A tentativa de saltar

1225 Words
Lia e Sofia permaneceram por alguns segundos no corredor do prédio de comunicação, tentando organizar um plano. O coração de Lia parecia querer sair do peito. Cada batida lembrava o tempo que corria implacavelmente para as 17h42, o momento marcado pelo bilhete que ela ainda segurava com força. — Precisamos encontrá-lo antes que seja tarde — disse Lia, respirando fundo. — Mas não sei como abordá-lo. — Você não pode simplesmente entrar e dizer: “Ei, um bilhete previu que você vai cair das escadas” — respondeu Sofia, tentando trazer um pouco de racionalidade à situação. — Ele vai pensar que enlouquecemos. — Eu sei — disse Lia. — Mas… precisamos fazer alguma coisa. As escadas estavam logo à frente, iluminadas pela luz natural que entrava pelas grandes janelas do prédio. Cada degrau parecia brilhar como se estivesse chamando atenção para algo terrível prestes a acontecer. Lia sentiu um frio intenso percorrer sua espinha. Cada segundo que passava, cada passo que eles davam, aumentava a tensão. — Vamos subindo devagar — sugeriu Sofia. — Precisamos observar antes de agir. Elas começaram a subir pelo corredor estreito do segundo andar, mantendo distância de estudantes e professores que circulavam pelos laboratórios e salas de aula. Cada passo ecoava levemente contra o piso de madeira polida, criando uma sensação estranha de solidão apesar do prédio estar cheio. — Ele deve estar no laboratório de mídia — disse Lia baixinho. — Talvez possamos falar com ele antes que chegue às escadas. O coração de Sofia acelerou. Ela sabia que cada minuto era precioso. Cada segundo que Lia hesitava poderia reduzir as chances de evitar o que o bilhete havia previsto. Quando se aproximaram do laboratório, ouviram o som de teclas sendo pressionadas. A porta estava parcialmente aberta. Daniel Rocha estava sentado diante de um computador, imerso em alguma atividade que parecia complexa e importante. Lia respirou fundo. Este seria o momento de tentar falar com ele. Ela deu um passo à frente, mas parou abruptamente. — E se ele não acreditar em nós? — murmurou Sofia. — E se ele achar que estamos loucas? — Não temos outra opção — respondeu Lia, quase em sussurro. — Se o bilhete estiver certo, ele vai morrer. O silêncio parecia quase palpável. Cada respiração ecoava entre elas e o som distante das teclas digitadas por Daniel. Lia aproximou-se mais da porta. Seu estômago estava apertado. — Daniel — chamou ela, com voz trêmula. Ele ergueu a cabeça, surpreso. Seus olhos encontraram os dela. Um olhar calmo, quase frio, atravessou-a. — Posso ajudar? — perguntou ele, a voz neutra, sem sinal de preocupação. — Eu… precisamos falar com você — disse Lia, segurando a mochila como se fosse uma barreira entre ela e o perigo invisível. — É importante. Daniel franziu levemente a testa. — Sobre o quê? — É sério — disse Sofia, aproximando-se. — Aconteceu algo estranho hoje. Algo que não podemos explicar. Mas você está em perigo. Daniel arqueou uma sobrancelha, claramente cético, mas sua atenção estava agora totalmente voltada para elas. — Perigo? — repetiu. — Que tipo de perigo? Lia respirou fundo e, com mãos trêmulas, puxou o quarto bilhete da mochila. Ela abriu-o diante de seus olhos. Hoje, às 17h42, uma vida será perdida. O homem que riu no autocarro cairá das escadas do prédio de comunicação. Daniel olhou para o papel. Seus olhos estreitaram-se ligeiramente, mas a expressão permaneceu estranhamente calma. — Interessante — disse ele. — Parece que alguém gosta de brincar comigo. — Não é brincadeira! — exclamou Lia. — Está tudo aqui, escrito. O bilhete… ele é real! A primeira previsão aconteceu exatamente como estava escrito! Daniel inclinou-se para trás na cadeira, cruzando os braços. — Eu não sei se entendo… — disse lentamente. — Você está dizendo que alguém previu que eu ia cair das escadas? — Exatamente! — insistiu Lia. — E você precisa sair daqui antes das cinco e quarenta e duas! Sofia interveio. — Daniel, isso é sério! Nós podemos evitar! Mas precisamos que você confie em nós! Daniel olhou para elas por alguns segundos. Havia um brilho de curiosidade em seus olhos, mas também um leve sorriso que Lia não conseguiu decifrar. — Então… vocês querem que eu acredite em algo que parece impossível — disse ele finalmente. — E que eu siga instruções de um bilhete misterioso. — Por favor — implorou Lia. — Não temos muito tempo! Daniel respirou fundo. Um momento de silêncio se seguiu. O som das teclas digitadas anteriormente parecia distante, apagado pelo peso da urgência que Lia carregava. — Certo — disse ele finalmente. — Vou sair dessas escadas. Mas quero entender melhor. Como sabem tanto sobre mim? — Não sabemos — respondeu Lia rapidamente. — Só sabemos que se você não sair, algo vai acontecer. E não podemos deixar que aconteça. — Entendo — disse Daniel, levantando-se. — Então, pelo menos por enquanto, vamos evitar as escadas. Eles caminharam juntos pelo corredor, cada passo carregado de tensão. O coração de Lia batia tão rápido que ela sentia cada pulso em suas têmporas. Cada minuto agora era decisivo. — Mas… como posso confiar nisso? — perguntou Daniel. — Eu não sei quem escreveu esses bilhetes, nem por quê. — Isso não importa agora — disse Lia, tentando soar firme. — Importa apenas que você está em perigo. — Tudo bem — respondeu Daniel, respirando fundo. — Vou seguir vocês. Mas depois, quero respostas. O trio desceu pelo corredor, tomando cuidado para não chamar atenção. Lia sabia que cada degrau, cada movimento, poderia ser crucial. Enquanto caminhavam, Lia sentiu novamente o peso da mochila. Mais uma vez, parecia que o papel dentro dela estava pulsando, como se tivesse vida própria. E, de fato, algo parecia estar se formando. Outro bilhete, desta vez com palavras muito mais curtas, mas que pareciam carregadas de ameaça. Você não percebeu, mas há alguém observando cada passo seu. Lia engoliu em seco. A mensagem era clara: havia mais do que apenas Daniel em perigo. Talvez alguém estivesse controlando tudo. — Quem seria? — perguntou Sofia, a voz baixa. — Quem está escrevendo esses bilhetes? Lia não respondeu. Nem ela sabia. Mas sabia de uma coisa: as próximas horas seriam decisivas. Eles chegaram a um laboratório vazio no segundo andar, longe das escadas. Daniel olhou para Lia e Sofia. — Então, estamos seguros aqui por enquanto — disse ele. — Mas se isso for real, temos que descobrir rapidamente quem está por trás disso. Lia assentiu. — Sim. Mas primeiro precisamos sobreviver às próximas horas. O relógio no laboratório marcava 12h57. Cada segundo agora parecia acelerar, lembrando-as de que o tempo estava contra eles. Enquanto Lia guardava cuidadosamente o bilhete dentro da mochila, uma pergunta começou a ecoar em sua mente: E se Daniel não fosse a única pessoa em perigo? E se a morte mencionada no terceiro bilhete já estivesse se aproximando de alguém muito próximo dela? Ela olhou para Sofia, que parecia compartilhar o mesmo pensamento. — Precisamos pensar — disse Lia. — Não apenas em Daniel, mas em todos que estão ao nosso redor. A verdade era assustadora. Cada rosto que passava pelo campus, cada colega que subia ou descia as escadas, poderia ser a próxima vítima. E Lia sabia, com uma certeza gelada no coração, que os bilhetes ainda não haviam terminado de aparecer.
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