O vento que atravessava o campus começava a ficar mais frio.
Lia e Sofia ainda estavam paradas no pátio, olhando na direção em que o homem do autocarro havia desaparecido dentro do prédio de aulas.
Por alguns segundos nenhuma delas disse nada.
A mente de Lia estava tentando organizar tudo o que tinha acontecido desde a noite anterior.
O acidente.
O primeiro bilhete.
O café derramado.
O segundo aviso.
O terceiro bilhete dizendo que a morte estava perto.
Tudo parecia surreal.
Como se ela tivesse entrado em uma história que não compreendia completamente.
— Lia — disse Sofia finalmente. — Você está muito pálida.
— Eu estou bem.
— Não parece.
Lia passou a mão pelo rosto.
Seu coração ainda batia mais rápido do que o normal.
Ela não conseguia parar de pensar na mensagem do terceiro bilhete.
Está mais perto do que imagina.
Essas palavras se repetiam dentro da sua mente.
— Vamos pensar — disse Sofia. — Talvez seja alguém da universidade.
— Talvez.
— Ou talvez seja alguém que você conhece.
Lia engoliu em seco.
A ideia fez um frio percorrer sua espinha.
Ela pensou nos pais.
Nos colegas.
Nos professores.
Em Sofia.
— Não… — murmurou.
— O quê?
— Eu não quero pensar nisso.
Sofia colocou uma mão no ombro dela.
— Ainda não sabemos de nada.
— Eu sei.
Mas o medo já tinha se instalado.
Lia segurou a mochila com mais força.
Por um instante teve a sensação estranha de que algo dentro dela estava diferente.
Como se…
Como se a mochila estivesse um pouco mais pesada.
Seu coração deu um salto.
— Sofia…
— O que foi?
Lia abriu o zíper devagar.
Seus dedos tremiam.
Ela colocou a mão dentro da mochila.
E imediatamente sentiu algo novo.
Outro pedaço de papel.
Seu estômago gelou.
— Não… — murmurou.
Sofia arregalou os olhos.
— Já apareceu outro?
Lia puxou o papel lentamente.
Era igual aos outros.
Dobrado.
Simples.
Mas carregado de algo que parecia muito maior do que um simples pedaço de papel.
— Abra — disse Sofia, quase sem respirar.
Lia desdobrou o bilhete.
As palavras estavam ali.
Na mesma caligrafia.
A mesma que parecia ser dela.
Ela começou a ler.
Agora você precisa agir.
Lia sentiu um arrepio percorrer seus braços.
Ela continuou.
Hoje, às 17h42, uma vida será perdida.
Sofia aproximou-se mais.
— Que horas são agora? — perguntou rapidamente.
Lia pegou o celular.
12h08.
Seu coração disparou.
— Temos algumas horas.
— Continue lendo — disse Sofia.
Lia respirou fundo e continuou.
O homem que riu no autocarro cairá das escadas do prédio de comunicação.
As palavras pareceram ecoar dentro da cabeça de Lia.
Ela levantou os olhos lentamente.
— O homem do autocarro…
Sofia ficou imóvel.
— Aquele que você derramou café?
— Sim.
O estômago de Sofia se apertou.
— O bilhete diz como ele vai morrer?
Lia assentiu devagar.
— Diz que ele vai cair das escadas.
Sofia passou a mão pelos cabelos.
— Isso… isso é muito específico.
— Eu sei.
— E o horário também.
Lia olhou novamente para o papel.
Hoje, às 17h42.
Cada detalhe parecia assustadoramente preciso.
— O prédio de comunicação… — murmurou Sofia.
— É aquele onde ele entrou.
As duas olharam automaticamente para o prédio à frente.
Um edifício de três andares, com grandes janelas e escadas internas visíveis através do vidro da entrada.
De repente, aquele lugar parecia muito mais ameaçador.
— Se o bilhete estiver certo… — disse Sofia.
— Então ele vai cair dali.
O silêncio caiu entre elas novamente.
Mas dessa vez o silêncio era diferente.
Pesado.
Cheio de urgência.
Porque agora havia um horário.
17h42.
E ainda era meio-dia.
— Temos tempo — disse Sofia.
— Não muito.
— Mas o suficiente para impedir.
Lia segurava o bilhete com força.
As palavras pareciam quase vivas em suas mãos.
Agora você precisa agir.
Ela respirou fundo.
— Nós precisamos encontrá-lo.
— O homem do autocarro?
— Sim.
— E fazer o quê?
Lia pensou por alguns segundos.
— Não sei ainda.
— Você vai dizer a ele que um bilhete mágico prevê que ele vai cair da escada?
Lia suspirou.
— Quando você coloca assim… parece loucura.
— Porque é.
Mesmo assim, Sofia sabia que não podia ignorar aquilo.
A previsão anterior tinha acontecido exatamente como escrito.
Se esta também fosse verdadeira…
Então alguém realmente estava em perigo.
— Primeiro precisamos descobrir quem ele é — disse Sofia.
— Concordo.
— Depois pensamos no resto.
Lia dobrou o bilhete com cuidado e guardou novamente na mochila.
Seu coração ainda batia rápido.
Mas agora havia algo novo dentro dela.
Determinação.
Se existia uma chance de impedir aquela morte…
Ela precisava tentar.
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As duas entraram no prédio de comunicação alguns minutos depois.
O interior estava cheio de estudantes.
Alguns conversavam perto dos murais.
Outros subiam e desciam as escadas carregando livros e mochilas.
Lia olhou imediatamente para as escadas.
Altas.
De concreto.
Com corrimãos metálicos.
Ela imaginou alguém caindo dali.
O pensamento fez seu estômago se apertar.
— Vamos perguntar por ele — disse Sofia.
— Mas não sabemos o nome dele.
— Podemos descrevê-lo.
Elas caminharam até a recepção.
Uma funcionária de meia-idade levantou os olhos.
— Posso ajudar?
Sofia respondeu primeiro.
— Estamos procurando um homem que entrou aqui há pouco tempo.
— Como ele é?
Lia descreveu rapidamente.
Camisa clara.
Cabelo escuro.
Aproximadamente vinte e poucos anos.
A mulher pensou por um momento.
— Talvez seja o Daniel.
Lia sentiu algo estranho ao ouvir o nome.
— Daniel?
— Daniel Rocha — disse a funcionária. — Ele trabalha no laboratório de mídia no segundo andar.
Sofia e Lia trocaram um olhar.
— Obrigada — disse Sofia.
Elas se afastaram do balcão.
— Então temos um nome — disse Sofia.
— Daniel.
Lia olhou novamente para as escadas.
O segundo andar.
O lugar exato mencionado no bilhete.
— Precisamos encontrá-lo antes das cinco e quarenta e dois — disse ela.
— E fazer com que ele não esteja nessas escadas naquele momento.
Lia assentiu.
O plano parecia simples.
Mas algo dentro dela dizia que não seria tão fácil.
Porque os bilhetes até agora…
Nunca tinham errado.
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Enquanto isso, no segundo andar do prédio, Daniel Rocha estava sentado em frente a um computador.
Ele parecia tranquilo.
Concentrado.
Completamente alheio ao fato de que alguém estava tentando impedir sua morte.
Ele terminou de digitar algo e fechou o laptop.
Então olhou para o relógio.
12h31.
Um leve sorriso apareceu em seu rosto.
— Interessante… — murmurou.
Ele levantou-se.
Caminhou até a janela.
E observou o campus lá embaixo.
Entre as pessoas que caminhavam no pátio…
Ele reconheceu facilmente duas figuras.
Lia.
E Sofia.
— Então você decidiu tentar mudar as coisas… — disse ele baixinho.
O sorriso em seu rosto desapareceu lentamente.
— Vamos ver se consegue.
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Lá embaixo, Lia ainda olhava para o prédio.
Seu coração estava cheio de perguntas.
Mas uma coisa era certa agora.
O tempo estava correndo.
E se ela não conseguisse impedir o que estava previsto…
Às 17h42…
Daniel Rocha cairia da escada.
E morreria.