Capítulo 01

1915 Words
— Você está bem? — Kate me pergunta assim que me jogo no sofá.         — Estou morta — dou uma pausa — Mas estou bem. — Sorrio fraco.          — Você precisa se cuidar, Alison. — Se senta ao meu lado. — Não pode ficar se matando desse jeito no restaurante.          — E o que quer que eu faça? — franzo as sobrancelhas.          — Sei lá — balança os ombros — Pede para ridícula da Elizabeth te dar folga pelo menos uma vez no mês.          — Ela não dar Kate. Na última vez que pedi um dia de descanso porque não estava muito bem, ela quase me matou.          — Odeio tanto ela. — Balança a cabeça negando.           — Não é para tanto. Sei que ela é um saco, mas se não fosse por ela eu estaria desempregada até hoje. — A loira me analisa e sorri.          — Como você consegue?          — O quê?          — Você sempre enxerga o lado bom das pessoas. E isso é muito incrível. — Confessa e é a minha vez de sorrir.          Eu sempre fui assim.            A minha mãe dizia que as pessoas podem ser más. Mas bem lá no fundo, a um pouco de bondade em cada uma delas.          E era exatamente ali que eu deveria me focar.          — Aí — Kate chama a minha atenção — sabe o que podíamos fazer? — me olha com expectativa.         — Se você me disser que podíamos ir numa festa…          — Claro que não Ali. Sei que você está cansada. — Rola os olhos — eu só achei que podíamos fazer pipoca e assistir filmes antigos. Assim você pode descansar. — Encolhe os ombros.         — Bom, eu não vou prometer de que ficarei o filme todo acordada, mas vamos. — Sorrio.          — Ótimo! — dá alguns pulinhos indo em direção à cozinha para preparar a pipoca.           Kate é minha melhor amiga desde sempre.          Na verdade, é minha única amiga.          Ela é como a minha irmã mais velha.           Moramos juntas desde que eu tinha dezessete anos. Agora estou com dezenove e ela com vinte e um. Já se passaram dois anos desde que decidimos comprar o nosso pequeno apartamento aqui em Portland.          As nossas mães também eram melhores amigas no colegial, mas a morte acabou por separá-las.          A mãe de Kate morreu num acidente de avião vindo para cá após uma conferência de trabalho no Texas. Foi difícil tanto para mim quanto para Kate e a minha mãe lidar com a morte da tia Eleonor.          Mas conseguimos superar sua partida.          Dois anos depois dela morrer, a minha mãe foi acometida de câncer. Ela realizou diversos exames e quimioterapia, mas a sua situação só piorou.          Após alguns meses dela sofrendo com a doença, a mesma não conseguiu aguentar a mais um dos diversos tratamentos e acabou indo embora também.            E foi a vez da Kate me consolar.          Fora anos difíceis para nós. Mas nunca desistimos uma da outra. E isso nos faz ser mais unidas do que nunca.          — Alison? — viro-me rapidamente em direção a sua voz — perguntei que filme você quer ver?          — Ãhn… pode escolher. Vou tomar banho. — Me levanto do sofá indo em direção ao meu quarto.          Entro no chuveiro permitindo a água quente descer sobre o meu corpo, sentindo um certo alívio tomar a minha pele.          Enrolo-me na toalha e saio do banheiro, vestindo meu pijama de bolinhas favorito.          Volto para sala e encontro Kate com um balde de pipoca em seu colo enquanto coloca o filme.          — Prontinho — Sorri se ajeitando no sofá e eu me sento ao seu lado. Encosto a cabeça em seu ombro e presto atenção na tela a minha frente, levando algumas pipocas até a boca.          E não demorou muito para eu adormecer ali mesmo.           ❦ ════ •⊰❂⊱• ════ ❦          Sinto a claridade do sol queimar as minhas bochechas me fazendo acordar com o ardor.           Claro que eu tinha que deixar a cortina aberta na noite anterior.           Olho ao meu redor com um pouco de dificuldade e percebo que não estava na minha cama. Eu dormi no sofá?           Ah, claro. Estava assistindo filme com a Kate quando o sono veio.           A lembrança vem à tona na minha cabeça.           Forço-me a levantar e vou em direção ao banheiro. Faço as minhas higienes, penteio o cabelo e me arrumo para mais um dia de trabalho no restaurante.  Pego alguns waffles na cozinha e vou até o quarto de Kate, certificando de que ela ainda estava dormindo e saio do apartamento.          Ando calmamente pelas ruas enquanto olho o pequeno movimento de pessoas seguindo os seus devidos destinos, seja qual fosse eles.          Portland sempre foi uma cidade muito calma, apesar de grande. E o que eu mais amo é o seu clima que não é nem quente, nem frio. É a temperatura perfeita para ter um dia bom e produtivo. Sem falar nos pequenos comércios edificados nela, fazendo-a ficar cada vez mais aconchegante.          Saio dos meus pensamentos e empurro a porta do restaurante, fazendo o som familiar do sino ecoar em meus ouvidos. Tiro meus fones e os guardo, caminhando em direção ao balcão.           Pego meu avental e o amarro atrás da minha cintura, pegando o meu bloco de notas junto com a caneta.     Ouço o sino tocar novamente e olho em direção da porta.          — Bom dia — Sorrio para Elizabeth, que me olha com cara de tédio e resmunga algo que não consigo entender, caminhando até o seu escritório.           Meu dia começou tão bem.           Penso ironicamente.           ❦ ════ •⊰❂⊱• ════ ❦        — Kate? — Termino de limpar a última mesa e a olho, um tanto que confusa. — O que está fazendo aqui?          — Bom, como sou uma ótima amiga, resolvi vir te buscar para irmos para a faculdade.           — Mas eu ainda preciso ir para casa tomar banho.           — Me parece que não vai dar tempo para tal ato. — Olha para seu relógio de pulso com as sobrancelhas erguidas.          — O quê? E que horas são?          — Exatamente seis e quarenta e cinco.          — d***a. — Resmungo bufando — Tudo bem. — Passo as mãos no meu cabelo — Não posso perder aula. Não hoje.          — É você já faltou duas vezes na mesma semana antes das férias de primavera. — Kate me lembra fazendo uma careta.          — É, eu sei — mordo o lábio inferior. — Tá bem, vamos. — Tiro meu avental e o dobro, indo em direção ao balcão.          — Oi, Justin — Cumprimento o garoto ruivo de olhos escuros que trabalhava como barman.          — Ah, oi Alison. — Sorri gentilmente para mim — O que foi?          — Sabe onde a Elizabeth está?          — Ela saiu faz pouco tempo.            — Pode avisar a ela que saí alguns minutos antes do meu expediente acabar porque tenho que ir para faculdade? — pego minha bolsa.           — Claro, eu aviso.          — Obrigada — Sorrio fechado e vou em direção de Kate. — Vamos.      O caminho até a faculdade é rápido, já que o restaurante me que trabalho é apenas algumas quadras de distância do campus.            Suspiro assim que desço do carro e Kate faz o mesmo.          — No que está pensando? — Kate se pronuncia ao meu lado.          Encolho os ombros.       — Só em como vai ser quando concluirmos os nossos cursos.          — Bom, acho que esse vai ser o dia em que poderemos trabalhar no nosso emprego dos sonhos até sermos ricas. — Ri e eu faço o mesmo, balançando a cabeça para os lados. — E quando isso acontecer, vai ser um dia muito especial.          — É, vai ser sim.           — Vamos — Faz um gesto com a cabeça em direção a entrada — Senão iremos nos atrasar. — Diz andando e eu a sigo.           Assim que abro a porta emadeirada cor de caramelo, avisto uma boa quantidade de universitários conversando nos corredores, sorrindo e matando a saudade um dos outros após passar as férias de primavera sem se verem.           Ando ao lado de Kate até ao meu armário — que por sorte é ao lado do dela, — e o abro.           — Tem tanta gente nova aqui. — Olha ao redor, colocando a combinação no pequeno cadeado.           — Eu não conheço praticamente ninguém, então para mim está a mesma coisa. — Pego os meus livros e bato o armário.          Kate ri e encaixa seu material sobre o braço esquerdo.          — É. isso não é novidade vindo de você. Nos vemos no intervalo?          — Claro.          — No mesmo lugar ok? — Se afasta de costas. — Mesa do canto. — Me lembra, sumindo entre a multidão.           Olho ao redor e vou em direção à minha sala.            ❦ ════ •⊰❂⊱• ════ ❦           — Srta. Lawrence? — A professora de anatomia me chama e eu ergo a cabeça para olhá-la. — Está prestando atenção? — Me endireito na cadeira olhando discretamente para os lados, sentindo minhas bochechas queimarem por ter a atenção de todos sobre mim.           — Desculpa Sra. Campbell. — Pigarro tentando não transparecer o meu nervosismo.           — Se eu fosse você prestava atenção nas minhas aulas. Suas notas não estão uma das melhores. — Mordo o lábio inferior já sentindo meus olhos marejados.           d***a ela tinha que falar isso.          Eu sabia que estava cada vez mais me decaindo. A cada semestre que passava as minhas notas estavam abaixando devido ao trabalho no restaurante que estava me deixando sem tempo para estudar.           Mas eu não podia pedir demissão.          Eu tinha um apartamento para pagar e mesmo com Kate me ajudando, estava complicada as coisas. E eu não podia abandonar a faculdade porque eu ainda acreditava que um dia eu iria ser o que eu sempre sonhei desde que tinha seis anos.          — Eu sei, não precisava dizer. — Digo baixo, mas o suficiente para ela ouvir.          — Bom, parece que não, já que desde a hora que entrou está distraída olhando para a capa do livro. — Ouço algumas risadas e múrmuros de alguns alunos, o que me deixou ainda mais desconfortável.          Isso está cada vez mais piorando.           Sinto minha garganta fechar.        d***a eu não posso chorar. Eu não posso chorar. Eu não posso chorar.        E antes que eu perceba, me levanto e saio em passos rápidos da sala indo em direção ao banheiro.         Entro em uma das cabines e me encosto na porta. Fecho os olhos e uma lágrima solitária desce pelo meu rosto, seguida de várias outras.           E naquela altura do campeonato, eu estava sentada no chão chorando o mais baixo que podia para ninguém ouvir. Era inútil chorar por isso. Eu sabia.         Mas eu era fraca o suficiente para não aguentar aquilo sem me derramar em lágrimas.           Eu estava cansada demais para me concentrar na maldita explicação. E eu odiava me sentir desse jeito. Incapaz e fraca.          Não sabia quanto havia ficado ali sentada no chão gelado, mas foi o suficiente para fazer minha cabeça latejar e meus olhos ficarem vermelhos e inchados. Seco meu rosto com a manga da blusa e me levanto. Eu precisava voltar para a aula.          Respiro fundo e coloco a mão sobre a maçaneta, a girando. Quando vou saindo, sinto meu corpo se colidir com algo duro e forte, o que fez minha cabeça doer ainda mais.          Ergo a cabeça e encontro um par de olhos castanhos claros me encarando completamente confuso.          d***a.           É claro que eu tinha que entrar no banheiro masculino.             ❦ ════ •⊰❂⊱• ════ ❦                
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