Noite de autógrafos

2124 Words
"Como você está? É bom te ver." - minha professora perguntou enquanto pegava as taças de vinho e me entregava. "Eu poderia dizer que a minha vida está a mesma, mas algo aconteceu." - respondi entregando o livro para ela. "O que é isso?" "Veja a contracapa." - ela colocou a taça na mesa de centro e começou a ler a dedicatória. "Vincent…esse nome é familiar." "Ajudaria se eu dissesse que é o aluno que conseguiu o primeiro lugar em um concurso de literatura há alguns anos?" Ao me ouvir, ela bebeu um gole de vinho e suspirou. "Eu suspeitei que mais cedo ou mais tarde isso poderia acontecer. Vocês estão juntos?" "Não, na verdade ele me deu esse livro no último dia em que nos vimos há dez anos, mas só li essa dedicatória ontem. Naquelas férias de verão, vivemos tudo o que relutamos enquanto estávamos desenvolvendo o livro dele." "Bem, como eu disse antes, quero saber todos os detalhes." Sorri para ela. Raramente eu contava sobre a minha vida amorosa, mas de uma forma ou de outra, ela sempre me acompanhava de longe. Eu não falava sobre Vincent com Teodora desde quando a avisei sobre o resultado do concurso, mas naquele momento senti que deveria contar tudo o que aconteceu entre nós na época. Falei sobre as conversas que tivemos fora da escola, de quando ele se declarou e também do nosso encontro na formatura. À medida que eu falava, ela me olhava atentamente, esboçando expressões de surpresa. "Eu sei que ele me odiou muito depois que eu sumi. Mas não posso culpá-lo, não sei o que eu faria no lugar dele." "Todos nós cometemos erros, principalmente quando somos jovens. Não deixe o peso do que aconteceu naquela época te consumir." "Achei que eu tinha deixado para trás essa história, me esforcei tanto para esquecê-lo…mas ao ler as palavras de Vincent na dedicatória e conhecer a história dos personagens, não consegui deixar de pensar em tudo de novo. " "E o que você está sentindo agora?" "Se eu fosse resumir em uma palavra…seria arrependimento. Quem me dera voltar para o passado e fazer tudo de forma diferente…" "Você acha que se tivesse agido de outra forma, ele teria se machucado menos?" "Não sei…eu estava tão determinado a encerrar a nossa história após as férias, que provavelmente de qualquer forma ele acharia que tudo foi uma mentira. Com certeza ele pensaria que eu tinha me aproveitado da inocência e da pureza dele…mas eu nunca poderia fazer isso." "Mas agora isso ficou para trás, certo?" "Por mais que eu queira…acho que não vou conseguir ignorar isso, me recuso a acreditar que é apenas coincidência. E se for um sinal do universo para eu procurá-lo novamente e me desculpar?" "Sabe, na idade em que estou, penso que reabrir feridas do passado seria desperdiçar o tempo que ainda resta para ser feliz." Parei de falar por um momento e fiquei em silêncio refletindo sobre o que ela disse. Eu sabia que ela tinha razão, tudo tinha acontecido há tanto tempo…eu com certeza não significava mais nada para ele. Talvez se nos víssemos, eu provocasse ainda mais dor e sofrimento. "Você ainda tem algum sentimento por ele?" - Teodora me perguntou pensativa. "Eu queria que a minha resposta fosse não…mas depois de viver tantos dias sem me importar com nada, ontem eu senti algo que não imaginei que conseguiria novamente. Só de lembrar do Vincent, senti frio na barriga. Quem se sente assim só porque se lembrou de alguém?" "O que você faria se o encontrasse?" "Honestamente…eu não sei. Na verdade, eu nem sei como eu o encontraria após esses anos." "Dimitri…esse brilho que estou vendo nos seus olhos, eu só vi uma vez. Não vou te dizer para ir atrás dele, sou uma pessoa que não vive relembrando o passado. Mas eu acho que se ainda existe algo que está mexendo com você, talvez não seja só a sua imaginação. Agora você precisa decidir se vai deixar esse livro na sua estante ou procurá-lo." Passamos a noite conversando sobre histórias de vida, sentimentos e experiências. Quando já estávamos na porta nos despedindo, Teodora disse que tinha se lembrado de algo e pediu para que eu a esperasse antes de ir. Ao voltar, ela me entregou uma pasta com várias folhas dentro. "Acho que é melhor você ficar com isso." - ela me disse enquanto me abraçava. Peguei um táxi, e após entrar nele, abri a pasta: as folhas eram o livro que Vincent escreveu durante o ensino médio. Eu não tinha mais o registro daquele livro no meu computador, minha única cópia agora era aquela. As folhas estavam com várias marcas de correção, comentários e desenhos (minha professora gostava de corrigir tudo na versão física). Eu não poderia estar mais grato a ela. Conversar com Teodora e contar o que aconteceu entre Vincent e eu me fez rever muitas atitudes que tive antes. Eu me sentia culpado por ter agido daquela forma com ele, mas por outro lado eu estava feliz em não termos nos envolvido enquanto ainda frequentávamos a escola. Seria impossível imaginar a nossa convivência se tivéssemos rompido durante o período de aulas. Ao chegar em casa, comecei a ler o livro de Vincent. Eu me lembrava nitidamente do que conversamos durante o desenvolvimento daqueles capítulos. Era difícil explicar, mas eu estava começando a sentir uma vontade avassaladora de encontrá-lo. Aquele sentimento não podia ser algo superficial…se mesmo sem ter notícias de Vincent, eu podia lembrar dele com tanto carinho, isso só podia significar que ele continuava sendo meu verdadeiro amor. Eu tinha me decidido: eu precisava encontrá-lo. Eu não sabia quanto tempo eu levaria para achar qualquer sinal dele, mas eu precisava tentar. Sim, eu estava disposto a ouvir as palavras mais duras de Vincent, desde que eu pudesse pedir perdão a ele. Na semana seguinte, me mudei de apartamento. Embora eu tivesse muitas caixas para desempacotar, meu tempo livre estava sendo gasto procurando por ele na internet. Mesmo colocando seu nome e sobrenome, os únicos registros que eu tinha dele eram da época do concurso. Comecei a me desesperar: como eu poderia encontrá-lo se não havia qualquer rastro dele? Passaram-se algumas semanas, e quanto mais eu buscava por Vincent, mais eu me sentia frustrado. Nos momentos em que meu desânimo começava a me afetar, eu relia a dedicatória (o livro ficava na mesa de cabeceira, ao lado da cama). Fechar os olhos e me lembrar de Vincent acalmavam os meus pensamentos e me mostravam o porquê de continuar a procurá-lo. Ele era tão lindo naquela época…aqueles olhos verdes ingênuos, ao mesmo tempo em que transbordavam ânimo, refletiam a sua insegurança durante a juventude. Mesmo que ele tentasse esconder, durante as férias eu notei que ele não gostava quando eu falava da Agnes ou de outras pessoas...talvez ele se sentisse ameaçado, embora meus sentimentos fossem completamente dele. Eu poderia ter sido mais compreensivo com ele…o que será que teria acontecido se eu não tivesse parado de respondê-lo? Ele teria ficado ao meu lado mesmo nos piores dias da minha vida? Não, eu não poderia estragar a vida dele com a minha tristeza. De uma forma ou de outra, não conseguiríamos viver o nosso amor como merecíamos na época. Quem me dera ter a oportunidade de viver esse amor…Meus pensamentos estavam confusos entre lembranças do passado, arrependimentos e um desejo incontrolável de ver Vincent, pelo menos mais uma vez. "E então, decidiu o que fazer?" - Teodora parecia mesmo interessada nos próximos capítulos da minha história com Vincent. "Sim, estou tentando encontrá-lo. Mas é surreal, não há nenhum registro, nada que possa me levar até ele." "Você tentou falar com alguém que o conhecia naquela época?" "Tentei pedir ajuda da Agnes, uma colega que trabalhou comigo, mas ela mudou o número de telefone. Também encontrei o irmão de Vincent em um perfil das redes sociais e mandei uma mensagem, mas até hoje ele não me respondeu. Não sei o que fazer." "Bem...fiquei pensando se devia te dizer isso…mas acho que omitir essa informação seria um erro. Parece que o universo está ao seu favor." "Como assim?" - perguntei digitando rapidamente. "Uma velha amiga me convidou para o lançamento do livro de um de seus ex-alunos. Ela me mandou o convite por email, e imagine a minha surpresa ao ver que o nome do autor era Vincent." "Por favor, me encaminhe esse email. Não consigo acreditar." "Tudo bem, vou mandar. Se você for mesmo reencontrá-lo, só dou um conselho: lembre-se que agora ele é uma pessoa diferente daquela que você conheceu. Respeite os sentimentos dele e a sua escolha, caso ele não queira conversar com você." "Muito obrigado. Não vou mais magoá-lo, não se preocupe." Depois que terminamos de conversar, acessei meu email e abri a mensagem que ela havia enviado: sim, era ele. Vincent estava lançando um livro de romance, o que me deixava surpreso. Quando ele ainda era um estudante do ensino médio, seu interesse maior era pela ficção científica. Embora não fosse o mesmo gênero, eu estava feliz em ver que ele tinha seguido a carreira de autor. Ter o conhecido na época em que ele estava confuso sobre o futuro profissional e depois quando ele já tinha tomado a sua decisão, foi algo que não podia ser explicado em palavras. A noite de autógrafos seria dali a duas semanas. Esse era o tempo que eu tinha para me preparar para o reencontro. Como Vincent estaria depois de tanto tempo? Será que ele se lembraria de mim? Na minha mente, eu só tinha o registro de suas bochechas rosadas, de seus lábios carnudos e do seu sorriso brilhante. Durante os próximos dias, eu não parei de acordar de madrugada por causa da ansiedade. Por mais que eu tentasse ocupar a minha mente, só conseguia pensar em como seria rever Vincent. Depois de tanto procurá-lo, enfim o universo estava me dando a oportunidade de vê-lo. Eu não podia perder aquela chance. Os dias estavam passando lentamente, e parecia que quanto mais eu contava as horas para vê-lo, mais distante eu ficava de encontrá-lo. Naquela noite, saí de casa mais cedo, chegando na porta da livraria quando ela ainda estava fechada. Embora eu quisesse esperar por ele na fachada, eu sabia que não era uma boa ideia encontrá-lo ali antes de uma noite importante. Desde que eu tinha recebido o convite no meu email, eu estava pensando em como agiria quando aquele dia chegasse, e por mais que eu tenha criado várias hipóteses, naquele momento eu me sentia perdido. Decidi me sentar em uma cafeteria próxima à livraria para pensar com calma. Mesmo de longe, consegui ver pessoas se reunindo e entrando no prédio. Vincent com certeza já tinha chegado. Quando percebi que finalmente conseguiria encontrá-lo e que Vincent estava apenas a alguns metros de mim, senti meu coração bater forte. O frio na barriga tão característico do meu nervosismo agora estava me deixando ainda mais angustiado. Reuni toda a coragem que eu tinha, saí da cafeteria e fui em direção à livraria. "Boa noite, tudo bem? Precisamos do seu convite para a entrada." "Ah, o convite?" - droga, eu não tinha lembrado que era preciso um convite. O que eu devia fazer? "Só um instante, por favor, vou procurar." - abri a minha bolsa e comecei a mexer nos bolsos tentando ganhar tempo para decidir o que fazer. "Com licença, ele está comigo." - minha professora tinha surgido ao lado do recepcionista. Eu a abracei e sussurrei em seu ouvido. "Muito obrigado." O recepcionista me deixou entrar. Quando ele me pediu o convite, comecei a entrar em desespero, mas ao encontrar a minha professora, senti como se aquela situação fosse surreal. "Você não imprimiu o código de barras do convite? Estava no email que te enviei." "Eu nem lembrava que tinha um código de barras…depois que vi o nome de Vincent, não consegui reparar em mais nada." Ela riu. Sim, depois de saber que eu poderia reencontrar Vincent, perdi completamente a noção de tudo. Minha mente estava focada apenas em falar com ele. "Quem ainda não comprou o livro pode adquirir o seu exemplar no balcão próximo à entrada. Lembramos que é preciso do livro para falar com o autor." - disse uma das responsáveis pelo evento pelo microfone. "Preciso comprar o livro, tentei pedir pela internet, mas já tinha acabado." "Eles fizeram uma pré-venda uma semana de enviarem os convites. Minha amiga me deu de presente, então não precisei me preocupar." - minha professora comentou. "Que sorte. Então vou lá comprar, já volto." - respondi indo em direção ao balcão. A fila estava imensa, mas da posição em que eu estava, consegui ver Vincent de longe. Não pude acreditar em meus olhos.
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