20h17.
O relógio do café avançou um minuto.
O som quase imperceptível do mecanismo parecia muito mais alto do que deveria.
Lia não conseguia parar de olhar para ele.
Cada minuto agora tinha um peso diferente.
Cada segundo aproximava o momento que estava escrito no bilhete.
Às 23h17, Lia morrerá.
Daniel continuava sentado à sua frente, inquieto, passando os dedos pelo cabelo de tempos em tempos.
Sofia observava a rua através da janela.
Rafael ainda tinha o caderno aberto diante de si, rabiscando ideias, linhas e possíveis padrões.
Mas o ambiente havia mudado.
A conversa já não fluía.
Agora havia apenas uma coisa ocupando a mente de todos.
A contagem.
Daniel foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Certo… vamos pensar com calma.
Sofia virou-se para ele.
— Estou ouvindo.
Daniel apontou para Lia.
— Se o futuro para nas memórias do Rafael às 23h17, isso significa que esse momento é… importante.
— Ou fatal — disse Sofia.
Daniel ignorou o comentário.
— Mas o bilhete não diz como ela morre.
Rafael assentiu.
— O que é estranho.
Lia olhou para ele.
— Por quê?
— Porque todos os bilhetes anteriores tinham instruções.
Ele pegou um dos papéis sobre a mesa.
— Lembra?
Ele releu um deles.
Ele cairá das escadas às 17h52.
Se quiser salvá-lo, esteja lá antes.
Daniel suspirou.
— Eu ainda odeio esse bilhete.
Sofia deu um pequeno sorriso.
— Mas funcionou.
Rafael voltou a olhar para o novo.
Às 23h17, Lia morrerá.
Ele balançou a cabeça lentamente.
— Este não tem instruções.
Lia sentiu um frio na espinha.
— Talvez porque não haja nada que possamos fazer.
Daniel respondeu imediatamente.
— Não diga isso.
Sofia cruzou os braços.
— Ou talvez porque a instrução ainda não apareceu.
O silêncio voltou.
E então…
A mochila de Lia fez um som.
Muito leve.
Mas inconfundível.
O coração dela acelerou.
Daniel também ouviu.
— Foi isso de novo?
Lia abriu lentamente a mochila.
E lá estava.
Outro bilhete.
Sofia aproximou-se.
— Leia.
Lia abriu o papel.
As palavras eram curtas.
Observe.
Apenas isso.
Daniel franziu a testa.
— Observe o quê?
Sofia olhou ao redor do café.
— Talvez algo vá acontecer.
Rafael fechou o caderno.
— Ou talvez já esteja acontecendo.
Lia levantou os olhos.
E pela primeira vez naquela noite percebeu algo estranho.
O café estava mais silencioso.
Muito mais silencioso.
Alguns clientes ainda estavam ali.
Mas todos pareciam distraídos com seus próprios celulares.
O garçom atrás do balcão tentava ligar algo na máquina de café.
Sem sucesso.
— Estranho… — murmurou Sofia.
Daniel perguntou:
— O quê?
Ela apontou para o balcão.
— A máquina de café.
Rafael também percebeu.
— Não está funcionando.
Daniel pegou o celular.
— Meu sinal também caiu.
Lia olhou para a rua.
Algo ali parecia… diferente.
Os postes ainda estavam acesos.
Os carros passavam.
Mas havia uma sensação no ar.
Algo prestes a acontecer.
Então veio o segundo bilhete.
Sem que ninguém percebesse quando.
Lia apenas abriu novamente a mochila.
E ele estava lá.
Ela abriu.
Quando as luzes apagarem,
corra.
Daniel piscou.
— Corra para onde?
Sofia perguntou:
— E que luzes?
Rafael começou a falar.
— Talvez—
As luzes do café se apagaram.
Tudo ficou escuro.
Alguém gritou perto da porta.
Copos caíram no chão.
A máquina de café desligou com um estalo seco.
E do lado de fora…
A rua inteira mergulhou na escuridão.
Um apagão.
Completo.
Daniel imediatamente ligou a lanterna do celular.
— Ok… isso é oficial. Eu odeio esses bilhetes.
Sofia também ligou o celular.
— Acho que este foi bem claro.
Rafael levantou-se.
— Precisamos sair daqui.
Lia ainda segurava o papel.
Quando as luzes apagarem,
corra.
Ela levantou-se.
— Vamos.
Eles atravessaram o café escuro, desviando de cadeiras e pessoas confusas.
Quando chegaram à rua, perceberam que o apagão era maior do que imaginavam.
Nenhum poste aceso.
Nenhuma vitrine iluminada.
A cidade inteira parecia ter parado.
Carros buzinavam no cruzamento.
Alguém gritava ao longe.
Daniel olhou ao redor.
— Isso não é só um quarteirão.
Rafael assentiu.
— Parece metade da cidade.
Sofia virou-se para Lia.
— O bilhete disse para correr.
— Eu sei — respondeu Lia.
Mas algo estranho aconteceu naquele momento.
Uma sensação.
Como um choque leve.
E então uma imagem surgiu na mente dela.
Rápida.
Confusa.
Mas extremamente vívida.
Ela viu uma rua molhada.
Chuva.
Luzes vermelhas girando.
Uma ambulância.
E pessoas correndo.
Lia recuou um passo.
Daniel segurou seu braço.
— Ei!
— Lia?
Ela respirava rápido.
— Eu… vi algo.
Rafael ficou imediatamente atento.
— O quê?
Lia tentou organizar as palavras.
— Uma rua.
Sofia perguntou:
— Que rua?
— Não sei…
Ela fechou os olhos por um instante.
A imagem voltou.
Mais forte.
Mais clara.
Ela viu uma ponte.
Um prédio antigo.
Uma placa azul.
E então viu algo pior.
Ela mesma.
No chão.
Imóvel.
Daniel percebeu a mudança no rosto dela.
— Lia…
Ela abriu os olhos.
A voz saiu quase num sussurro.
— Eu acho que vi onde eu morro.
O silêncio caiu entre eles.
O vento frio atravessava a rua escura.
Rafael perguntou calmamente:
— Onde?
Lia olhou para o horizonte da cidade.
E respondeu:
— Perto da ponte velha.
Daniel franziu a testa.
— A avenida do rio?
Lia assentiu lentamente.
Rafael olhou para o relógio do celular.
20h23.
Ele respirou fundo.
— Então temos quase três horas.
Sofia perguntou:
— Três horas para quê?
Rafael respondeu:
— Para descobrir o que acontece lá.
Daniel completou:
— E impedir.
Lia olhou novamente para os bilhetes em sua mão.
Observe.
Quando as luzes apagarem, corra.
Ela levantou os olhos.
— Acho que os bilhetes estão nos levando para lá.
Sofia perguntou:
— Para a ponte?
Lia respondeu:
— Para o lugar onde tudo termina.
O relógio do celular mudou novamente.
20h24.
E a contagem continuava.
***
20h24
A cidade continuava mergulhada na escuridão.
Algumas pessoas caminhavam pelas calçadas com as lanternas dos celulares acesas. Outras estavam paradas no meio da rua, tentando entender o que havia acontecido.
O som de buzinas ecoava ao longe.
Carros parados em cruzamentos.
Motores desligando.
Vozes confusas.
Mas para Lia, tudo parecia distante.
Ela ainda estava presa à imagem que tinha visto.
A rua molhada.
A ponte.
As luzes vermelhas da ambulância.
E o próprio corpo no chão.
Daniel percebeu que ela ainda estava imóvel.
— Lia?
Ela piscou algumas vezes, voltando ao presente.
— Sim.
— Você tem certeza do que viu?
Ela hesitou por um instante.
— Não foi como imaginar algo… foi diferente.
Rafael se aproximou um pouco mais.
— Diferente como?
— Como se fosse uma lembrança.
Sofia franziu a testa.
— Mas você nunca esteve lá.
— Eu sei.
Rafael falou calmamente:
— Talvez outra versão sua tenha estado.
Daniel suspirou.
— Ainda estou tentando aceitar os bilhetes que aparecem do nada… agora temos versões alternativas também?
Rafael deu um pequeno sorriso cansado.
— Eu também não gosto da ideia.
Sofia olhou para Lia.
— Você lembra de mais alguma coisa?
Lia tentou forçar a memória.
Por alguns segundos, nada veio.
Mas então um detalhe apareceu.
Pequeno.
Quase insignificante.
— Eu lembro de um barulho.
Daniel inclinou a cabeça.
— Que tipo de barulho?
— Metal.
— Metal?
— Como algo batendo… ou deslizando.
Rafael ficou pensativo.
— Um carro?
— Talvez.
Sofia olhou para a rua.
— Se o apagão foi grande assim, o trânsito lá deve estar um caos.
Daniel concordou.
— O que significa acidentes.
Lia sentiu um aperto no peito.
A imagem voltou por um segundo.
Chuva.
Sirene.
Ambulância.
Ela respirou fundo.
— Acho que precisamos ir até lá.
Sofia respondeu imediatamente:
— Concordo.
Daniel também.
— Se é lá que algo vai acontecer… não faz sentido ficarmos aqui.
Rafael olhou novamente para o relógio.
20h26
— Ainda temos tempo — disse ele.
Lia olhou para os bilhetes novamente.
O papel parecia estranho em sua mão.
Como se carregasse um peso invisível.
Ela o dobrou cuidadosamente.
E colocou na mochila.
Então algo aconteceu.
Um novo som.
Muito leve.
Quase imperceptível.
Mas Lia já conhecia aquele som.
Seu coração disparou.
Ela abriu a mochila lentamente.
Daniel percebeu.
— Outro?
Ela assentiu.
Havia um novo papel dentro.
Mais um bilhete.
Sofia se aproximou.
— Leia.
Lia abriu o papel.
As palavras estavam escritas da mesma forma que todas as outras.
Caligrafia firme.
Precisa.
Como se quem escrevesse soubesse exatamente o que estava fazendo.
Ela leu em voz baixa.
Não confie em quem está perto.
O silêncio caiu imediatamente.
Daniel foi o primeiro a reagir.
— O quê?
Sofia pegou o bilhete da mão de Lia.
— Não confie em quem está perto.
Rafael franziu a testa.
— Isso não é nada bom.
Daniel cruzou os braços.
— Ok… isso ficou estranho.
Sofia olhou para cada um deles.
— Estamos literalmente quatro pessoas juntas.
Daniel respondeu:
— Exato.
Rafael parecia mais interessado no padrão do bilhete.
— Este é diferente.
Lia perguntou:
— Diferente como?
— Os anteriores falavam de acontecimentos.
Ele apontou para o papel.
— Este fala de pessoas.
Daniel respondeu com ironia:
— Ótimo.
— Isso significa que um de nós pode ser perigoso.
Sofia lançou-lhe um olhar.
— Não ajuda.
Lia sentiu o estômago apertar.
Ela olhou para os três.
Daniel.
Sofia.
Rafael.
Todos pareciam igualmente confusos.
— Talvez não seja sobre nós — disse ela.
Rafael perguntou:
— Então sobre quem?
Ela respondeu:
— Sobre alguém que ainda vamos encontrar.
Daniel olhou para o céu escuro.
— Espero que sim.
Sofia devolveu o bilhete para Lia.
— Seja como for… precisamos continuar.
Rafael apontou para a avenida.
— A ponte fica a uns quinze minutos daqui a pé.
Daniel perguntou:
— Com o trânsito parado talvez seja até mais rápido.
Lia respirou fundo.
Algo dentro dela dizia que estavam caminhando exatamente para onde os bilhetes queriam.
Como se tudo estivesse sendo guiado.
Passo a passo.
Ela começou a andar.
Os outros a seguiram.
A rua estava estranhamente silenciosa.
Sem luzes.
Sem vitrines iluminadas.
Sem postes acesos.
Apenas as lanternas dos celulares cortando a escuridão.
Enquanto caminhavam, Lia sentia algo estranho crescendo dentro dela.
Uma sensação familiar.
Como se já tivesse feito aquele caminho antes.
Ela olhou para a esquina à frente.
E de repente parou.
Daniel quase esbarrou nela.
— O que foi?
Lia apontou lentamente.
— Eu já vi isso.
Sofia perguntou:
— A esquina?
Lia assentiu.
— Sim.
Rafael perguntou:
— Na memória?
— Sim.
Ela respirou fundo.
— Estamos indo pelo mesmo caminho.
Daniel olhou para frente.
— Então isso significa…
Lia terminou a frase.
— Que estamos indo exatamente para onde eu morri.
O relógio do celular mudou novamente.
20h31
E a noite estava apenas começando.