Prólogo: Rei da escola.
Já aviso que essa história é um baita clichê, mas quem não gosta de um clichê? Se veio procurando isso, encontrou no lugar certo.
Se dissessem para mim que minha escola é um microcosmo, eu riria, mas não discordaria. Tudo na vida se resume a como você se porta, como é visto ou deixa de ser. Uma sociedade reinada por adolescentes riquinhos com medo de serem julgados, mas ironicamente julgando uns aos outros, e de alguma forma estou acima disso tudo.
Sinceramente, nem sei como parei aqui… Sério.
Um campo de batalha social, um xadrez tão elaborado que as partidas acontecem sem que ninguém saiba quem está realmente jogando, com arquibancadas, coroas de papel e salas de aula cheias de hormônios, expectativas e dramas desnecessários.
Eu? Sou o rei desse domínio.
Capitão do time de basquete, um metro e oitenta de puro charme, olhos azuis que arrancam suspiros e dono de um sorriso que já causou discussão no intervalo entre um grupo de garotas que acabou na diretoria… Egocêntrico? Posso ser, se você tivesse a minha aparência, também seria. Então não me julgue só por ser f**o, se não gostou pede reembolso para os seus pais ou nasce de novo.
Meus súditos? Uma multidão de colegas que me idolatram ou me invejam — às vezes os dois — finjo que não ligo, mas adoro a atenção, adoro ver as garotas ajeitando a camisa do uniforme para mostrar mais do que deviam, adoro ver os caras tentando me imitar e nem chegando perto. Talvez, na verdade, realmente não ligue, porque esse é o meu normal, todos os anos naquela escola chique sempre foram assim.
Tirando minha irmã, de sete anos, Barbara — a única pessoa nesse planeta que pode me obrigar a assistir desenho de princesa e eu nem sonho em reclamar — que a opinião sempre escuto, mas o resto? É… ruído.
Sem cor, sem graça…
E como todo rei, tenho meu bobo da corte pessoal, um ruivo, que sempre deixa o cabelo grande demais, dos olhos verdes, o mais desbocado que poderia ter do meu lado, meu melhor amigo Mateus. Desde que trocávamos figurinhas do Pokémon no fundamental, o único que joga na minha cara quando faço m***a e quase sempre um insuportável, mas é o meu insuportável.
Mesmo após anos, ainda age como uma criança, uma criança de um metro e oitenta e um — algo que ama jogar na minha cara me chamando de anão — e piadas de gosto duvidoso enquanto exibe um corpo tão forte quanto o meu.
Fazer o quê? Jogamos basquete há anos, não tinha como ser diferente.
O passatempo favorito dele? Zoar um certo nerd gordinho. Porque, veja bem, o Benny fica vermelho como um semáforo velho e gagueja muito, algo que às vezes dá pena. Mateus acha isso hilário e eu finjo que também acho.
Se tratando de fingir, sou o melhor.
Benedito Gonzales é a cara do “nerd clássico”, gordinho de um jeito que chega a ser fofo, o cabelo preto sempre num corte curto demais, quase raspado, deixando as bochechas grandes bem a mostra, sempre um sorriso enorme e olhos inocentes demais por trás dos óculos um pouco grandes demais para o rosto, daqueles que se vê em filme dos anos oitenta, acho que o nome é “óculos de aviador”? Não sei… Para piorar ele parece viver nisso, você olha e pensa “Benny deve ter até o VHS desse filme.”
O mais engraçado? Ele coleciona VHS, vários, com muito orgulho.
Que eu saiba, faz parte do clube de poesia, tem um coração enorme e sua gagueira quase some quando fala de um livro que ninguém mais leu, mas ele não só leu como decorou o texto.
Aparentemente, é o único amigo do príncipe gelado.
Sim, é assim que todo mundo chama ele… Tomás de Almeida Prado. Um metro e sessenta e cinco de puro silêncio mortal, roupas sempre alinhadas, cara de tédio completo e possui um sarcasmo tão afiado que pode cortar vidro.
Se Benny é o nerd ao estilo anos oitenta, Tomás é a versão dos anos 2000. Cabelos castanhos num corte social, nenhum fio fora do lugar graças ao gel de cabelo, óculos de aro preto, quadrado, que emolduram bem o seu rosto. Pele branca de porcelana, nariz pequeno e grandes olhos castanhos tão frios que poderiam te congelar se encarar demais.
Desde o primeiro ano, alguém decidiu que ele parecia com aquele personagem do “Hora de Aventura”, acho que foi o próprio Mateus, mas como já havia um rei — aquele que vos fala com grande humildade — modificou o título e o apelido pegou.
Ninguém fala com ele sobre isso, quase ninguém conversa com ele.
Ninguém se atreve.
Mas no lugar dos pinguins, Benny é um dos poucos que consegue se aproximar, com alguns outros colegas na mesa do canto no refeitório que tentam a sorte. No lugar da coroa de ouro, que daria poderes de gelo, são coroas de papel sem valor algum.
Toda semana, fazem pequenas “homenagens” ao nosso príncipe. Coroas de papel, desenhadas com flocos de neve, deixadas discretamente em sua mesa. Brincadeirinha inocente ou bullying poético, chame do que quiser.
Nunca sabemos como ele reage, porque Tomás nunca reage. Só passa reto, como se fosse nobre demais até pra desprezar o gesto. Joga as coroas no lixo, nem se dando ao trabalho de amassá-las, sempre ouço algum professor reclamando sobre desperdício de papel quando vê a lixeira da sala cheia até a boca de coroas bobas, mas isso não impede ninguém de deixá-las em sua mesa.
Tomás ignora geral…
Inclusive eu, principalmente eu.
E isso… Incomoda demais.
Não sei explicar, tem algo naquele olhar dele — castanho, firme, congelante — que parece me atravessar, mesmo nunca direcionado a mim. Posso estar no meio da quadra, sem camisa e a torcida gritando meu nome, garotas tirando fotos, garotos torcendo para terem sua chance de brilhar no meu lugar, mas se Tomás estiver passando, nem viraria o rosto.
Mas eu? Olharia com certeza, porque sempre observo, viro o pescoço para não perder os poucos detalhes que tenho permissão.
Não recebo nem um mísero levantar de sobrancelha, na verdade ele nunca nem mesmo assistiu a um jogo meu. É ofensivo.
Tem algo de errado com ele, ou talvez tenha algo de errado comigo, porque penso demais nisso.
Penso demais… Nele.
O que ninguém sabe — e nem sonha — é que o Tomás que anda pelos corredores da escola, uniforme impecável, cabelo cheio de gel e aura de desprezo completo, não é o mesmo Tomás que existe fora da escola. Descobri isso por acaso, por conta de uma obsessão antiga. Sou bom com isso, especialmente quando algo me instiga.
E ele me instiga.
Me tira do eixo.
A verdade? Por mais que tenha um mundo aos meus pés, tem algo naquele nerd frio e silencioso que me dá vontade de saber mais.
E não deveria.
Meu nome é Luca Moretti, e essa história não começa com uma coroa de papel i****a ou uma piada ridícula no corredor, nem mesmo com os bilhetes de admiradoras que recebo toda semana na minha mesa.
A história começa com uma foto.
Uma maldita foto que durou menos de cinco minutos no ar.
E que bagunçou tudo… E sinceramente? Fico feliz que tenha acontecido, porque se não fosse por isso essa história maluca nunca teria acontecido.
E o que era antes sem cor e sem graça, me deu uma nova perspectiva que nem imaginava que existia, e mudou absolutamente… Tudo.