Capítulo 6: King & Prado

2931 Words
As conversas eram infinitas, elas mudavam, evoluíam para assuntos mais profundos, mas não acabavam, nunca; existiam apenas intervalos. Logo quando acordava, continuava a conversa do dia anterior, sem “bom dia” ou “dormiu bem?” Íamos direto para as discussões filosóficas sobre “Donnie Darko”, como era uma m***a acordar cedo ou sobre como “Bitkids” foi uma banda pouco valorizada no seu tempo. T. Prado: O meu favorito era o Ricardo Júnior, ele fez parte do Ultraje a Rigor. Kingsley: Sou mais o Hilton Junior, ele melhorou depois que entrou no Pedra Letícia. T. Prado: Mas o Ricardo Júnior cantava melhor. Durante as tardes em que Tomás trabalhava no estúdio, suas mensagens eram mais demoradas, mas sempre recebia uma foto de um desenho em que estava trabalhando, uma foto de uma tatuagem recente… Claro, sem nunca mostrar seu rosto, apenas mãos e às vezes vislumbres dos seus braços, onde era capaz de ver pequenos vestígios de tatuagem. Quanto mais o tempo passava, a imagem do Tomás da escola, com gel de cabelo, os óculos quadrados, a camisa abotoada até o pescoço… Desmoronava. Aos poucos, um novo reflexo se criava, onde Tomás tirava os óculos, deixava o cabelo bagunçado, um cachinho caído sobre a testa, enrolava as mangas da camisa, mostrava as tatuagens e o significado delas… E o melhor, sorria para mim. Algumas noites eu jogava xadrez com meu pai, minha irmã ficava curiosa e tentava entender a função de cada peça, mas no fim acabava criando seu próprio jogo, meu pai não reclamava. Tirei uma foto do tabuleiro quando meu pai levantou para buscar café e mandei para o Tomás. Quando visualizou, não respondeu na hora, fiquei um pouco tenso, achando que ele tinha descoberto algo, mas tentei não pensar nisso. Quando respondeu, mandou uma foto. Era um desenho do seu caderno, uma peça de xadrez estilizada, o rei branco, todo quebrado com várias manchas espalhadas, como se fosse sangue, de tinta preta saindo e espirrando das fissuras. Era incrível. T. Prado: Um rei para outro. Eu salvei a imagem, com todos os outros desenhos que tinha me mandado, e usei como protetor de tela. Era uma química estranha, invisível, uma dança entre palavras e emojis que só nós dois entendiamos. Até que, uma noite, deitado na cama, ele me solta: T. Prado: Me passa seu número? Merda. Merda, m***a, m***a. Meu coração saltou, um frio na barriga como se tivesse levado um soco de um saco de gelo. Respirei fundo. Eu não tô pronto, não para ser Luca com ele, mas queria muito me aproximar mais, então abri o w******p e mudei meu nome para “King”, ninguém que já tem meu número salvo notaria, se notasse diria que é uma piada ou um apelido, afinal eu meio que sou um “rei”… A foto de perfil era eu de costas, usando uma camisa do time com meu número da sorte estampado, 47, e meu sobrenome em cima. Apaguei, penso um pouco, podia usar a mesma do perfil do i********:, mas lembro do desenho que ele me mandou, da peça de xadrez do rei em pedaços, essa era mil vezes melhor. Coloco essa, respiro fundo e envio meu número para ele. Não demora muito e meu celular vibra com uma mensagem dele. Número desconhecido: Aqui é o Prado. Eu: King aqui, o rei em pedaços. É b***a, mas combina comigo. Salvo, a foto de perfil dele surge e é o seu cachorro, Rod, só que quando era filhote, a língua para fora, aquela juba característica da raça emoldurando a carinha pidona. Não era o rosto do Tomás, mas era pessoal e isso me fazia sentir ainda mais próximo. Eu: Adorei a foto. Prado: Meu cachorro, ele fica mais bonito na câmera do que eu. Discordo… Olho o status do seu perfil no w******p: “Toda criatura morre sozinha”, mesma frase do i********:. Prado: Você usa o meu desenho como foto de perfil? Eu: É melhor do que a minha cara. Prado: Agora fiquei curioso… Meu corpo todo fica tenso. Prado: Me conta… Como você é? Minha respiração fica trêmula. Eu: Bom… Eu sou alto, tenho cabelo preto e olhos claros. Prado: O quão alto? Eu: 1 e 80. Mordo o lábio, será que ele vai notar? Vai perceber que sou eu? Prado: Tenho um fraco por caras altos… Meu rosto se aquece, não consigo conter um sorriso. O desenho do Frank me observava da parede, como se fosse um cúmplice dos meus atos. “Você se safou. Não se preocupe.” Relaxo na minha cadeira de rodinhas e volto a digitar. Eu: Ah… Jura? :) Prado: Eu sou baixinho, tipo 1 e 63 exatos, então todo mundo é mais alto que eu, meus olhos e cabelo são castanhos, sem graça. Eu: Kkkkk 1 e 63? Prado: Se me chamar de nanico, eu te bloqueio. Eu: Jamais. A conversa rola solta, leve. Eu: Não acho olhos castanhos sem graça, eu gosto, acho bonito. Prado: É a cor dos olhos mais comum do mundo. Eu: Independente, irmão. Prado: Irmão? Só falta me dizer que é um hétero top. Eu rio, por um momento é como se ele estivesse bem ali, deitado do meu lado, conversando normalmente. — Então, King, você é um hétero top? — Tomás pergunta, quase sou capaz de visualizar seus olhos e ouvir sua voz. — Sinceramente? Finjo tanto que nem sei se sou… — Respondo, um pouco nervoso — E você? — Não é segredo, mas não é algo que saio contando. — Consigo imaginar seu sorriso irônico através da tela. — Gay até a alma. Sinto um alívio estranho no peito, misturado com nervosismo e um calor diferente no peito. — Mas se quiser, te ajudo a descobrir… — Sua resposta me pega demais. — Isso é um flerte, Prado? — Mordo o lábio, o rosto quente demais. Respiro com dificuldade, focado demais nos três pontinhos que surgem enquanto ele digita. Prado: É uma ideia, se isso te ajuda a pensar, acho que já fiz minha parte. Uma risada b***a me escapa, e a conversa continuava, cheia de segredos que só nós dois dividimos, em meio às personas que criamos e uma cumplicidade que crescia dia após dia. Quanto mais me permito ser King, mais perto fico do verdadeiro Tomás, mesmo que ele não saiba quem sou, mas também fico mais perto de saber quem realmente sou. E ele, mesmo sem saber, já sabe mais de mim do que qualquer outra pessoa. E não sei o que é mais assustador: ser descoberto ou me descobrir. ********************************************************************************************************** Antes do treino de basquete, já com o uniforme azul e branco, dou uma desculpa esfarrapada para o treinador e volto para o interior da escola. Talvez seja um surto de coragem, ou as conversas com Tomás estejam me intoxicando, mas sinto que preciso fazer isso. Subo até o andar dos clubes, a maioria das salas é mais antiga e cada porta tem uma plaquinha de papel indicando qual clube está utilizando a sala. Todas as portas da escola têm uma janelinha, onde se pode olhar o interior da sala, então, parando na frente do clube de desenho, olhei por essa janelinha. Tomás estava num canto, desenhando, todos os membros em uma mesa trabalhando em suas obras. Ele usava um moletom preto sobre o uniforme, cobrindo seus braços, o protegendo do ar-condicionado, que devia estar no máximo, o cabelo castanho alinhado com gel, sem um fio fora do lugar, os óculos na ponta do nariz, que estava vermelhinho, provavelmente pelo frio da sala, enquanto seus olhos estavam focados na linha que traçava no seu desenho com completa atenção. Fofo… Meus olhos foram para a Akemi, a vice-presidente do clube, que estava de costas para os membros, escrevendo algo no quadro da sala sobre uma exposição que teria no próximo mês e qual seria o tema. Ela usava o cabelo roxo num coque alto, preso com um lápis de cor verde, a franja tampando a testa e seu rosto concentrado, seu moletom rosa de sempre com estampa de algum anime que nunca vi, tão comprido que quase chegava à barra da saia do uniforme, as mangas puxadas até os cotovelos. Respirei fundo, bati na porta, ela se virou, me viu através da janela e a cara dela foi impagável, parecia completamente perdida. Ela deixou a caneta de quadro num canto de uma mesa, quase deixando cair no chão, e veio até a porta, sem tirar os olhos surpresos de mim. Até esbarrou o quadril numa mesa, assustando um m****o do clube, que derrubou a tinta que usava no seu desenho, manchando a obra. — Desculpa, foi m*l… — A ouvi do outro lado da porta, logo se aproximou e a abriu, senti o gelo que estava no interior da sala bater no meu rosto, os olhos puxados e em choque me encaravam sem entender nada. — Ah… Boa… Boa tarde… O que o clube de desenho pode fazer por você, Luca? Alguns membros olharam por cima do ombro, desconfiados, curiosos ou surpresos, em minha direção, quando ouviram Akemi dizer meu nome. Tomás manteve a cabeça baixa, mas o vi parar de mover o lápis sobre o papel. — Pode chamar o Tomás pra mim? É rápido… — Pedi apressado. — Por favor. — Completei, sem jeito. Ela afirmou devagar, me deu um sorriso educado, parecendo mais uma careta confusa de desconforto. — Certo… — Ela deixou a porta entreaberta e foi até o Tomás. Pela janela da porta, vi Tomás erguer o rosto para ela. Akemi moveu os lábios rapidamente e foi a vez do Tomás ficar completamente confuso, me deu uma olhada rápida, voltou o rosto para ela, que apenas gesticulou as mãos para ele, indicando a porta e erguendo as sobrancelhas exageradamente. Tomás comprimiu os lábios, sua testa ficando levemente enrugada, logo o vi bufar e se levantar da cadeira, veio em direção à porta, os membros do clube olhando disfarçadamente para ele, ou tentando, porque estava bem descarado. Ele abriu a porta completamente, quase fazendo ventar com a força que usou, e me olhou de cima a baixo com seu desprezo característico. Então, saiu da sala, fechou a porta atrás de si com mais força do que o necessário, o barulho me fez estremecer, notei que seus olhos desceram até o chão. — O que o grande Moretti deseja comigo? — Tomás perguntou, irônico e entediado como sempre, apoiando as costas na porta. Comecei a me arrepender da minha decisão, mas já era tarde demais para desistir. — É… Oi? — Ótimo começo. Ele cruzou os braços, ergueu o rosto, mas ainda olhava para o chão, não disse nada, só esperava. — Então, eu… — Cocei a nuca, sem jeito. — Eu queria… Queria agradecer pelo desenho. — Que desenho? — Perguntou frio, cortante, quase como se não soubesse do que estava falando ou como se estivesse o incomodando. Engoli em seco, suando para um c*****o, senti uma gota de suor deslizando pelas costas, a regata do uniforme de basquete começando a grudar na pele. — Aquele do… Do coelho, Frank… Gosto muito do… Do Frank e… — m***a, você é capaz de fazer melhor que isso! — Achei seu desenho incrível, você é… Incrível. Meu rosto queimava, suava tanto que parecia que tinha acabado de sair do treino e eu estava prontíssimo para me virar e ir embora sem dizer nada. Eu sou um completo i****a, isso foi péssimo, quero morrer e me enterrar no chão… — Você… — A voz dele veio baixa, em dúvida, me tirando dos meus pensamentos. — Veio até aqui… Só pra dizer isso? Pigarreei. — Não tive chance de agradecer antes. — Dei de ombros. — Foi legal… Da sua parte. Devagar, seus olhos vieram até mim por cima dos óculos, seu rosto não me dizia absolutamente nada, mas não desviei o olhar do seu. Ter seus olhos em mim me causava mais efeito do que uma torcida inteira gritando meu nome. Aproveitei cada segundo para olhar seu rosto, tão sério e firme, a pontinha do nariz vermelha, o rosto suavemente corado, os lábios rosados e tensos, pareciam tremer um pouco. Ele desviou o olhar para o lado, descruzou os braços, enfiando as mãos no bolso. — De nada. — Simples, mas sem aquela frieza toda, isso para mim era quase uma vitória. Afirmei, virei prontíssimo para ir embora, iria repetir essa cena constrangedora na minha cabeça pelo resto do dia com certeza. — Luca… — Sua voz veio tão baixa que, por um segundo, achei que tivesse imaginado, mas parei no lugar. Voltei-me para ele de novo, que ainda olhava para o lado. Seus olhos estavam semicerrados, a testa franzida, parecia pensar com cuidado em algo. — Valeu… Pelo que disse… — Falava baixo demais, parecia escolher com cuidado as palavras. — E… Fico feliz… — Seus olhos desceram para o chão, seu rosto ainda era sério demais, mas no canto dos lábios meio trêmulos, um vestígio de um sorriso doce, o mesmo que via durante as aulas ao responder às mensagens que mandava sendo “King”. — Que tenha gostado do desenho. Sorri, não consegui evitar. — Eu adorei, de verdade. — Respirei fundo, um pouco mais calmo. — Até pendurei na parede. Ele franziu o cenho e ergueu os olhos. — Sério? — Perguntou, parecendo não acreditar. Afirmo, meu sorriso aumentando. — Minha irmã viu e achou o máximo também, até tentou fazer a versão dela… — Uma risada me escapou. Ele ergueu uma sobrancelha, aquele sorriso doce cresceu, bem pequeno e suave, mas estava bem ali. E era meu. — Bom saber que inspiro as futuras gerações de artistas. — Seu tom irônico não era c***l, mas divertido, quase lisonjeado. — Quantos anos ela tem? — Sete, vai fazer oito em algumas semanas. — Me sinto leve, isso saiu melhor do que esperava. Tomás concordou devagar. — A sua irmã… — Ele começou, mas uma voz no fim do corredor o cortou, uma voz que conhecia bem, acabando completamente com o momento. — Oh, Luca?! Que p***a cê tá fazendo?! — Mateus gritando. Filho da p**a… Virei, os olhos arregalados, minha vontade de assassiná-lo nunca foi tão grande como naquele momento. — A gente tem um treino, esqueceu?! — Ele se aproximou irritado, os braços erguidos de forma exagerada, o uniforme colado no corpo pelo suor. — Todo mundo se aqueceu, o treinador tá maluco perguntando de você! Foda-se o treino, eu tô finalmente conversando com o… — Tomás? — Mateus pergunta confuso, parando ao meu lado e se virando para mim, seu tom mudando para seu deboche de sempre. — O que tá rolando? Tá pedindo pra copiar o dever de casa dele? O desdém no olhar de Tomás é gigantesco, olha para Mateus de cima a baixo e, sem dizer uma única palavra, abre a porta do clube atrás de si e entra, a batendo na nossa cara. Fico em silêncio, encarando a nuca de Tomás através da janela da porta da sala. — Então? Por que você tava falando com o príncipe gelado? — O i****a me pergunta, cruzando os braços, se achando no direito de exigir satisfação. Fecho os olhos, respiro fundo, esfrego a mão pelo rosto com muita força, completamente enfurecido. — Que timing de m***a, seu i*****l… — Murmuro. Mateus me olha confuso. — O que foi que eu fiz? — Ignoro sua pergunta e simplesmente lhe dou as costas, começando a andar pelo corredor em direção à quadra. — Ei! Me conta o quê que eu fiz! — O ouvi correndo atrás de mim. Nessas horas, entendo o ódio do Tomás pelas pessoas, principalmente direcionado ao meu amigo. ********************************************************************************************************* De noite, Tomás me manda uma foto do seu cachorro, deitado num tapete branco de barriga para cima com a língua para fora. Prado: Rod queria te mandar um oi. Sorri, deixando meu livro de lado, e digito a pergunta que tenho guardada há tempo demais. King: Por que o nome Rod? Ele responde rápido, como se já esperasse a pergunta. Prado: Meu melhor amigo me deu, ele adora “Twilight Zone”. Eu abro uma aba no notebook, pesquisando rápido: Twilight Zone e Rod. Eu já tinha ouvido falar da série, mas não sabia muito sobre. Tinha várias versões dessa série, a mais recente de poucos anos atrás, mas a primeira foi criada em 1959 por Rod Serling. A conexão me dá um calor inesperado. King: Twilight Zone? Sério? Que irado… Nunca vi, é bom como falam? Prado: Depende da versão, mas todo episódio é meio surreal, acho que combina comigo. King: Agora me deu vontade de ver. Prado: Só porque falei que combina comigo? Novamente me vem aquela sensação, como se ele estivesse ali no quarto comigo. — Tudo que tem a ver com você me interessa. — Me sinto corajoso ao dizer isso, quase seguro. Ele ri. — Agora é você quem está flertando comigo… — Imagino seus olhos castanhos, quentes em mim. — Tenho um fraco por caras baixinhos. — Brinco. Ele me manda um emoji revirando os olhos. Prado: Estragou o momento. King: Kkkkkkkkkk não resisti. Suspiro sem conseguir parar de sorrir, aquela leveza das nossas conversas me deixava em transe. Hoje, quando fui pessoalmente, sendo eu mesmo e ele bem na minha frente… No começo foi assustador, claro; mas depois, aquele sorriso pequeno e doce, o jeito que me olhou por cima dos óculos, de verdade, me fez quase flutuar. Quero isso mais vezes…
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