Capítulo 14: Presente inusitado.(Parte 1)

3627 Words
Acordei cedo num sábado, mais animado do que o horário permitia, quase parecia que o aniversário seria meu. Nem precisei do alarme, apenas acordei com um único pensamento. Vou ver o Tomás hoje, na minha casa. Levantei, me espreguiçando, abri a cortina deixando o sol da manhã iluminar meu quarto e olhei ao redor, percebi que estava um caos. Ok, não era novidade, sinceramente me encontro fácil na minha bagunça… Mas não queria que Tomás visse minhas roupas espalhadas, meu armário todo escancarado, ainda tão desorganizado quanto minha escrivaninha, cheia de livros, apostilas e papéis espalhados sobre meu notebook. Joguei o cobertor para o lado, minha pele se arrepiando com o frio da manhã, ignorei a sensação e me levantei. Ainda de cueca, comecei a dobrar e pendurar as roupas nos cabides, a maioria só enfiei de qualquer jeito no armário torcendo para caber. Alguém bateu na porta. — Entra! — Algumas roupas escaparam do armário enquanto empurrava com o ombro. — Bosta… A porta do meu quarto se abriu, minha mãe ainda de pijama, seus olhos azuis divertidos em mim. — Vim te acordar… — Cruzou os braços e se apoiou no batente. — Mas já levantou. Dei um sorriso amarelo, empurrei a porta do armário com mais força, finalmente a fechando. — Pois é. — Tentei fingir normalidade, apoiando a mão na madeira escura do meu armário. — Tá com febre? — Perguntou, debochando de mim. A encarei indignado, fui até a minha escrivaninha. — Não posso arrumar meu quarto sem motivo nenhum? — Rebati, pegando algumas folhas velhas e enfiando nas gavetas. — Num sábado de manhã? — Minha mãe duvidou. — Sem eu precisar mandar aos gritos? Meu rosto esquentou. — Deu vontade… — Murmurei, ajeitando meus livros ao lado do notebook, deixando mais apresentável. Fui até minha cama e estiquei o lençol, enquanto dobrava o coberto, minha mãe sorria como se já soubesse tudo. — Convidou o Tomás? — Acusando mais do que perguntando, seu sorriso crescendo. Travei, o coberto nos braços. — Ah… — Encolhi os ombros. — É… Fiquei com medo dela fazer uma pergunta mais comprometedora, mas apenas assentiu. — Gosto dele, é um bom rapaz… — Se afastou do batente. — Mas ele me parece triste. Franzi o cenho, colocando o cobertor dobrado no canto da cama. — Triste? — É… — Murmurou pensativa. — Eu não sei, acho que é só uma sensação… Ela me deixou sozinho no quarto, um triplex alugado na minha cabeça em poucas frases. ********************************************************************************************************** Algumas horas depois, já com uma bermuda e uma regata no corpo, comecei a ajudar meu pai a montar o pula-pula no quintal. Quando estávamos quase terminando, recebi uma mensagem do Tomás… Mas não como Prado, como Tomás mesmo, no i********:. Tomás: Bom dia, tudo bem? Queria saber se tem problema levar o Benny. Sorri, era estranho receber uma mensagem tão formal dele. Luca: Claro, sem problema. Tomás: Ok. Seco, direto e simples, o Tomás de sempre. m*l se passou um minuto e recebi outra mensagem de Tomás, agora como Prado. Prado: KING! QUE ROUPA EU USO?! Prado: (1 foto) Abri a mensagem rápido, a foto mostrava uma cama bem arrumada com lençóis pretos, sobre ela duas opções de roupas. A primeira era uma camisa simples, branca, a calça era um jeans comum, mas claramente de marca. Era… Simples demais, comum, uma coisa que qualquer um vestiria… Meus olhos desceram ao pé da cama, um par de tênis absurdamente caro bem ali. Fiquei sem ar, era a p***a de um Air Jordam vermelho com detalhes pretos, e não qualquer um, original, meu sonho de consumo. — p**a m***a… — Murmurei, mas percebi rápido… O tênis não tinha nenhum desenho de caneta. Algo que não combinava com Tomás. — Filho? — Meu pai me chamou, ergui os olhos da tela. — Tudo bem? — Ah… Sim… — Murmuro sem jeito. — Ainda precisa de ajuda? — Gesticulo para o pula-pula praticamente montado. Meu pai n**a, ainda com aquele olhar curioso, mas me afasto rápido antes que fizesse alguma pergunta. Sentei na beira da piscina, enfiando os pés na água, voltando meus olhos para o celular. A segunda opção era uma camisa social azul-clara, mangas compridas, uma calça também social preta e tênis da mesma cor, tudo bem caro, mas muito formal, engessado. Nada a ver com o verdadeiro Tomás. King: Definitivamente nenhuma das opções. Prado: p***a, me ajuda! É a festa da irmã dele! A família dele vai tá lá! King: Então vai se vestir que nem um hétero top ou um mauricinho? Logo você? Prado: Quer que eu faça o quê? Comecei a rir do desespero dele, era bobo, mas entendia bem essa vontade de agradar. King: Seja você mesmo, que tal? Prado: Eu mesmo? Tá doido? Eu tenho tatuagem, várias! A maioria das minhas camisas tem uma estampa bizarra ou uma piada r**m envolvendo gatos… A camisa que usou no meu jogo de basquete veio à minha mente, me fazendo sorrir. Prado: … Não tenho quase nenhuma calça normal e quase todos os meus tênis têm desenhos que fiz de caneta! Eu não posso ser eu mesmo! Suspirei, um pouco frustrado. King: Pode sim! Ele começou a digitar, mas não deixei que terminasse a mensagem. King: Prado, preste atenção! Eles vão adorar você, exatamente como é! Apenas use o que quer vestir e não tenha medo se alguém não gostar, porque aposto, com toda a certeza, que o menino que você gosta vai adorar qualquer coisa que você vestir! Respirei fundo e mandei outra mensagem. King: Confia em mim. Esperei, agitando a perna na água da piscina, causando pequenas ondas. O online dele sumiu, bufei, passando a mão pelo rosto irritado. — Lu? — Minha irmã me chamou, seus enormes olhos azuis me encarando, curiosa. — O que foi? Tá com dor de barriga? Uma risada b***a me escapou. — Não, só… Tô com a cabeça cheia. — Dei o sorriso mais tranquilo que pude. Ela usava um vestido rosa de princesa, uma tiara roxa de plástico, torta na cabeça, e o cabelo super arrumado num coque alto, que sabia que iria se desfazer em cinco minutos de festa brincando com suas amiguinhas. — O seu amigo vem? — Perguntou, com um sorriso enorme, a janelinha já sumindo com um dente novo surgindo. Refleti seu sorriso. — O Mateus? Vem sim… — Respondo, já sabendo que não era dele sobre quem perguntava. Balançou a cabeça rápido, negando. — O Tomi! — Insistiu. — Vem? — Vem sim… — Suspirei. Seu sorriso aumentou, ela se afastou saltitando até meu pai, pedindo para pular no pula-pula. Meu celular vibrou na minha mão, uma nova mensagem. Prado: Ok, vou fazer do seu jeito. Um sentimento quente misturado com antecipação surgiu no meu peito. ********************************************************************************************************** — Mano… — Mateus murmurou desesperado do meu lado. — Umas cinco menininhas vieram até mim falando de um tal “tralalelo tralala”, não entendi nada! O quintal da minha casa estava recheado de garotinhas fantasiadas de princesas da Disney, que corriam pelos balões que meu pai encheu com a bomba de ar guardada na garagem que, por incrível que pareça, nunca usei para encher as rodas da minha bike. O pula-pula que alugamos estava no canto, rangendo com cada pulo animado que davam. Além dele, meus pais alugaram algumas mesas e cadeiras dobráveis, cada mesa com uma toalha de papel rosa, alguns pratinhos de papel, no centro um enfeite com flores de plástico. Uma das mesas estava o bolo, rodeado de brigadeiros, atrás um display enorme das princesas da Disney, balões rosa e branco em arco, apenas esperando a hora do parabéns. Mateus chegou com um embrulho prateado, Barbara pulou nos braços dele apenas para sair correndo com o presente, que minha mãe pegou da mão dela e pôs na mesa de presentes perto do bolo, Barbara fez um beicinho inconformada, mas não discutiu. Mateus usava uma camisa branca e um jeans todo amassado, quase ri lembrando da foto que Tomás mandou como opção para usar na festa, mas no lugar do tênis absurdamente caro, usava apenas um Nike laranja ajeitado. — É aquele negócio de Brain rots. — Explico. — Minha irmã joga isso por horas naquele Roblox. Mateus balançou a cabeça, ainda confuso. — Tô velho demais pra essa geração… — Resmungou, roubando um brigadeiro de uma mesa do nosso lado, seus olhos desceram para minhas roupas. — Você tá arrumado demais para um aniversário de oito anos. Eu geralmente não me arrumaria para uma festa infantil, mas… Coloquei uma camisa azul clara, que realçava bem os meus olhos, daquelas que ficam justas no corpo, fazendo bom uso do corpo que desenvolvi nos treinos de basquete. Jeans escuro, rasgado nos joelhos e um tênis Nike azul, meu favorito, que ganhei no meu aniversário e só usava em ocasiões especiais. … Tomás viria na minha casa, isso era especial o bastante. Mateus parecia prestes a me zoar, mas travou do meu lado, a boca cheia de brigadeiro, seus olhos em um ponto atrás de mim. — Que p***a…? — O coitado engasgou e começou a tossir. Me virei, meu coração parou. Tomás, parado no batente da porta de correr que dava para a sala da minha casa, e Benny do seu lado parecendo perdido e igualmente feliz por estar numa festa de aniversário infantil. Ambos seguravam um embrulho rosa, o do Tomás maior e retangular, provavelmente o desenho que fez para minha irmã, enquanto o do Benny era pequeno e meio redondo. Tomás não usava gel, nem os óculos de armação quadrada, ou uniforme certinho da escola, muito menos uma roupa formal demais ou a pose de “não se aproxime”. Estava exatamente como eu queria, confortável na própria pele. Seus cachinhos soltos, livres, me davam vontade de passar os dedos só para saber como seria a sensação. Uma camisa preta com um dragão azul e rosa, uma mistura de realismo com cartoon, no lugar das escamas havia desenhos de personagens estilizados de cores diversas, cada vez que se olhava notava um detalhe diferente. A calça folgada, também preta, mas cheia de linhas coloridas formando desenhos de besouros e mariposas, o tênis de marca, colorido, mas cheio de desenhos de caneta preta com olhos bizarros. Os braços livres, sem casaco, apenas as tatuagens enfeitando a pele, nas orelhas brincos pequenos de argola, parecia um roxo misturado com azul, era difícil definir a cor. Quando nossos olhos se encontraram, não consegui esconder o sorriso enorme que surgiu nos meus lábios. Benny, ao lado dele, agitado, olhando tudo com atenção por trás dos enormes óculos de aviador. Usava uma camisa branca, o desenho do Gorpo do He-man, mas em vez da versão fofinha ele parecia prestes a lançar um feitiço perigoso. Uma bermuda vermelha e tênis All Star, da mesma cor. Ele acenou animado para mim, retribuí o aceno. — É o príncipe gelado?! — Mateus sussurrou para mim desesperado, a voz rouca após quase morrer asfixiado de brigadeiro. — E… O Benny?! Ignorei enquanto os dois se aproximavam, desviando de algumas meninas correndo, quase tropeçando na barra de seus vestidos de Elsa. — Se soubesse que era uma festa de princesa, teria vindo com a minha melhor tiara. — Tomás debochou, um sorriso tímido nos lábios. Balancei a cabeça, sem conter o quanto estava feliz em vê-lo. — Minha irmã teria adorado. Mateus olhou para mim, depois para o Tomás e de novo para mim, claramente pedindo uma explicação, mas Benny começou a falar. — O-oi! Luca! — Ele segurava o embrulho com firmeza nas mãos. — E-eu não sabia o que trazer, o Tomás me-me chamou de última hora, aliás obrigado pelo convite! A festa tá incrível! Eu não sabia q-que você tinha uma irmã mais nova, mas eu com-comprei uma lembrancinha! Não é nada demais, mas eu acho que ela vai gostar e eu fa-falei com seus pais… — Benny. — Tomás o interrompeu, seco, mas não de forma rude, parecia algo que fazia com frequência. — Respira. Benny respirou fundo. — De-desculpa. — Ele corou, mas ainda sorria animado. — Que bom que vocês vieram. — Falei sincero, me virei para o Benny. — Não precisava se preocupar com presente. — Mas crianças adoram presentes! — Benny disse, agitando o embrulho na mão, os óculos escorregando no nariz. — Eu comprei um ursinho, ela gosta de ursinhos? — Seu tom era genuinamente preocupado. Mordi o lábio para não rir. Mateus, do meu lado, de braços cruzados, se mantinha em silêncio, o rosto sério demais, assistindo nossa interação como um antropólogo presenciando um absurdo da natureza social. — Adora. — Garanti, então me virei para o Tomás. — Camisa maneira. Ele corou, então pigarreou sem jeito. — Onde deixamos os presentes? — Perguntou seco, mas senti um tremor na sua voz. Apontei para a mesa ao lado do bolo, cheia de embrulhos, os dois se afastaram, me deixando sozinho com um Mateus quase explodindo num surto. — Luca Augusto Moretti. — Ele disse meu nome todo com a seriedade de um pai prestes a dar um sermão. — Por que, caralhos, os nerds estão aqui? Na sua casa? Na festa de aniversário da sua irmã?! O encarei por um momento, pensei um pouco. Sabia que teria que contar a ele, sobre como me aproximei sendo King, sobre Prado, sobre o fato de não ser exatamente hétero, na verdade… Talvez nem um pouco hétero. Sobre gostar do Tomás e como o queria por perto, comigo, de verdade. Mas… Como Mateus reagiria? Ele contaria para as pessoas na escola? Me julgaria? Pior… Mateus seria homofóbico? Engoli em seco, ainda não estava pronto para isso, nem um pouco, então respirei fundo e dei uma resposta simples, mesmo tendo consciência de que isso não bastaria. — Minha irmã pediu para chamar o Tomás. — Dei de ombros. — Ela o adorou… Depois o Tomás perguntou se podia chamar o Benny e falei que tudo bem. Mateus me encarou por alguns segundos, esperando, ainda incrédulo. — É isso?! — O ruivo ergueu as mãos acima da cabeça, claramente não satisfeito com minha resposta. — Como isso aconteceu? — Apontou para o Tomás descaradamente, que graças a Deus estava de costas na hora. — E por que ele tá vestido como um adolescente normal?! E ele tem tatuagem desde quando? E por que você não tá surtando pelo fato do príncipe gelado ter tatuagem?! — Mateus colocou as mãos nos meus ombros e me sacudiu como um boneco de pano. — Me conta que p***a tá acontecendo! Bufei e afastei suas mãos sem paciência. — Mateus. — Falei sério. — Me escuta, com muita atenção. — Ele abriu a boca para continuar fazendo perguntas, mas não deixei. — Sossega! Você não vai falar uma palavra sobre isso com o pessoal da escola, entendeu? — Meu amigo franziu o cenho. — Sobre as tatuagens ou a roupa do Tomás, nada, ok? — Por quê? O pessoal ia pirar… — Exato. — Continuei, tentando manter a calma. — Existe uma razão para ele não mostrar esse lado dele na escola, então não fale sobre isso, porque, se você falar, juro por Deus… — Minha voz saiu mais irritada do que queria, vi Mateus arregalar os olhos assustados. — Eu nunca mais falo com você, sério! Acabou nossa amizade de vez! Mateus abriu a boca, tentou falar, mas nada saiu, então continuei. — Não vai ser como quando você estragou minha camiseta de basquete favorita, ou convidou metade da escola para a minha casa e fez uma festa sem a minha permissão, muito menos como quando você me derrubou da bicicleta, quebrando meu braço e fiquei sem poder jogar basquete por três meses! — Ergui o dedo e apontei no peito dele. — Eu não tô brincando, nenhuma palavra, entendeu?! Ele piscou, absorvendo minhas palavras, surpreso demais para falar, então apenas assentiu. — Ótimo. — Murmurei e me afastei. — E pega leve com o Benny. — Acrescentei por cima do ombro enquanto ia até Tomás. Tomás estava sentado numa cadeira, minha irmã pulando feliz ao lado dele e contando alguma coisa. — … E aí eu saí voando! — Barbara finalizou, o coque já desfeito, a tiara nem se sabia e estava descalça, os pés sujos de grama. Tomás deu um sorriso pequeno para ela. — Nossa, seus sonhos são muito vívidos. — Seu tom era muito tranquilo, gentil de um jeito que aquecia. Barbara afirmou com veemência, então me viu. — Lu! O Tomi disse que fez um desenho pra mim! — Disse animada, pulando na minha frente. — Eu quero ver! — A mãe falou que só pode abrir os presentes depois do parabéns. Ela resmungou algo, pisando o pé no chão, muito irritada, pensou e então saiu correndo chamando minha mãe para começar logo o parabéns. — Sua irmã é legal. — Tomás comenta, ainda com aquele sorriso pequeno. Me sentei na cadeira à sua frente. — Se divertindo? Seu sorriso se tornou debochado. — Odiando, pior festa da história. — Cruzou os braços, os olhos quentes, esperando uma reação minha. Apenas ri, ele pareceu relaxar, mas ainda mantinha a expressão calma demais. Olhei ao redor, à procura de um certo nerd gordinho. — Cadê o Benny? Tomás gesticulou com o queixo para algo atrás de mim, um sorrisinho sapeca nos lábios. — Tá aproveitando a nova popularidade. Me virei, começando a rir de novo. Benny estava no pula-pula, pulando, rodeado de garotinhas fantasiadas de princesas, rindo, fazendo competição de cambalhota, mostrando para elas como se fazia e fazendo poses aleatórias de ninja. — Obrigado por me deixar trazê-lo. — Voltei à sua voz tímida, seus olhos quentes em mim. — Espero que não tenha sido problema… Nego. — Problema nenhum, gosto do Benny. — Sorri. — Seus pais também gostaram dele. — Escarneceu. — Acho que vão adotá-lo… Melhor tomar cuidado. Mordi o lábio, mas não consegui segurar o sorriso. Me inclinei para ele, apoiando os cotovelos nos joelhos, vi seus ombros encolherem um pouco, mas manteve a pose como sempre. Senti o cheiro do seu perfume de sempre, mas estranhamente senti falta do aroma suave de cigarro. — Sua camisa. — Apontei, ele baixou os olhos. — Nunca vi uma dessas. Seu rosto corou um pouco, passou a mão sobre o dragão no peito. — É de um artista que gosto… — Murmurou. — Vexx. Suspirei feliz, já sabendo onde gastaria minhas horas fazendo pesquisa mais tarde. — Ele é um artista belga. — Continuou, a voz mais firme. — Faz uns grafites mais vívidos, misturando vários estilos de desenho. — Ergueu os olhos, meio tímido, mas ainda quentes para mim. — Tenho algumas tatuagens… Inspiradas na arte dele também. Ergui as sobrancelhas. — Posso ver? — Não escondi minha curiosidade. Ele esticou a perna na minha direção, sem se importar com a grama sujando seu tênis, se inclinou e puxou a barra da calça. Um tigre azul com detalhes rosa dominava a pele, o pelo com vários personagens coloridos misturado com flores, naves espaciais e a palavra “fearless” na lateral do corpo. Da mesma forma que o dragão estampado na sua camisa, o tigre misturava realismo e cartoon, mas o tigre tinha as feições felinas mais reais, parecia prestes a atacar. — Tem um significado? — Pergunto, me segurando para não passar os dedos pela arte. — Coragem. — Respondeu, o tom sério mas a voz bem suave. — Determinação, raiva, a busca de algo… — Deu de ombros. — Depende do meu humor. Me demorei no desenho, decorando cada detalhe. — Combina com você… — Meus olhos se ergueram, ele me observava com atenção. — É bem bonito. Ele recolheu os lábios, escondendo o sorriso tímido, baixou a barra da calça e se ajeitou na cadeira. — Você e o Ribeiro brigaram? — Seus olhos foram até o outro lado do quintal, olhei na mesma direção, vendo Mateus sentado numa mesa mexendo no celular, a cara fechada, seu olhar veio até nós e se desviou rápido. — Ele está estranhamente comportado. Cocei a nuca. — Dei uma bronca nele… — Confessei. — Mas nada que não vá superar. Tomás se voltou para mim. — Qual o motivo? — Ele mordeu o lábio inferior suavemente. — Se não quiser falar, tudo bem… Respirei fundo. — Ele ficou meio doido quando viu suas tatuagens. — Apontei seu braço. — Falei pra ele deixar quieto e não te perturbar com isso. — Sorri sem jeito. — Não é da conta dele. Ele ergueu as sobrancelhas. — Uau, me defendendo do seu amiguinho… — Debochou, mas senti uma pontada de satisfação. — Eu devo ser muito especial. Não perdi tempo. — É sim. Seus olhos se arregalaram, as bochechas ficaram completamente coradas, virou o rosto rápido, apoiou o cotovelo na mesa ao nosso lado e cobriu a boca com a mão, tentando disfarçar. — i****a… — Resmungou baixinho, me fazendo rir. Antes que pudesse continuar o provocando, minha irmã e a amiguinha dela chegaram correndo com canetinhas nas mãos. — Tomi! — Barbara gritou, ele se voltou para ela, o rosto voltando à porcelana de sempre. — Eu e a Penélope podemos pintar os desenhos nos seus braços. Tomás nem respondeu, apenas ofereceu os braços com a arte em tinta preta. Minha irmã e a amiguinha dela deram um gritinho, destampando as canetinhas e começando a rabiscar na pele dele enquanto riam sem parar. Ele deu um sorriso pequeno, não se importando com o glitter e nem com a bagunça de cores que faziam na sua pele. Me recostei na cadeira, apreciando a cena mais adorável que já presenciei na minha vida.
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