Capítulo 5: Fora do mapa.

2189 Words
Segunda ou terceira aula, acho, meu caderno completamente em branco, nem sei que aula estamos, mas quem se importa? Nunca me diverti tanto conversando com alguém e T. Prado responde com segurança, ironia e uma sinceridade que mexia demais comigo. Tomás não me deixava esperando, era interessante, fazia querer saber mais e mais sobre ele, seus gostos, transformava qualquer assunto em algo que valia a pena prestar atenção. Noto o professor me observando, claramente irritado, lhe ofereço um sorriso educado, finjo copiar a matéria, mas só rabisco qualquer coisa enquanto mantenho o celular escondido embaixo da mesa, até ele voltar ao quadro e explicar a matéria, então me volto ao meu celular de novo. Mateus cutucou o meu braço outra vez, olho para ele irritado. — Que foi agora? — Sussurrei. — Sou a última pessoa da terra que reclamaria por você não tá nem aí pra aula, eu mesmo nem sei pra que é essa revisão… — Sussurrou de volta. — Mas hoje você tá demais. Ergo as sobrancelhas, decido que a melhor atitude é me fazer de sonso. — Não sei do que tá falando. — Corta essa. — O ruivo faz uma careta, me olhando como se fosse óbvio que estou escondendo alguma coisa. — Pra quem cê tá mandando mensagem? Tá assim desde a primeira aula, digitando sem parar… Viro a tela do meu celular para baixo, instintivamente, pressionando contra a lateral da coxa. — Ninguém. — Murmuro na defensiva. — Qual é… — Ele tentou espiar meu celular, mas afastei o aparelho dele. — Vai, me conta! Eu sei que você tá mandando mensagem pra alguém… — Deixa de ser fofoqueiro. — Reclamei, logo senti os olhares dos outros alunos nos olhando, tentei disfarçar, mas Mateus levou a mão ao peito, fazendo a expressão mais ofendida do mundo. — Eu não sou fofoqueiro! — Falou com uma entonação digna de novela. — Mateus Ribeiro. — O professor chamou a atenção dele. — Para de fofocar durante a aula. A classe inteira começou a rir do meu amigo corado, fingi que não tinha nada a ver com isso. — Foi m*l… — Ele deu um sorriso sem graça e voltou para o caderno, fingindo copiar. Quando o professor deu as costas novamente, Mateus se voltou para mim de novo, falando mais baixo que antes. — Por que tá fazendo mistério? Oh, praga… — Aquela vez que te contei que ia passar o fim de semana sozinho, meus pais e minha irmã iam visitar minha avó e eu te pedi para não contar pra ninguém, lembra? — Ergui uma sobrancelha para ele. Mateus fez outra careta, dessa vez de culpa. — Olha, eu… — E você chamou a escola inteira pra fazer uma festa… Na minha casa? — Completei. — Em minha defesa, eu só contei pro pessoal do time… E o seu quintal é bem grande, tem até piscina! — A sua defesa não serve de nada depois que minha irmã achou a Barbie dela chamuscada na churrasqueira. — Disse sério, mantendo o tom baixo. — Ela ficou traumatizada. — Isso não foi culpa minha! — Mateus Ribeiro. — O professor o chamou novamente. — Último aviso, se não, vou te pôr para fofocar com o diretor, é isso que você quer? Outra onda de risadas pela sala, notei Tomás olhando por cima do ombro, Benny estava tampando a boca, os dois adorando ver meu amigo passando vergonha. — Ah, professor, ele ia adorar… — Digo sugestivo, vendo Benny arregalar os olhos e Tomás erguer as sobrancelhas divertido, enquanto o resto da classe não entendia o que eu quis dizer. — Cala a boca… — Mateus murmurou, sem jeito. Por sorte, o assunto morreu, voltei minha atenção ao celular. T. Prado: Falando em idades, quantos anos você tem? Kingsley: Tenho 18. T. Prado: Faço 18 daqui a algumas semanas. Penso um pouco e uma dúvida me vem. Kingsley: Quando você começou a tatuar? Pela sua arte, não parece algo recente… T. Prado: Comecei a trabalhar ano passado, mas comecei o treino em pele sintética com 15. Kingsley: Isso é absurdo! (No bom sentido) Com 15 anos, eu nem sabia o que queria jantar, e você já começando uma carreira. T. Prado: KKKKK, é uma forma interessante de ver as coisas, às vezes praticava na pele do meu próprio braço e pernas. Pisquei algumas vezes, isso significava que… Tomás tinha tatuagem? Ergui os olhos, encarei a nuca do Tomás por alguns segundos. Nunca o vi com os braços de fora, nas aulas de educação física sempre usava um moletom e uma calça de exercício, nunca uma bermuda, um short, nem regata, independente do clima que fazia. Kingsley: Sério? Então, você tem tatuagem? T. Prado: Um tatuador sem tatuagem é como um açougueiro vegano. Ergui as sobrancelhas, fazia sentido… Kingsley: c*****o, você começou bem cedo. T. Prado: Quando é pra ser, só acontece. Kingsley: E a história? Não vai me contar como começou? T. Prado: Tá curioso? O sinal toca, o professor fala algo sobre revisar a matéria para um teste semana que vem, mas os alunos já estão saindo da sala sem nem prestar atenção. — Finalmente, tava morrendo de fome… — Mateus murmura, se levantando da cadeira do meu lado e se espreguiçando. Baixo os olhos para a mensagem. T. Prado: Resumindo, tava desenhando no shopping e uma mulher doida me viu, se apresentou e disse que eu tinha talento… — Você vem ou não? — Mateus me chamou, impaciente. Me levantei e o segui para fora da sala, passei ao lado da mesa do Tomás, que estava organizando os cadernos na mesa, enquanto Benny tagarelava ao lado dele. — … Sério? Não vai me contar pra quem você tá mandando mensagem desde a primeira aula? Ouvi Tomás bufar, os olhos focados no material. — Um cara aí… — Respondeu, calmo e seco. — Não é ninguém importante. Sinto uma fisgada no peito, mas atrás de mim, ouvi Benny suspirar dramaticamente. — Você não sorri assim por ninguém! Mordi o lábio inferior para conter o sorriso que brotou teimosamente no meu rosto, aquela fisgada no peito some na hora. No corredor, Mateus e eu nos reunimos com alguns membros do time, andamos até o refeitório, os outros alunos nos dando espaço para passar como sempre. Saquei meu celular do bolso, voltei a mensagem que Tomás havia enviado. T. Prado: … Ela me chamou para ir ao Inkhell, me apresentou ao dono e me fez mostrar meus desenhos. Me ofereceu um curso, em troca, trabalharia lá como seu aprendiz. Kingsley: Isso é incrível! Peguei um sanduíche na cantina e um suco, nem vi de qual sabor, mas dava para ver que era aguado. Sentei-me à mesa com os outros caras, eles falavam sobre uma ida à praia ou algo assim, mas nem dei atenção. Peguei o celular mais uma vez, com o sanduíche a meio caminho da minha boca, mas parei ao ler a mensagem. T. Prado: Na real, eu recusei na hora. Larguei o sanduíche ao lado do suco que mais parecia água, me voltei à mensagem, as perguntas pipocando. Kingsley: O quê? Como assim? Por quê? T. Prado: Desenhar sempre foi um hobby, nada mais que isso, mas o dono não aceitou. Ele tinha um brilho estranho no olhar, algo como orgulho, talvez? Falou que eu tinha potencial e não deveria jogar fora… O cara tava empenhado em me convencer. Teimoso pra c*****o, não me deixou em paz. Depois de algumas semanas, me ligando, mandando mensagem, insistindo pra eu dar uma chance, acabei aceitando… Foi a melhor decisão que tive. Sorrio imaginando como foi… O dono do lugar, esse velho tatuador, vendo tanto potencial num moleque franzino de quinze anos, como algum tipo de pai orgulhoso vendo o filho segurar uma agulha pela primeira vez. Kingsley: Mas não entendo… T. Prado: O quê? Kingsley: Tipo… Claramente você tem talento, por que recusou essa oportunidade quando te ofereceram? A resposta demorou, olhei para a mesa do canto, onde Tomás se sentava com Benny e os outros nerds. Seus olhos castanhos no celular, provavelmente aberto no nosso bate-papo, têm uma expressão séria e pensativa. Ele fechou os olhos por um momento, passou os dedos pelo cabelo alinhado, ajeitando qualquer fio fora do lugar, mas nada estava bagunçado, pelo menos não por fora. Com a outra, começou a digitar, logo meu celular vibrou com a resposta. T. Prado: Não era nem para eu ser artista. Encaro meu celular, quero entender, sinto que é importante, algo que não deve ser ignorado. Kingsley: Como assim? Demora uns bons segundos, meus olhos atravessam o refeitório novamente, mas a mensagem chega antes que meus olhos o encontrem. T. Prado: História pra outro dia. Ele deu um passo para trás, consigo sentir, tem algo ali, nas entrelinhas, martelando entre as palavras. Penso em insistir, mas não posso arriscar afastá-lo agora. Kingsley: Só não esquece de contar um dia, fiquei curioso. E, pra minha surpresa… T. Prado: King curioso, anotei. King… Imagino o Tomás me chamando assim, no seu tom baixo, calmo e suave. Kingsley: Prado, você me instiga. T. Prado: assim mantemos as coisas interessantes. — E aí, Moretti? — A voz do Mateus me puxa de volta. — Vai comer esse sanduíche? — Pode ficar. — Respondo, sem tirar os olhos do celular. — Tão prestativo… — Ele ironiza. Mas eu nem escuto direito, porque do outro lado da tela… T. Prado: Se você tem 18, provavelmente estuda, né? Merda, ele mudou de assunto e chegou minha hora de ser interrogado. Olho ao redor do refeitório, Mateus ri com o pessoal do time sobre alguma piada i****a. A Letícia encosta a cabeça no ombro dele, está distraído demais para me fazer perguntas que não quero responder. Respiro fundo e me volto à mensagem, não quero mentir, mas não posso revelar muito, posso acabar me entregando e aí fodeu de vez. Kingsley: Ainda estudo e odeio exatas com todas as forças… Tipo, se vejo um número com letra do lado, eu saio correndo em desespero. T. Prado: Pior que eu também estudo, odeio a escola com todas as forças, mas não pelas matérias… Kingsley: Deixa eu adivinhar… Você é o inteligente que tira as melhores notar. Ele visualiza, mas a resposta demora, fico tenso, penso se fui longe demais, se toquei num ponto onde não devia, mas a resposta finalmente chega. T. Prado: Perspicaz, meu problema não são as matérias, são as pessoas. Sorrio de lado, sinto que estou chegando em outra parte importante sobre ele, o deixo continuar. T. Prado: É graças a elas que tenho o apelido mais i****a do mundo na escola. Kingsley: É a regra das escolas, se você não tem apelido r**m, provavelmente é o cara que deu o apelido em alguém. T. Prado: Faz sentido, mas acho que a parte mais i****a da escola é a hierarquia. Kingsley: Hierarquia? T. Prado: Todo mundo separado como se fosse um zoológico social, sempre foi assim e ninguém tem coragem de mudar. Levanto os olhos e, por um instante, vejo o que quer dizer. O mapa invisível do refeitório, cheio de linhas traçadas a giz que ninguém ultrapassa. No canto esquerdo, perto das janelas, tem o povo da robótica, os nerds da olimpíada de matemática numa mesa ao lado, a galera da banda do outro, depois poesia, clube de debate e teatro. Tudo ao redor da mesa dos nerds mais conhecidos, tipo o Benny, Tomás e Akemi, que é a vice-presidente do clube de desenho. Ela parece um desenho japonês ambulante, com seu cabelo roxo comprido e olhos puxados marcantes; pelo que sei, Tomás é presidente do clube de desenho. Os três que parecem pertencer a mundos diferentes, mas não se encaixam direito em nenhum e acabam se unindo na estranheza de ser quem são. Do outro lado, onde estou, os atletas. Basquete, futebol, natação… As namoradas dos atletas, ex ou futuras namoradas, parecem se revezar entre si para ver com qual cara fica melhor namorar naquela semana. Os riquinhos numa mesa só deles ali do lado, filhos de médicos, advogados, pessoas que nunca vão se preocupar com grana na vida. Olho pra eles… Para o Mateus, que zoa um cara da natação, para o Pedro, que tá mais preocupado com o número de seguidores da ex-namorada do que com a própria comida, para Letícia, Ingrid, Lorena, que vivem ensaiando sorriso falso pra todo mundo que passa. O que tenho em comum com essas pessoas? O corpo treinado? O sorriso fácil? O talento pra fingir que nada me atinge? Kingsley: Você se sente meio deslocado também? Como se estivesse num lugar que não faz mais sentido… Nem se lembra de como foi parar ali? T. Prado: Sempre. Kingsley: Bom… Pelo menos você desenha, eu só finjo bem. T. Prado: Fingir também é uma arte, talvez você seja artista e não saiba… Mas sabe a melhor parte disso? Franzo o cenho. Kingsley: Qual é? T. Prado: Você não tá sozinho. E aí, sorrio outra vez, meio perdido, porque pela primeira vez em muito tempo… Alguém me vê além do que todos acham que conhecem e não espera nada de mim.
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