Capítulo 10: Um convite.

2117 Words
Coloquei o novo desenho na parede, não escondido, como qualquer bilhetinho com declarações toscas que ganho na escola, esquecido e amassado no fundo de uma gaveta qualquer, pegando poeira. Não mesmo. Comprei duas molduras azuis, uma para Frank, meu coelho sinistro e filosófico favorito, e outra para o novo desenho. As colei na parede do meu quarto com fita dupla face, bem acima da escrivaninha, ao lado do meu mural de fotos, onde poderia ver sempre que sentava ali. Encarei os detalhes, impressionado, era quase uma foto, mas com alma, um cuidado de alguém que me enxergava além da pele. Além do uniforme do time de basquete, por trás do meu sorriso fácil que oferecia a todos, Tomás me enxergava mesmo, notava isso pelos traços, me fazendo sorrir toda vez que olhava para o desenho. Meu celular vibrou, me tirando dos meus pensamentos. Olhei a tela, mensagem do Tomás. Prado: Consegui agradecer a ele. Me ajeitei na cama, já com o celular na mão e um sorrisinho nos lábios. King: E como foi? Prado: Ele não riu da minha cara, isso já é uma vitória pra mim. Meu coração apertou. Tomás… De onde vinha essa insegurança toda? Tinha tanto a dizer, queria tanto poder confortá-lo, garantir a ele que podia se abrir, faria qualquer coisa para poder diminuir essa distância e demonstrar que não tinha porque ter medo de estar perto. Mas, naquele momento, eu era o King, um desconhecido da internet que Tomás confiava porque tinha certeza de que eu não fazia parte da sua vida real. E esse era o meu maior desejo… Fazer parte. King: Duvido muito que ele riria de você, na boa. Prado: Mas o amigo dele… King: O que tem? Prado: É tipo o bobo da corte da escola, então, sei lá, né? Mateus, seu desgraçado… King: Ok, justo… Então, uma ideia simples me veio. Tomás gosta de mim, sei disso, sentia o mesmo e ele nem fazia ideia do que eu sentia. Como King, um desconhecido que Tomás confiava, posso não só conhecer melhor ele. Posso, além de aconselhar, também dar um empurrãozinho. King: Mas mesmo assim você devia se aproximar dele. A resposta veio rápido demais. Prado: Tá doido? Nem fodendo… Revirei os olhos, frustrado. King: Por que não? Prado: O cara é hétero, seria perda de tempo! Ele é tipo… Ridiculamente popular, sério! Fica com uma garota diferente todo dia e rodeado de gente que odeio! Fiquei olhando aquelas palavras por um tempo, aquilo doía. Era sobre mim, me importava com a forma que me via, e pior… Eu também já achei isso de mim mesmo. Prado: E mesmo que existisse uma ínfima chance dele ter interesse em caras, o que duvido muito, você realmente acha que eu seria o tipo dele? Você é exatamente o meu tipo! King: Ou você pode estar perdendo uma coisa importante pensando assim, tipo… Muito importante. Prado: Fala sério. King: Muito sério. Prado: Mas e você? Franzi o cenho. King: Eu? Prado: Você gosta de alguém da sua escola, né? Você já tentou falar com ele? Respirei fundo, decidi ser sincero. King: Sim. No começo, eu não sabia como me aproximar, tinha medo dele me rejeitar, mas… Tomei coragem e fui. Agora a gente conversa o tempo todo, é muito bom. :) Prado: Então, deu certo pra você? Fácil assim? King: Sim, por isso mesmo tô dizendo… Tente, o que você tem a perder? Nada por um tempo, achei que não me responderia mais, que o tivesse irritado. Depois, uma única frase. Prado: Tá, vou tentar… E dormi naquela noite com o peito cheio de uma coisa que nem o nome sabia ainda. ********************************************************************************************************** Na segunda, na aula de biologia, o professor estava empolgado demais falando sobre a lei de Mendel. Já estava fora do ar há um bom tempo, até ouvir: — Vamos trabalhar em duplas hoje no laboratório. Imediatamente, vários colegas meus se levantaram de suas mesas e procuraram alguém para fazer duplas; Mateus se virou na minha direção, levantou a mão com a palma virada para baixo, balançando os dedos para mim. — Vambora, dupla de ouro! — Ficou esperando que eu fizesse o mesmo cumprimento, mas nem olhei para ele. Porque vi Tomás se levantando a duas mesas de distância, se virando e, com passos hesitantes, veio na minha direção. Cada centímetro dele parecia tenso, como se estivesse tentando não tropeçar no próprio nervo, os olhos baixos e as mãos enfiadas nos bolsos da calça social. Benny, lá na frente, observava com aquele sorrisinho de quem sabia de tudo. A sala toda começou a cochichar. — Ele tá indo aonde? — Alguém atrás de mim perguntou. — Por que ele tá indo até ali? — O príncipe gelado vai falar com alguém? Tomás parou ao lado da minha mesa, por um segundo não disse nada, todo mundo olhando, ele respirando fundo, provavelmente se concentrando para não gaguejar Me adiantei. — Eu faço dupla com você. — Falei, com a voz mais leve que consegui, já me levantando. Ele me olhou rápido, os olhos castanhos quentes e surpresos. Fiquei meio sem ar, mas logo piscou e os olhos se afastaram de mim e assentiu devagar. — Certo. — Respondeu, simples. Mas ali, naquela palavra curta, havia um “obrigado”, “eu tô tentando” e, o mais importante, “eu vim por você”. E isso, para mim, foi tudo. O acompanhei para fora da sala, em direção ao laboratório com as outras duplas já decididas, ignorando o Mateus, como vinha fazendo nas últimas semanas. Ele falou alguma coisa sobre “heróis ficarem juntos”, ou sei lá, uma piada i****a. Só ergui a sobrancelha e fui direto sentar com o Tomás. O silêncio entre a gente era… Confortável. Quer dizer, para mim estava confortável, Tomás estava corado demais, parecia que ia explodir a qualquer momento. A gente ia analisar células vegetais no microscópio, desenhar o que via e responder umas perguntas numa folha de exercício. Mateus, sem outra opção, acabou se enfiando com o Benny. — É o dia dos nerds, pelo visto — Disse, se sentando ao dele no laboratório. Benny ficou vermelho até a raiz do cabelo. Na nossa mesa, o Tomás arrumava o microscópio, ajustava as lentes, mas parecia meio frustrado. Ele tentou olhar por alguns segundos, bufou. — m***a — Murmurou, afastando os olhos e ajeitando os óculos. — Tá tudo bem? — Perguntei, chegando mais perto. — É... o ângulo é r**m com esses óculos. — Ele passou a mão no cabelo perfeitamente arrumado com gel, irritado consigo mesmo. — Acho que vou só desenhar do que me lembro das imagens da apostila. Fiquei em silêncio por dois segundos, depois me abaixei e olhei na lente. As células estavam lá, retangulares, esverdeadas, uma ou outra com núcleo aparente. — Ei… — Falei, ainda olhando — Tem umas estruturas verdes… Parecendo pequenos quadradinhos dentro de cada célula, o que o professor falou… Cloroplasto, né? — É. — A voz dele soou mais próxima. Continuei descrevendo, Tomás rabiscava na folha conforme eu falava. Até que, do nada, com a voz mais baixa do que o normal, se virou para mim. — Você… Gosta de alguma coisa além de basquete? Ergui os olhos da lente e me voltei para ele. Não era o que disse, era o como. Se fosse o Mateus, ou qualquer outro i****a da escola, pareceria provocação. Tomás se arrependeu na hora, vi nos olhos dele. Coçou a nuca, desviou o olhar, a voz saindo um pouco mais rápida. — Digo, não foi uma crítica, é que… Não sei. — Deu de ombros, tentando ao máximo soar indiferente. — Você sempre tá no ginásio, ou com o pessoal do time… É só… Curiosidade mesmo. Uma risada baixa me escapou. — Gosto de xadrez. — Admiti, mais leve. Tomás piscou. — Sério? — Aquele tom perplexo me divertia. — É, desde moleque. — Apoiei o cotovelo na mesa e o queixo na mão. — Estratégia, previsão de movimento, pensar várias jogadas na frente… Me ajuda até no jogo, acredita? Tomás pareceu realmente surpreso, quase encantado. Senti aquele calorzinho que só ele conseguia me causar. — Isso é... Interessante… Xadrez é legal, mas… Nunca fui muito bom, mas gosto. Dei um meio sorriso. — Falta de prática… Eu mesmo jogo com meu pai às vezes, mas queria jogar com outras pessoas, pra ser sincero. Tomás olhou pro caderno, depois para os próprios dedos, que começaram a brincar com a tampa da caneta sobre a folha de exercício. — Se você quiser… A gente podia, sei lá… Jogar, alguma hora, se quiser. — Deu de ombros, de novo. Suspirei, feliz demais. — Adoraria jogar com você. Ele ficou vermelho, do pescoço até a pontinha da orelha. Não me olhou nos olhos, mas sorriu, pequeno, quase escondido, e esse sorriso valeu mais que mil palavras. Então me lembrei de algo, uma promessa que fiz a Barbara no sábado, depois do meu jogo. — Você vai fazer algo sábado agora? — Perguntei. Tomás me encarou curioso e desconfiado. — Não… Por quê? Mordi o lábio, contendo uma risada b***a. — Minha irmã… — Tentei ao máximo me manter sério. — Ela… Quer muito que você vá ao aniversário dela. Ele ergueu as sobrancelhas. — Sua irmã… Barbara, né? Afirmei, ainda com ar de riso. — Ela meio que… Me implorou para que eu te convidasse. — Vi uma sombra de um riso nos cantos dos seus lábios. — E, sinceramente? — Dei de ombros. — Ia ser legal se você fosse. — Seria? — Sua voz saiu com um tom de dúvida misturado com esperança. Cruzo os braços, os apoiando na mesa, me inclinando para mais perto dele, que ficou estático. — Minha irmã gosta de desenhar. — Me lembrei de algo que Tomás disse em uma mensagem. — Na verdade… Você pode fazer um desenho pra ela? De presente? Ele piscou, parecendo surpreso demais. — Eu… Posso… — Pigarreou, desviando o olhar para o caderno. — O que… Ela gostaria? Pensei um pouco. — Ela curte fadas… — Murmurei. — Coisas mágicas… — Ele semicerrou os olhos para mim. — Uma vez me contou que sonhou que era coroada como a rainha das fadas. Tomás arregalou os olhos, um brilho no olhar que nunca vi antes. — Perfeito… — Resmungou, depois, num tom um pouco mais animado. — Já sei o que fazer. Ergui as sobrancelhas. — Fácil assim? — Perguntei, levemente impressionado. Ele pressionou os lábios numa linha tensa. — Bom… Você me deu uma ótima ideia. Nem tentei esconder o sorriso. — Que bom… Ela vai adorar qualquer coisa que você fizer. Seus olhos baixaram para o caderno de novo, um sorrisinho presunçoso nos lábios rosados. — Então… Sua irmã gostou de mim? — Senti uma pontinha de escárnio na sua voz. Não consegui segurar a risada b***a que me escapou. — Ela não calou a boca sobre você o fim de semana todo. — Balancei a cabeça. — Quando viu o desenho que você fez de mim, ficou horas tentando desenhar você. Seus olhos quentes, doces, vieram atentos para mim. — E ficou bom? Ergui as sobrancelhas, passei os dedos pelo cabelo, meio sem jeito. — Ficou parecendo mais um gato pidão, mas… Eu não sou grande entendedor de arte. Tomás revirou os olhos. — Não é necessário entender para apreciar, as melhores coisas não precisam de explicação… — Resmungou, mas logo ficou vermelho, obviamente se arrependendo do que disse. — Eu… Eu quis dizer… — Pô, verdade. — Concordei, antes que me pedisse desculpa pelo que disse. — Tem coisas que te obrigam a olhar duas vezes, coisas que não se entregam fácil são as mais difíceis de esquecer. — Falei sem pensar. Percebi, tarde demais, que disse exatamente a mesma coisa que me contou quando começamos a trocar mensagem. Ele parou e me encarou, uma expressão séria demais no rosto, o silêncio pesou, me deixando tenso. — O quê? — Sua voz saiu baixa demais, meu coração parou por um segundo. Abri a boca para dizer algo, mas nada saiu. — Você… Merda, acabou, ele percebeu, me fodi todo, c*****o! Eu sou muito burro! — … Realmente acha isso? Pisquei, minha alma voltando aos poucos ao corpo. — Acho… — Resmunguei fracamente. Ele sorriu, mas tentou disfarçar, recolhendo os lábios. — Até que você é inteligente, Moretti. Só Tomás era capaz de elogiar e zombar de mim ao mesmo tempo, soltei o ar que nem percebi que estava segurando. — Eu tenho meus momentos… — Brinco, ainda me recuperando. Caralho… Preciso tomar mais cuidado, assim vou acabar sendo pego. E isso não podia acontecer. Pelo menos, ainda não.
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