Capítulo 14: Presente inusitado.(Parte2)

1446 Words
Depois da gritaria, do parabéns e da Barbara louca para abrir os presentes, vieram os pais buscando suas filhas, aos poucos o silêncio retornou, o quintal ainda cheio de balões e mesas montadas com toalhas de papel rosa manchadas de glacê, aos poucos dobrando as cadeiras que meus pais alugaram para devolver à loja. Mateus estava mais tranquilo, ainda bem quietinho, me ajudando a dobrar as cadeiras com meu pai, Benny se ofereceu para ajudar, mas depois do meu pai negar três vezes, acabamos aceitando. Tomás estava sentado tranquilo numa mesa, não levantou um dedo para tentar ajudar, como um verdadeiro príncipe, braços ainda marcados com as cores que Barbara escolheu para sua pele, não parecendo ter pressa para limpar. Depois de dobrar quase todas as cadeiras, me sentei ao lado do Tomás, Benny sentou perto dele e Mateus sentou na cadeira que sobrou. Quatro adolescentes em uma mesa de plástico alugada, ainda com uma toalha de papel rosa e sem o enfeite de flores, provavelmente alguma mãe das amiguinhas da Barbara levou. — Nossa, faz a-anos que não me di-divirto assim! — Disse Benny do seu lugar, levemente corado. — Sua irmã go-gostou mesmo do ursinho? — Gostou sim — Garanti, depois me virei para o Tomás. — Ela amou seu presente, por sinal. O desenho do Tomás era numa folha A4, que pôs numa moldura rosa com detalhes em glitter, algo que combinava demais com a Barbara. O desenho era a lápis, sem cores, minha irmã desenhada no centro do papel, rodeada de folhas, flores e borboletas bem detalhadas, quase parecendo vivo. Mesmo tendo visto minha irmã só uma vez, conseguiu retratar o rosto de Barbara, num sorriso sapeca com a janelinha e os olhos doces, bem fiel a original. A desenhou usando um vestido feito de pétalas que iam até os pés, a saia bufante como de uma princesa. No cabelo preto, que estava numa trança e a franja esvoaçando igual ao vestido, havia uma coroa delicada. Para completar, Tomás colocou asas de borboletas enormes nela, se olhasse muito tempo seria capaz de acreditar que ela sairia do papel voando. Havia carinho e cuidado ali, como toda arte que fazia. O jeito que fez minha irmã mostrava que se importava, e isso aquecia meu peito de uma forma absurda. Tomás deu de ombros. — Não foi nada… — Murmurou sem jeito. Um sorriso surgiu no canto dos meus lábios, ele poderia parecer indiferente, mas sabia que era muito mais do que isso. Notei meu amigo balançando a perna, agitado, doido para falar alguma besteira. — Então… — Mateus titubeou, apoiou os braços na mesa, se inclinando um pouco para o Tomás. — Você tem tatuagem. Ele cruzou os braços, um sorriso de desdém bem desenhado no seu rosto. — Perspicaz como sempre, Ribeiro. — Debochou. Meu amigo franziu o cenho. — O que é “perspicaz”? — Perguntou, se virando para mim. — Vindo dele, não parece bom… — Deixa pra lá… — Tomás resmungou, enfiando a mão no bolso da calça e tirando um pacote de cigarro. Mateus arregalou os olhos, o vendo tirar um cigarro e um isqueiro do pacote, colocar um na boca, acender e, para tudo ficar ainda mais absurdo, oferecer o pacote ao Benny, que aceitou sem dizer nada, acendendo um para si com um isqueiro que tirou do próprio bolso. Meu amigo olhou para os dois, incrédulo. Fiquei surpreso em ver Benny tragar o cigarro com tranquilidade, relaxando na cadeira ao meu lado, brincando com seu isqueiro na mão. — Você… — Mateus balbuciou pateticamente, apontou para Tomás e então para Benny. — Vocês fumam?! — Sempre atento… — Tomás resmungou, guardando o pacote de cigarro no bolso. Benny ficou corado demais, a fumaça saindo dos lábios suavemente. — S-só fumo quando e-ele oferece… — Murmurou sem jeito, claramente mentindo, o cigarro entre os dentes. Mateus abriu a boca, fechou, abriu de novo. — Você é tipo o Theodore do “Alvim e os Esquilos”! Como assim você fuma?! — Balançou as mãos para o Benny em desespero. Revirei os olhos, estava prestes a dar uma bronca no i****a, mas Benny riu, se divertindo com a reação do Mateus. — Se eu sou o Theodore, Tomás é o Simon. — Disse, para minha surpresa, sem gaguejar uma vez. Tomás riu baixo, segurando o cigarro entre dois dedos, soprando a fumaça com tranquilidade. — Beleza, eu sou o inteligente, você é o fofinho… Mas quem é o líder? — Brincou, fazendo o amigo dar de ombros. — Eu, com certeza. — Soltei, fazendo Tomás me olhar com uma sobrancelha erguida. — Sua síndrome de protagonista não me surpreende mais. — Desdenhou. — Ei! — Me fingi ofendido, mas ele apenas riu, não uma risada contida, uma solta e gostosa, do jeito que gostava de ouvir pelo celular, mas ao vivo era mil vezes melhor. Nós três rimos, Mateus bufou, irritado por ser deixado de fora da própria piada. — Legal, você tem uma banda e eu nem faço parte. — Resmungou, cruzando os braços e afundando na cadeira, fazendo um beicinho igual a uma criança que não ganha atenção. — Você é o Dave. — Tomás apontou. — Vive gritando com o Alvin. Mateus balançou, considerando, um sorriso b***a surgindo nos lábios. — Sou o empresário, legal… — Apontou para nós. — Vou explorar todos vocês e ficar rico! Agora éramos quatro adolescentes rindo de uma piada i****a de uma banda imaginária de esquilos, se me dissessem no início do ano que eu acabaria aqui, teria rido da pessoa, mas no fundo adorando a possibilidade de ser tão próximo do príncipe gelado. Jogamos conversa fora, como se fôssemos velhos amigos, era diferente do que estava acostumado. Eu ria de verdade, prestava atenção, não sentia que precisava ter uma reação específica e nem agradar ninguém. Podia falar besteira, cometer erros, podia… Ser sincero. — Meninos. — Minha mãe chamou, nos fazendo virar. — Ainda sobrou bolo, querem? Benny apagou o cigarro pela metade no pratinho de papel à sua frente e se levantou, Mateus já estava a caminho da porta. — Não quero ver uma bituca de cigarro na piscina! — Minha mãe avisou, um olhar sério para o Tomás. — Sim, senhora Moretti. — Concordou, puxando o prato de papel e batendo as cinzas nele. — Já disse para me chamar de Lúcia! — Ela balançou a cabeça, tentando lutar contra um sorriso, mas logo entrou com os outros dois esfomeados, nos deixando sozinhos. Tomás tragava pacificamente, olhando ao redor. Eu olhava para ele, apreciando sua calma. Seus olhos encontraram os meus, seu rosto corou um pouco, baixou os olhos, se concentrando em fumar. — Não precisa me esperar… — Resmungou, a fumaça escapando com as palavras. — Eu quero. — Disse, apreciando seu sorriso tímido. Ele não demorou a terminar seu cigarro, o apagou no pratinho de papel, dobrando para as bitucas não voarem para a piscina. — Vamos? — Perguntou, já se preparando para levantar. — Espera. — Pedi, Tomás me encarou confuso, me inclinei para ele, que travou, mas não se afastou. — Seu cabelo. Ele franziu o cenho, ergueu a mão até o cabelo, mas fui mais rápido. Meus dedos deslizaram pelo cachinho rebelde que caía sobre sua testa, suas bochechas ficando rosadas enquanto me demorava, só querendo ter um pouco da sensação enquanto fingia ajeitar. — Seu cabelo é bonito. — Sussurrei. Ele abriu a boca para retrucar, mas nada saiu, seu pomo de adão estremeceu, o rosto ficando ainda mais vermelho. Meus olhos nos seus, o coração batendo rápido demais, a ponto de pensar que ele seria capaz de ouvir, os pensamentos correndo em disparada. Se eu me inclinar mais, ele vai fugir de novo? Ouvi alguém pigarrear, me virei e vi Mateus no batente da porta, nos observando. Soltei o cachinho de Tomás e me afastei, sentindo meu rosto aquecer, a respiração travou. Esperei que fizesse um comentário, uma piada, ou até mesmo uma pergunta que não queria responder, mas não. — Sua mãe… — Mateus começou, seus olhos indo de mim para Tomás e voltando. — Disse que se demorarem, a Barbara vai acabar com o bolo inteiro. Afirmei. — Já estamos indo… — Murmurei. Tomás levantou da cadeira sem dizer nada, andou rápido, com as mãos no bolso, passando pelo Mateus enquanto olhava para os próprios pés, as pontinhas das orelhas vermelhas. Meu amigo me encarava, mas não dizia nada, depois de um momento, apenas se virou e sumiu para o interior da minha casa. Meu coração estava travado e com uma certeza… Não sou o melhor em guardar segredos.
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