Horário

1186 Words
O vento que atravessava o campus começava a ficar mais frio. Lia e Sofia ainda estavam paradas no pátio, olhando na direção em que o homem do autocarro havia desaparecido dentro do prédio de aulas. Por alguns segundos nenhuma delas disse nada. A mente de Lia estava tentando organizar tudo o que tinha acontecido desde a noite anterior. O acidente. O primeiro bilhete. O café derramado. O segundo aviso. O terceiro bilhete dizendo que a morte estava perto. Tudo parecia surreal. Como se ela tivesse entrado em uma história que não compreendia completamente. — Lia — disse Sofia finalmente. — Você está muito pálida. — Eu estou bem. — Não parece. Lia passou a mão pelo rosto. Seu coração ainda batia mais rápido do que o normal. Ela não conseguia parar de pensar na mensagem do terceiro bilhete. Está mais perto do que imagina. Essas palavras se repetiam dentro da sua mente. — Vamos pensar — disse Sofia. — Talvez seja alguém da universidade. — Talvez. — Ou talvez seja alguém que você conhece. Lia engoliu em seco. A ideia fez um frio percorrer sua espinha. Ela pensou nos pais. Nos colegas. Nos professores. Em Sofia. — Não… — murmurou. — O quê? — Eu não quero pensar nisso. Sofia colocou uma mão no ombro dela. — Ainda não sabemos de nada. — Eu sei. Mas o medo já tinha se instalado. Lia segurou a mochila com mais força. Por um instante teve a sensação estranha de que algo dentro dela estava diferente. Como se… Como se a mochila estivesse um pouco mais pesada. Seu coração deu um salto. — Sofia… — O que foi? Lia abriu o zíper devagar. Seus dedos tremiam. Ela colocou a mão dentro da mochila. E imediatamente sentiu algo novo. Outro pedaço de papel. Seu estômago gelou. — Não… — murmurou. Sofia arregalou os olhos. — Já apareceu outro? Lia puxou o papel lentamente. Era igual aos outros. Dobrado. Simples. Mas carregado de algo que parecia muito maior do que um simples pedaço de papel. — Abra — disse Sofia, quase sem respirar. Lia desdobrou o bilhete. As palavras estavam ali. Na mesma caligrafia. A mesma que parecia ser dela. Ela começou a ler. Agora você precisa agir. Lia sentiu um arrepio percorrer seus braços. Ela continuou. Hoje, às 17h42, uma vida será perdida. Sofia aproximou-se mais. — Que horas são agora? — perguntou rapidamente. Lia pegou o celular. 12h08. Seu coração disparou. — Temos algumas horas. — Continue lendo — disse Sofia. Lia respirou fundo e continuou. O homem que riu no autocarro cairá das escadas do prédio de comunicação. As palavras pareceram ecoar dentro da cabeça de Lia. Ela levantou os olhos lentamente. — O homem do autocarro… Sofia ficou imóvel. — Aquele que você derramou café? — Sim. O estômago de Sofia se apertou. — O bilhete diz como ele vai morrer? Lia assentiu devagar. — Diz que ele vai cair das escadas. Sofia passou a mão pelos cabelos. — Isso… isso é muito específico. — Eu sei. — E o horário também. Lia olhou novamente para o papel. Hoje, às 17h42. Cada detalhe parecia assustadoramente preciso. — O prédio de comunicação… — murmurou Sofia. — É aquele onde ele entrou. As duas olharam automaticamente para o prédio à frente. Um edifício de três andares, com grandes janelas e escadas internas visíveis através do vidro da entrada. De repente, aquele lugar parecia muito mais ameaçador. — Se o bilhete estiver certo… — disse Sofia. — Então ele vai cair dali. O silêncio caiu entre elas novamente. Mas dessa vez o silêncio era diferente. Pesado. Cheio de urgência. Porque agora havia um horário. 17h42. E ainda era meio-dia. — Temos tempo — disse Sofia. — Não muito. — Mas o suficiente para impedir. Lia segurava o bilhete com força. As palavras pareciam quase vivas em suas mãos. Agora você precisa agir. Ela respirou fundo. — Nós precisamos encontrá-lo. — O homem do autocarro? — Sim. — E fazer o quê? Lia pensou por alguns segundos. — Não sei ainda. — Você vai dizer a ele que um bilhete mágico prevê que ele vai cair da escada? Lia suspirou. — Quando você coloca assim… parece loucura. — Porque é. Mesmo assim, Sofia sabia que não podia ignorar aquilo. A previsão anterior tinha acontecido exatamente como escrito. Se esta também fosse verdadeira… Então alguém realmente estava em perigo. — Primeiro precisamos descobrir quem ele é — disse Sofia. — Concordo. — Depois pensamos no resto. Lia dobrou o bilhete com cuidado e guardou novamente na mochila. Seu coração ainda batia rápido. Mas agora havia algo novo dentro dela. Determinação. Se existia uma chance de impedir aquela morte… Ela precisava tentar. --- As duas entraram no prédio de comunicação alguns minutos depois. O interior estava cheio de estudantes. Alguns conversavam perto dos murais. Outros subiam e desciam as escadas carregando livros e mochilas. Lia olhou imediatamente para as escadas. Altas. De concreto. Com corrimãos metálicos. Ela imaginou alguém caindo dali. O pensamento fez seu estômago se apertar. — Vamos perguntar por ele — disse Sofia. — Mas não sabemos o nome dele. — Podemos descrevê-lo. Elas caminharam até a recepção. Uma funcionária de meia-idade levantou os olhos. — Posso ajudar? Sofia respondeu primeiro. — Estamos procurando um homem que entrou aqui há pouco tempo. — Como ele é? Lia descreveu rapidamente. Camisa clara. Cabelo escuro. Aproximadamente vinte e poucos anos. A mulher pensou por um momento. — Talvez seja o Daniel. Lia sentiu algo estranho ao ouvir o nome. — Daniel? — Daniel Rocha — disse a funcionária. — Ele trabalha no laboratório de mídia no segundo andar. Sofia e Lia trocaram um olhar. — Obrigada — disse Sofia. Elas se afastaram do balcão. — Então temos um nome — disse Sofia. — Daniel. Lia olhou novamente para as escadas. O segundo andar. O lugar exato mencionado no bilhete. — Precisamos encontrá-lo antes das cinco e quarenta e dois — disse ela. — E fazer com que ele não esteja nessas escadas naquele momento. Lia assentiu. O plano parecia simples. Mas algo dentro dela dizia que não seria tão fácil. Porque os bilhetes até agora… Nunca tinham errado. --- Enquanto isso, no segundo andar do prédio, Daniel Rocha estava sentado em frente a um computador. Ele parecia tranquilo. Concentrado. Completamente alheio ao fato de que alguém estava tentando impedir sua morte. Ele terminou de digitar algo e fechou o laptop. Então olhou para o relógio. 12h31. Um leve sorriso apareceu em seu rosto. — Interessante… — murmurou. Ele levantou-se. Caminhou até a janela. E observou o campus lá embaixo. Entre as pessoas que caminhavam no pátio… Ele reconheceu facilmente duas figuras. Lia. E Sofia. — Então você decidiu tentar mudar as coisas… — disse ele baixinho. O sorriso em seu rosto desapareceu lentamente. — Vamos ver se consegue. --- Lá embaixo, Lia ainda olhava para o prédio. Seu coração estava cheio de perguntas. Mas uma coisa era certa agora. O tempo estava correndo. E se ela não conseguisse impedir o que estava previsto… Às 17h42… Daniel Rocha cairia da escada. E morreria.
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