Capítulo 02

2003 Words
d***a, d***a, d***a! Os olhos do cara a minha frente não se desviam do meu nem por um segundo, o que me deixou uma tanto que constrangida. — É… — procuro palavras para dizer alguma coisa — Aqui é o… — Banheiro masculino. — Me interrompe e sinto o borro vermelho aparecer nas minhas bochechas. — Me desculpa, eu me confundi e acabei… — Se confundiu? — Arqueia as sobrancelhas escuras, como se não acreditasse no que eu estava falando. — É, eu… saí da sala e vim para banheiro, mas acredito que… não entrei no certo. — Mordo o lábio inferior. Eu estava um tanto que com medo de estar ali, sozinha, num banheiro masculino e com um cara que eu nunca vi na vida. Ele poderia tentar alguma coisa. Droga Alison para de pensar no pior. Meu subconsciente fala dentro da minha cabeça. — Vai ficar aqui parada? — Sua voz rouca me tira do transe, fazendo o meu coração errar algumas batidas. — Não, eu… vou indo. — Dou um sorriso fraco, passando pelo mesmo praticamente encolhida, sentindo as minhas pernas ficarem bambas pelo nervosismo. — Presta mais atenção na onde entra. — Me alerta e eu me viro para olhá-lo. — Tem sorte de ter sido eu quem entrou aqui. Poderia ser qualquer outro cara que gosta de tirar proveito das garotas. Engulo um seco e assinto, saindo dali o mais rápido possível. Depois de uma eternidade, o último sinal toca, indicando a saída dos universitários do prédio. Saio da sala e vou ao encontro de Kate, que sempre ficava próximo aos nossos armários me esperando. — Oi — sorri assim que me vê. — Oi — dou um sorriso amarelado e abro o armário. — O que foi? — Nada. — Digo sem olhá-la, colocando os últimos livros no armário e o fecho. — Só estou cansada. — Ela não parecia convencida com a minha resposta, mas decide não insistir. — Bom, então vamos. — Segura a alça da mochila e saímos do edifício. O caminho todo foi um completo silêncio. Exceto pela música eletrônica que passava no rádio. Encosto a cabeça na janela enquanto olho as ruas sendo clareadas pelas luzes dos postes. — O que foi Ali? — minha mãe pergunta risonha enquanto reveza o olhar entre mim e a estrada. Desencosto-me da janela do carro e a olho sorrindo. — Nada — Encolho os ombros. — Por quê? — Você está aí, olhando as ruas, com um sorrisinho bobo nos lábios. No que está pensando? — Em nada eu só… estou feliz. — Não tem nenhum garoto envolvido nisso? — Semicerra os olhos. — Mãe! — Exclamo aos risos. — Qual é Alison! Preciso saber sobre os relacionamentos da minha filha. — Eu sei, mas não precisa pensar que só porque estou feliz tem algum garoto envolvido. — Digo como se fosse o óbvio. — Tudo bem. — Levanta uma de suas mãos que estavam segurando o volante, em ato de redenção. — Eu só… estou feliz por estar aqui com você. — Ela me encara por alguns segundos com seus lindos olhos azuis assim como os meus — Sabe, faz um bom tempo que não ficamos juntas assim. Seu olhar vacila. — É, eu sei. Mas vou te compensar. Eu prometo. — Segura as minhas mãos que estavam pousadas sobre o meu colo. — Alison? — sinto alguém tocar no meu braço e eu saio do meu pequeno transe. — Não vai descer? Olho para frente no mesmo instante. Já havíamos chegado no nosso apartamento. Abro a porta colocando a minha mochila nas costas e subimos para o nosso andar. Assim que entramos no apê, vou direto para o meu quarto tomar um banho. Assim que termino, visto meu pijama e faço um coque no topo na cabeça me sentando na cama. Ouço batidas na porta e resmungo um “entra”. Kate aparece e fecha a porta detrás de si, vindo na minha direção e se sentando a minha frente. — O que foi? — A olho. — Me diz você — Dá de ombros. — O que aconteceu? Respiro fundo. — Kate não foi nada eu… — Alison, eu te conheço mais do que ninguém e sei que tem alguma coisa rolando. Só me diz. Suspiro. — Eu — dou uma pausa — Estou cada vez mais me decaindo — digo olhando para minhas mãos. — Tanto na faculdade quanto no trabalho e eu estou… acabada. — Sussurro sentindo a minha garganta fechar. — As minhas notas estão péssimas e eu nem sei se vou concluir esse semestre. Uma lágrima escorre na minha bochecha e eu a seco rapidamente. — Estou perdida Kate. Prometi para minha mãe que eu teria um futuro brilhante, que eu concluiria a faculdade com sucesso e que eu seria alguém na vida. Mas eu não estou cumprindo nada disso. Tenho dezenove anos e não consegui conquistar nada até agora. — O choro faz com que eu não consiga mais falar. Kate me abraça forte enquanto acaricia as minhas costas. — Ei… tá tudo bem. Vai ficar tudo bem. — Sussurra no meu ouvido — Você não precisa se cobrar tanto. Tudo bem se você não conseguir ter uma das melhores notas na faculdade ou não conseguir o emprego dos sonhos agora. Tá tudo bem. — Se afasta e me olha nos olhos. — Você precisa entender que tudo tem o seu tempo — Segura meus ombros. — E vai dar tudo certo. Tá bem? — Ergue as sobrancelhas e eu assinto mordendo o lábio inferior. Ela me abraça novamente tentando me acalmar. — Vamos passar por isso juntas. Como as nossas mães fizeram. — Tá — Seco meu rosto com a costa da mão. — Só tenta descansar um pouco. Se quiser, durmo aqui com você para não se sentir sozinha. — Tudo bem, não precisa. — Tá bom — deposita um beijo no meu rosto — Me chama se precisar de alguma coisa. — Pousa sua mão no meu braço e eu balanço a cabeça confirmando. — Boa noite. — Boa noite — Sorrio fraco e ela sai do quarto, fechando a porta logo em seguida. Desligo a luz e deito a minha cabeça no travesseiro fechando os olhos. Minha mente vai para o cara de hoje mais cedo. Um frio corre pela minha barriga só de pensar nele. Aqueles olhos castanhos claros me encarando serenamente tão… Droga, por que estou pensando nisso? ❦ ════ •⊰❂⊱• ════ ❦ — Hoje tem jogo — Kate comenta, mastigando seu waffler. — Você vai? — Pergunto, colocando café na minha xícara. — Não sei. Só vou se você for. — Você sabe que trabalho hoje, não é? — ergo as sobrancelhas bebericando meu café. — É, eu sei. Mas se você chegar cedo? Podemos ir? — A expectativa emanava de suas irises. — Ah, eu não sei Kate… — ela me olha com um biquinho já se formando nos lábios. — Tudo bem — Cedo suspirando e a observo bater palminhas e dá pulinhos de alegria. — Mas só se eu chegar cedo. — Advirto. — Tá legal. Vai começar às oito. — Ok— pouso a minha xícara sobre a ilha. — Preciso ir agora. — Pego minha bolsa sobre o balcão — Se cuida. — Você também. — Sorri e eu saio da cozinha, me preparando para minha rotina diária. Assim que atravesso as portas do restaurante, ouço a voz aguda de Elizabeth atormentar os meus ouvidos. — Está atrasada. A olho, intrigada. — Mas eu entro às nove e… — Olho as horas no meu celular — São nove e cinco agora. — Franzo as sobrancelhas. — Eu não quero saber, Alison — O tom da sua voz é firme, o que me faz estremecer. Tento manter a postura. — Eu não tolero atrasos. — Chega bem próximo de mim e sinto o cheiro do seu perfume extremamente doce, o que me fez querer tossir. — Especialmente quando eles vêm de você. — Entendi. Posso começar a trabalhar agora? — Elevo as sobrancelhas. Ela me encara por alguns segundos e balança a cabeça confirmando e eu vou em direção a cozinha. Visto meu avental e amarro meu cabelo em um r**o de cavalo alto. Pego o meu bloco de notas e tiro a caneta de dentro do arame enrolado, começando a atender os primeiros clientes que iam chegando. — Bom dia, o que vão querer? — Sorrio para os dois garotos que aparentemente pareciam ser um pouco mais velhos do eu. — Quero apenas um refrigerante. — O de cabelos escuros, assim como os olhos, diz. — E você? — olho para o garoto loiro e olhos acinzentados. Ele é bem bonito por sinal. Penso. Foco Alison, foco. — Eu gostaria de pedir o número do seu telefone — Sorri torto. — É sério? — Por que não seria? — Me encara maliciosamente. Estalo a língua no céu da boca. — Olha só não me leve a m*l, mas eu não estou a fim. — Tento ao máximo não ser grossa. — Qual é princesa, para de se bancar a difícil. — Umedece os lábios olhando para o meu corpo como se ele fosse um saboroso pedaço de carne, fazendo meu estômago embrulhar. — Eu não estou bancando. Só não tenho interesse algum em você. — Sei que me acha atraente. — Dar um sorriso convencido. — Te achar atraente não significa que quero algo com você. — Rebato e ele me olha como se não tivesse gostado do que eu havia dito. — Sabe, você foi a única garota que me deu um fora assim. — Fala e eu luto para não revirar os olhos. — Talvez seja porque é apenas uma v********a de m***a que trabalha num restaurante como uma garçonete de m***a. — O desprezo era nítido nas suas palavras. — Aí cara, deixa ela. — Seu amigo diz, cutucando seu braço com o cotovelo. — Qual é relaxa, é só uma garota. O que ela poderia fazer? — Debocha, como se eu não estivesse ali. Sinto a raiva consumir todas as células do meu corpo e como se fosse automático, o meu punho acerta seu rosto, fazendo-o se virar bruscamente e logo consigo ouvir alguns múrmuros de susto das pessoas que estavam ali. Ele me olha surpreso com a mão exatamente no lugar onde eu havia o acertado. — Ficou maluca? — Grita, se levantando já com o punho fechados para me acertar. — Não ouse tocar em mim! — Esbravejo e ele congela quase que imediato. E naquele período todos que estavam no restaurante — até mesmo os outros funcionários — estavam parados, olhando aquela cena. Inclusive a minha chefe. Aproximo-me bem dele e o olho dentro dos olhos. — Nunca mais chame a mim ou qualquer outra garota de v***a só porque elas não querem ter nada com um b****a feito você. — Digo entredentes, sem desviar o olhar dele. — E acho melhor baixar a p***a da sua mão se não quer ficar sem ela. — Falo seriamente em um tom de ameaça. O loiro me encara profundamente e eu faço o mesmo. Observo-o se afasta com a respiração descontrolada e olha para seu amigo, que está completamente paralisado. — Se quiser, trago o seu refrigerante. — Direciono a palavra ao garoto moreno, mas ainda com os olhos fixos no loiro. — Não precisa, nós já vamos. — Diz mais do que depressa e arrasta o amigo para fora do restaurante. Encaro a porta de saída e vejo os dois entrando em um carro estacionado do outro lado da rua. Olho ao redor e vejo as pessoas me encarando como se eu fosse uma abominação e logo ouço os passos curtos de Elizabeth virem ao meu encontro. — Na minha sala, agora. — Ordena e eu apenas assinto. É hoje que eu perco meu emprego. ❦ ════ •⊰❂⊱• ════ ❦
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