Vincent…finalmente o encontrei. Ele estava sentado atrás de uma mesa assinando os livros. Embora eu estivesse longe dele, pude notar que o seu cabelo estava um pouco mais longo do que na época da escola e o rosto parecia mais definido. Vincent estava próximo dos trinta anos de idade, mas parecia ter parado no tempo.
Consegui enxergá-lo por poucos minutos antes que um dos participantes do evento ficasse na minha frente. À medida que a fila andava, eu tentava manter meus olhos nele, mas estava cada vez mais difícil. Eu não podia esperar para chegar a minha vez no balcão.
"Obrigada pela compra, bom evento." - a atendente me respondeu entregando o livro em uma sacola.
Assim que peguei o livro, tentei me aproximar do local onde Vincent estava antes de voltar para a minha professora. Consegui dar alguns passos para frente, mas a fila para pegar o autógrafo parecia interminável.
"Desculpe, mas o senhor precisa ir para o fim da fila." - disse o segurança me surpreendendo enquanto eu pedia licença para algumas pessoas que estavam na minha frente.
"Claro, eu só queria ver o autor de perto." - respondi automaticamente, sem pensar antes de falar.
"Você poderá ter contato com ele na sua vez, por gentileza, siga para o fim da fila."
Antes de seguir as ordens do segurança, consegui olhar para Vincent e enxergá-lo nitidamente pela primeira vez. Um homem que aparentava estar perto dos vinte anos disse algo no seu ouvido enquanto segurava sua mão. Considerando que estavam em público e em um evento para Vincent, concluí que aquele deveria ser um namorado ou alguém muito próximo dele. Senti meu coração ficar apertado.
O segurança continuava apontando para a saída, por isso tive que me afastar. O máximo que consegui chegar perto dele foi na metade da fila.
Segui em direção ao local onde minha professora estava anteriormente, mas não a vi. Imaginei que ela já estivesse na fila, então concluí que seria melhor esperá-la na saída ou enviar uma mensagem antes de eu ir embora.
Me posicionei atrás da última pessoa que estava esperando e comecei a ouvir a sua conversa com uma pessoa à sua frente.
"Fico feliz que ele finalmente tenha conseguido lançar esse livro. Dez anos tentando e só agora uma editora aceitou publicar, acredita?" - comentou a mulher na minha frente.
"Ele demorou tudo isso? Nossa, no lugar dele eu já tinha desistido." - respondeu a outra mulher.
"Acho que qualquer pessoa teria desistido. Mas valeu a pena, o livro dele é incrível. Comprei no primeiro lote da pré-venda e comecei a ler só por curiosidade. Quando vi, tinha terminado no mesmo dia."
"Ainda não comecei a ler, quando soube que era um romance, não me interessei muito. Decidi vir pro evento por consideração mesmo. Ele costumava participar do clube de leitura na faculdade e de vez em quando a gente conversava. Não somos amigos, mas achei que seria bom dar um apoio moral."
"Que bom que você veio. Depois do evento, tente dar uma chance para a história. Eu ouvi falar que ele escreveu baseado em uma experiência pessoal, e se isso for verdade, só torna o livro ainda melhor. O quanto eu chorei e sofri enquanto lia não dá para explicar." - assim que ouvi esse trecho da conversa, rapidamente peguei o livro de Vincent e li a sinopse.
“O que você faria se pudesse voltar ao passado e impedir o seu antigo eu de conhecer o seu primeiro amor? Ao entrar em coma após um acidente de carro, um jovem paciente reencontra seu antigo eu enquanto está desacordado e decide impedi-lo de se apaixonar. Será que todas as consequências de suas ações o impedirão de sofrer um acidente no futuro?”
Então Vincent tinha escrito um livro sobre o seu primeiro amor? Ler aquela sinopse foi como um soco no estômago. Sim, Vincent ainda se lembrava de mim.
Comecei a me sentir angustiado, como se um grande peso estivesse nos meus ombros. Eu não conseguia ouvir nada à minha volta e nem raciocinar. Se pudesse, Vincent impediria seu antigo eu de me conhecer…aquela história só podia ser autobiográfica. Não…reencontrá-lo não era uma boa ideia.
Depois de tanto tempo, ele conseguiu superar o que aconteceu, ele podia até mesmo lançar um livro sobre isso. Eu tinha que parar de ser egoísta e pensar só nos meus sentimentos. É, o melhor que eu podia fazer por Vincent, era vê-lo novamente de longe, e somente daquela vez.
Talvez eu tivesse reencontrado a sua dedicatória apenas para perceber quais tinham sido os efeitos das minhas ações sobre a vida dele. E agora eu podia ver: ele tinha se tornado um homem forte, admirável e que podia lidar com o passado melhor do que eu. Eu tinha entendido a lição.
Pensar em tudo aquilo ocupou tanto a minha mente, que não percebi que eu já estava próximo à minha vez. Aquela era a hora de desistir, eu não poderia encará-lo depois do que aconteceu.
Saber que Vincent poderia me ver me deixou ansioso e desesperado. Saí da fila rapidamente e fui em direção ao banheiro lavar o meu rosto, só assim eu poderia me acalmar.
Ao entrar no banheiro, pendurei a sacola com o livro em uma das portas do box para não molhá-lo e lavei o rosto. Não havia papel-toalha, então entrei no box e peguei papel higiênico, secando meu rosto com cuidado.
Quando joguei o papel fora e abri a porta, a sacola caiu no chão, deixando o livro à mostra.
"Droga." - respondi enquanto pegava o livro do chão e olhava para o espelho que estava na minha frente.
Pelo reflexo, vi Vincent parado atrás de mim. Ao vê-lo, sem querer soltei o livro, que caiu no chão de novo.
"Derrubou meu livro no chão duas vezes…e nem vai me pedir um autógrafo?" - ele perguntou com deboche.
Rapidamente me abaixei, peguei o livro e o coloquei na sacola, me virando para ele. Eu não conseguia falar.
Ficamos alguns minutos nos encarando. Meu coração estava prestes a sair pela boca. Eu não podia sentir as minhas pernas, e quanto mais eu tentava pensar, mais eu me sentia paralisado.
Vincent parecia irritado com a minha reação. Seus olhos verdes que eu relembrei tantas vezes naquelas últimas semanas pareciam mais intensos do que nunca. Seus lábios e bochechas continuavam avermelhados, mas agora eu podia ver nitidamente algumas marcas de expressão em seu rosto. Ele parecia alguém completamente diferente, embora sua aparência ainda fosse muito similar a de uma década antes.
"Me desculpe. Com licença". - só tive coragem de me desculpar e dar alguns passos, passando por ele.
Antes de sair do banheiro com as pernas trêmulas, ouvi sua respiração pesada.
"Se vai continuar fugindo de mim, por que você voltou?" - ele me perguntou sussurrando.
Me virei para trás. Nos encaramos.