Terceiro bilhete

1218 Words
O ar dentro da cafeteria parecia pesado. Lia e Sofia estavam em silêncio havia quase um minuto inteiro, olhando uma para a outra como se cada pensamento estivesse tentando encontrar um lugar para se organizar. O barulho das xícaras sendo colocadas no balcão e o murmúrio distante das conversas ao redor criavam uma atmosfera estranhamente normal. Normal demais para o que estava acontecendo. Sofia foi a primeira a quebrar o silêncio. — Vamos pensar com calma — disse ela, tentando manter a voz firme. — Talvez a mensagem seja vaga de propósito. Lia ainda segurava os dois bilhetes entre os dedos. O papel parecia mais pesado agora. — Não parece vaga para mim — respondeu ela em voz baixa. — Parece um aviso. — Mas um aviso de quê exatamente? — perguntou Sofia. — Diz apenas que alguém vai morrer. Lia olhou novamente para a frase. Amanhã alguém vai morrer. Ela sentiu um aperto no estômago. — Hoje — corrigiu. Sofia franziu a testa. — Como assim? — Quando eu li o bilhete pela primeira vez ainda era ontem à noite. Ela puxou o celular do bolso e mostrou a tela. — Agora já é outro dia. Sofia olhou o relógio. 11h12. Seu rosto perdeu um pouco da cor. — Então… se a previsão for literal… Lia terminou a frase que Sofia não conseguiu dizer. — A morte pode acontecer a qualquer momento. O silêncio voltou a se instalar entre elas. Sofia passou a mão pelos cabelos, claramente nervosa. — Isso é absurdo — disse ela. — Não podemos sair por aí tentando salvar alguém de algo que nem sabemos o que é. Lia sabia que ela estava certa. Mas algo dentro dela insistia que ignorar aquilo seria um erro. Um erro terrível. — E se alguém realmente morrer hoje? — perguntou Lia. Sofia não respondeu imediatamente. Ela olhou para o movimento da rua através da janela. Carros passavam. Pessoas caminhavam. A vida seguia normalmente. — Pessoas morrem todos os dias — disse ela por fim. — Infelizmente. — Eu sei. — Então talvez seja apenas… coincidência. Lia balançou a cabeça. — O primeiro bilhete não foi coincidência. Sofia abriu a boca para responder, mas parou. Porque sabia que Lia estava certa. Aquela previsão tinha sido exata demais. Cada detalhe. Cada momento. Cada reação. — Certo — disse Sofia finalmente. — Vamos considerar, só por um momento, que isso é real. Ela se inclinou sobre a mesa. — O que fazemos agora? Lia pensou por alguns segundos. — Observamos. — Observamos o quê? — Tudo. Sofia soltou um pequeno suspiro. — Isso não ajuda muito. Lia abriu a mochila novamente. Queria guardar os bilhetes. Mas algo a fez parar. Seus dedos ficaram imóveis dentro da mochila. Seu coração deu um salto. — O que foi? — perguntou Sofia imediatamente. Lia não respondeu. Ela apenas puxou a mão para fora. E trouxe consigo outro pedaço de papel. Dobrado. Sofia arregalou os olhos. — Não… — murmurou. Lia sentiu o sangue gelar. — Ele não estava aqui antes. As duas olharam para o papel como se ele pudesse explodir. — Abra — disse Sofia, quase num sussurro. Lia respirou fundo. Suas mãos tremiam enquanto desdobrava o bilhete. As palavras estavam escritas com a mesma caligrafia. A mesma. Exatamente igual à dela. Ela começou a ler. > Você ainda não percebeu… Lia engoliu em seco. Sofia aproximou-se mais da mesa. Lia continuou. > Mas a morte que precisa impedir… Seu coração começou a bater mais rápido. > Está mais perto do que imagina. As duas ficaram em silêncio. O barulho da cafeteria parecia distante agora. — O que isso significa? — perguntou Sofia. Lia releu as palavras lentamente. Cada frase parecia mais inquietante que a anterior. — Alguém perto de mim… — murmurou ela. Sofia ficou imóvel. — Você acha que… — Que pode ser alguém que eu conheço. O estômago de Sofia se apertou. — Isso não é bom. Lia dobrou o bilhete lentamente. — Não. Ela começou a pensar nas pessoas ao seu redor. Sofia. Os colegas da universidade. Os professores. Os funcionários da cafeteria. Até o homem do autocarro. Qualquer um deles poderia ser a pessoa mencionada no bilhete. E o pior de tudo era que o aviso não dizia quando. Apenas que aconteceria hoje. — Talvez o bilhete apareça de novo — disse Sofia. — Como assim? — Talvez ele dê mais detalhes. Lia olhou novamente para a mochila. A ideia parecia absurda. Mas até poucas horas atrás, tudo aquilo parecia absurdo. — Talvez — disse ela. Sofia apoiou os cotovelos na mesa. — Precisamos descobrir duas coisas. — Quais? — Primeiro: quem está escrevendo esses bilhetes. — E a segunda? Sofia olhou diretamente para ela. — Quem está em perigo. Lia sentiu um peso enorme sobre os ombros. De repente, parecia que o destino de alguém dependia dela. E ela nem sabia por onde começar. --- Do lado de fora, o vento começou a soprar com mais força. Algumas nuvens escuras se formavam no horizonte. A previsão do tempo dizia que uma nova chuva poderia chegar no final da tarde. Lia olhou para o relógio novamente. 11h37. Cada minuto parecia importante agora. — Vamos sair daqui — disse ela. — Para onde? — Não sei ainda. Mas ficar sentada esperando alguém morrer parecia impossível. Sofia concordou. As duas saíram da cafeteria e caminharam pelo campus. Os corredores estavam mais movimentados agora. Alguns estudantes se preparavam para a próxima aula. Outros conversavam animadamente. Lia observava cada rosto. Cada pessoa. Como se estivesse tentando identificar algum sinal de perigo. Mas todos pareciam… normais. — Isso é inútil — disse Sofia depois de alguns minutos. — Talvez. — Não podemos simplesmente vigiar todas as pessoas da universidade. Lia sabia disso. Mesmo assim, continuava olhando ao redor. Até que algo chamou sua atenção. Do outro lado do pátio. O homem do autocarro. Ele estava parado perto de um dos prédios. Conversando com alguém. Lia sentiu um arrepio. — Sofia… — O quê? — Está vendo aquele homem ali? Sofia seguiu a direção do olhar dela. — Qual? — O da camisa clara. Sofia estreitou os olhos. — Sim. — Foi nele que derramei o café. Sofia olhou novamente. — Você acha que ele tem algo a ver com isso? — Não sei. Mas algo dentro de Lia dizia que aquele encontro não tinha sido por acaso. O homem terminou a conversa e começou a caminhar. E por um breve momento… Ele olhou diretamente para Lia. Um olhar rápido. Mas intenso. Como se a reconhecesse. Como se soubesse algo. Lia sentiu um frio percorrer sua espinha. — Ele está olhando para você — disse Sofia. — Eu sei. O homem desviou o olhar e continuou andando. Desaparecendo dentro de um dos prédios da universidade. Sofia virou-se para Lia. — Isso foi estranho. — Muito. Lia colocou a mão sobre a mochila. O terceiro bilhete parecia pesar mais a cada minuto. A mensagem ecoava em sua mente. A morte que precisa impedir está mais perto do que imagina. Ela olhou novamente ao redor. E pela primeira vez desde que encontrou os bilhetes… Sentiu medo de verdade. Porque se a mensagem estava certa… Então alguém ali. Muito perto dela. Talvez estivesse vivendo as últimas horas de vida. E Lia ainda não sabia quem.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD