lá, lá, lá... Tem alguém falando? — Essa é a sua estratégia? Que coisa infantil. — Não ouço nada. — Você é irritante como o meu irmãozinho. Mas ele tem cinco anos. — Apenas o mais completo silêncio. — Gabriella... — Cri Cri Cri... — Nós dois deveríamos fazer s*x* aqui mesmo no sofá. — O QUE? — eu me engasgo. Realmente engasto. Estou puxando o ar como uma maratonista e Dean está sorrindo como o grande id*iota que ele é. — Parece que você estava ouvindo. — Eu vou te mat*r! — consigo dizer depois que a crise passa. — Quem diz uma coisa dessas? Ele dá de ombros. — Pessoas. O tempo todo. — Tá legal, Dean, já chega! — faço o meu melhor para ignorar o rubor em minhas bochechas. — A partir de agora você só fala quando for solicitado. — Você faz o tipo namorada autoritária, então? Eu não imaginaria. — Eu faço o tipo garota de tpm prestes a furar os seus olhos com uma caneta. Ele ri. O idi*ta ri! — Tudo bem. Vamos logo com isso. O que você tem para mim? — Ir logo com isso é tudo o que eu estava tentando fazer. — Entrego o caderno para Dean. — Essas foram as regras em que consegui pensar.   Regras para o namoro falso: 1 – Em 45 dias a gente termina tudo 2 – É permitido apenas beijos técnicos (sem língua e apenas em situações de extrema necessidade para convencer alguém) 3 – Nada de mão boba!! 4 – Durante os 45 dias, é proibido ficar com outras pessoas 5 – Não é permitido se apaixonar.   Foi uma tortura lenta esperar Dean terminar de ler. Ou ele é um leitor muito devagar ou está tentando me provocar. Quando os seus olhos saem da folha para encontrar os meus, eu vejo lágrimas não derramadas neles. Lágrimas de divertimento. Dean está no meio de uma crise histérica de riso interno. — Não comece, Dean. Eu só quero que isso dê certo. — Eu tenho algumas observações a fazer. É claro que ele não iria deixar passar. Uma parte enorme minha queria expulsá-lo da minha casa, mas eu sou a única culpada de metê-lo nisso. Eu precisava tentar ter um pouco mais de paciência. — O que você quer? — Vamos começar com os beijos técnicos. Quer dizer, isso é sério? — Você não vai colocar a sua língua na minha boca. — Hum, isso foi específico. Quer dizer que posso colocá-la em outros lugares, então? Esqueça o que eu disse sobre paciência, eu iria esgan*ar esse garoto. — Eu sei que é difícil para você, mas tente não ser tão bab*ca pelos próximos dez minutos. — Não, é sério... você tem certeza de que não esqueceu de nada aqui? Você não falou nada sobre gravidez, por exemplo. Deveria escrever que não posso te engravidar. Ele estava adorando aquilo! Eu não ia dar esse gostinho a Dean, embora as minhas bochechas entregassem o quão as suas palavras estavam me deixando tímida, eu não deixei a minha voz vacilar quando o respondi. — Primeiro, você é irrit*ante como um mosquito zumbindo no ouvido. Segundo, eu disse que você não pode me beijar de língua, então o resto é dedutível. — Eu discordo. Tem alguém faltando a aula de biologia? Eu poderia te engravidar e não te beijar de língua. Uma coisa certamente não anula a outra. É melhor você colocar na sua lista. — Eu vou te ignorar agora. — Lá vamos nós de novo. — Você tem mais alguma observação desnecessária para fazer? — É claro! Ele me dá uma piscadinha e volta a olhar para o caderno. — Vamos falar sobre essa última regra. — Imaginei que você teria coisas para falar sobre ela. — Oh, eu tenho! Você está preocupada com o que exatamente? Tem medo de se apaixonar por mim ou de que eu me apaixone por você? — Eu não sei. Eu só não quero que aconteça, não que eu pense que vá, mas... só seria realmente inconveniente. Ele ri. — Eu não vou me apaixonar por você. Dean é muito seguro ao dizer isso. Eu me remexo no sofá, desconfortável. — Eu também não vou me apaixonar por você. Ele assente. — Eu ficaria esperta se fosse você, posso ser muito encantador. Eu apenas me limito a revirar os olhos. Tem um nó desconfortável se formando no meu estômago com essa conversa. — Eu quero acrescentar uma coisa aqui. — O que é? — Eu acho que ninguém deveria saber sobre isso. Nem mesmo os nossos amigos. Respiro aliviada. — Eu concordo. Fica apenas entre nós. — Certo. Eu levanto o meu mindinho para ele, como fiz ontem. E como ontem, ele revira os olhos antes de aceitá-lo. Essa é a nossa segunda promessa de mindinho. Uau, a coisa está ficando séria. — Acho que a gente precisa de mais que uma promessa de mindinho. — O que você quer dizer? — pergunto desconfiada. — Me conte um segredo — estreito os meus olhos — ou alguma coisa constrangedora. Algo que você não quer que outras pessoas saibam. Então nós vamos saber que podemos confiar um no outro. Eu vou te contar algo também, é claro. — Não sei não... — Vamos, Gabi. Para isso dar certo, temos que ter algum nível de confiança um no outro. Eu não estou pedindo por um segredo profundo. Ele não costuma me chamar de Gabi com muita frequência, é sempre Gabriella. Isso me pega mais do que o seu discurso sobre confiança.   — Tá legal. Uma coisa constrangedora e que ninguém saiba. — Isso. — Tudo bem... deixa eu pensar... eu tenho medo de escuro. Tenho mesmo. Quando eu era pequena, eu estava brincando no sítio da minha vó e acabei me afastando muito da casa, eu entrei numa pequena cabana onde guardavam ferramentais velhas e a porta emperrou. A vovó tinha ido até a cidade naquela tarde para vender compotas e um temporal acabou a deixando presa por lá. Os funcionários da casa nem lembraram da garotinha que havia chegado de visita na noite anterior. Eu passei toda a madrugada presa naquele lugar escuro, ouvindo os relâmpagos e animais que eu não fazia ideia de quais eram. — Deve ter sido aterrorizante. — a voz dele é suave. — Quantos anos você tinha. — Acho que seis. Bom, é besteira, mas acho que nunca consegui superar isso. — Não é besteira. — De qualquer forma, eu só consigo dormir se houver alguma luz no ambiente. Eu costumo deixar a televisão ligada em algum desenho. Os da Disney são os meus favoritos para isso. Dean está sorrindo. — Isso não vale. Não é constrangedor. — Uma garota da minha idade com medo de escuro? Eu diria que é sim. — Não. Você tem uma razão para isso. Na verdade, é um pouco fofo. A gentileza de Dean me pega desprevenida, eu não vejo esse lado dele há algum tempo e é por isso que continuo falando. — Certo... eu vou te dá outra história... bom, você sabe... a puberdade nunca chega em tempo igual para todos — ele levanta a sobrancelha, curioso pelas minhas próximas palavras. — Ela demorou a aparecer para mim. O meu corpo não se desenvolveu por um longo tempo. Eu estava mesmo contando aquilo para ele? Dean fitou o meu corpo. — Bom, ela chegou em algum momento. Isso foi um elogio? É melhor nem ficar pensando. — Eu tinha essa festa para ir. O garoto por quem eu tinha uma paixonite desde muito nova iria estar lá. Ele nunca me deu bola, mas eu decidi que aquilo mudaria naquela noite. — Uma mulher decidida. — Eu não era uma mulher! Era uma garotinha. Por favor, lembre-se disso enquanto eu conto o restante da história. — Estou sentindo que vem algo muito bom por aí. — Bem, eu vi essa coisa em uma séria que eu assistia e resolvi tentar. — Essa coisa? — É... bem, eu enchi o meu sutiã de meias para que os meus p****s parecessem maiores. Se Dean estivesse bebendo alguma coisa, essa seria uma das clássicas cenas em que ele cospe o líquido na minha cara. Ele fica vermelho. Sendo justa, ele estava sendo educado o bastante para não rir na minha cara. — E não acaba por aí — eu continuo. Afinal, a minha dignidade já foi comprometida. — Por favor, me conte o resto. — Eu consegui o meu objetivo e chamei a atenção do garoto. Nós dois estávamos ficando e o meu corpo estava bem pressionado ao dele quando uma meia simplesmente saltou entre nós. Eu tentei fingir que nada tinha acontecido e seguir adiante, mas o garoto se abaixou, pegou a meia e disse “acho que você deixou isso cair”. Eu quis morrer. Dessa vez, Dean não se segurou. Ele gargalhou alto e a sua risada era tão contagiosa que eu acabei o seguindo, por mais humilhante que essa história fosse, eu precisava admitir, era hilária. Quando nosso riso acalmou, soltamos um “ai ai” ao mesmo tempo que nos fez voltar a rir. — Então, essa história é boa o bastante para você? — Com certeza. Acho que nada pode superar isso. — Não vem com essa. Pode me contar a sua coisa. — Eu já me dopei. Ele nem hesita e eu preciso forçar o meu cérebro a interpretar as suas palavras. — Você já se drog*ou? — Não foi isso o que eu disse. — O que você disse. — Eu já tomei comprimidos para me ajudar em um jogo. O treinador estava no meu pé e eu tinha faltado muitos treinos naquele mês, porque... bom, isso não importa. Ele ficava dizendo que o time dependia de mim. Eu não acho que o time inteiro possa depender de uma única pessoa, mas aquilo estava me deixando chateado, entende? Eu fiz besteira. Eu me senti uma farsa quando vencemos o jogo. Eu nunca fiz outra vez. Eu demoro o meu tempo para analisar o que ele disse e percebo que não estou, de modo nenhum, irritada ou decepcionada com Dean. É claro que foi uma escolha i****a, mas nós somos apenas adolescentes e eu tenho certeza de que ele aprendeu a sua lição. — Está tudo bem. — Foi errado. — Sim e você sabe disso. Está tudo bem. Você aprendeu com isso. — Aprendi. — Isso é bom. E, Dean? — O que? — Eu tenho certeza de que o time teria vencido de qualquer jeito. Ele sorri e eu sorrio de volta. Nossos olhares se prendem um no outro e de repente o pensamento de beijá-lo passa na minha cabeça. Eu quebro o contato visual, confusa comigo mesma. — Nós precisamos inventar uma história. Dean pigarreia. — Claro. Alguma ideia? — Pensei em dizer que você me consolou no dia em que Ben me traiu. — Isso aconteceu. — Sim, é por isso que é bom. Vamos usar o máximo de verdade possível. — Eu te consolei. E aí? — E aí você continuou me procurando para saber se eu estava bem. Nós começamos a nos aproximar e um dia você me beijou. — Eu beijei... quando, hum, como? — Eu não pensei tão longe... nós podemos dizer que você veio me trazer em casa algum dia... — Eu peguei o carro da minha mãe emprestado. Porque você não gosta de andar de moto. Eu balanço a cabeça. — Sim. E quando nós chegamos na minha casa, você desligou o motor. — Porque eu não estava com pressa para me despedir de você. — Eu estava tímida... nós dois flertamos a semana inteira e eu sentia que alguma coisa estava prestes a rolar. — Você ficava mexendo no cabelo, como faz quando está nervosa. E eu levantei a minha mão até a sua, para pará-la. Quando ele reparou nessa coisa que eu faço com o cabelo? Está ficando mais quente aqui? — Eu ri, nervosa e animada. — Eu disse que o seu sorriso era bonito e me inclinei para frente. Engulo em seco. O meu estômago faz uma coisa engraçada, como uma cambalhota.  Nossos olhos estão presos de novo. — Eu me inclinei também. — Nossos lábios se colaram. E o beijo começou lento, mas logo ganhou força porque nós estávamos querendo isso a semana inteira. Eu não consigo mais continuar esse jogo. A minha garganta está seca. O meu coração batendo mais rápido. O pensamento de beijá-lo, de recriar a cena que acabamos de inventar, vem e fica na minha cabeça. Dessa vez, é ele quem desvia o olhar. Eu pisco algumas vezes, para quebrar seja lá qual foi o encanto em que entrei. — Parece bom. — a voz dele é rouca. — Acho que podemos parar por aqui. — É, hum... ficou bom. — Uhum... bom, acho que eu preciso ir agora. — Ah! Tá legal! Acho que sim. — Eu posso... me deixe escrever algo na lista? — Tá... tudo bem; Dean rabisca alguma coisa na folha, mas quando vou pegar para ler, ele balança a cabeça e coloca o caderno em cima do sofá, virada para baixo. — A gente se vê amanhã. — Até lá. Eu me levanto para acompanhá-lo até a porta e nós temos uma despedida estranha. Fico observando enquanto ele monta na moto e desaparece. É um pouco sexy vê-lo pilotando, eu tenho que admitir. Quando Dean some de vista, eu corro até o caderno.     Regras para o namoro falso: 1 – Em 45 dias a gente termina tudo 2 – É permitido apenas beijos técnicos (sem língua e apenas em situações de extrema necessidade para convencer alguém) 3 – Nada de mão boba!! 4 – Durante os 45 dias, é proibido ficar com outras pessoas 5 – Não é permitido se apaixonar. 6 – Gabi não pode olhar para Dean do jeito como olhou hoje (isso o perturba) 
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD