Capítulo 03

2145 Words
— Qual é o seu problema? — Elizabeth grita com a sua voz aguda, andando de um lado para o outro na pequena sala em que estávamos. — Qual é o meu problema? — Aponto para mim mesma. — Estava me protegendo daquele cara! Ele me desrespeitou! — Elevo meu tom de voz, alterada. — Você não devia! — Aponta com as suas grandes unhas postiças, cor de carmesim, na minha direção. — Você agrediu um cliente! — Ele mereceu! Perguntei educadamente o que ele queria e ele simplesmente me assediou! — Mas você não tinha o direito de fazer aquilo, Alison! — Fiquei com raiva, tá legal? Ele me chamou de v***a! Qual era o problema dele? — Junto as sobrancelhas em confusão. — Não interessa do que ele te chamou! Apenas faça o seu trabalho! — E deixar que me humilhem? — Pergunto com indignação. Ela bufa, como se tentasse não perder mais a paciência comigo. — Não importa o que aconteça, — Me olha séria. — Faça o seu papel como garçonete. E isso inclui não agredir clientes. Caso contrário, diga adeus ao seu emprego. — Diz e eu arregalo os olhos. — Você não pode… — Ah, posso sim. E eu vou, caso aconteça novamente. — Se retira, me deixando sozinha em seu escritório. Encaro a porta branca da qual Elizabeth havia atravessado e fecho os olhos respirando fundo. As coisas realmente, havia passado dos limites. ❦ ════ •⊰❂⊱• ════ ❦ Giro a chave lentamente e abro a porta do apartamento. O decorrer do dia havia sido péssimo. Mas eu havia suportado. — Ah, você chegou! — Kate aparece vindo da cozinha com uma xícara que suponho que seja chocolate quente. — Oi. — O que foi? — Nada só… um dia difícil no restaurante. — Jogo a minha bolsa no sofá e me sento na poltrona macia e confortável. — Eu te conheço Alison, sei que aconteceu mais do que “um dia difícil no trabalho”. Então me conta. — Se senta, bebericando a sua bebida. — O que aconteceu? Respiro fundo. — Foi um cliente. Ele me chamou de v***a e eu dei um soco nele. — Você o quê? — Arregala os olhos, assustada. — Ai meu Deus Alison! — Eu sei, fiz uma loucura. — Comprimo os lábios. — É que fiquei com tanta raiva quando ele disse aquilo e eu só… não queria deixá-lo sair ileso. Ela balança a cabeça em concordância. — Bom, ele mereceu. Se ele não tivesse falado aquilo, não estaria com a bochecha dolorida agora. — Diz e eu rio fraco — E acredite, você não está errada. — Aponta na minha direção. — Eu sei. — Ele foi um b****a. Não devia ter te chamado de v***a. Seja qual fosse os “motivos” dele. — faz aspas com os dedos. — Você tem razão. — Passo as mãos no cabelo — Só vamos esquecer que isso aconteceu, tá legal? — Tá bem — Se levanta — Você vai querer ir ao jogo? — Que horas vai ser mesmo? — Às oito. E agora são — Pega seu celular no bolso de seu short jeans — Sete horas. — Ok. Vamos. — Me levanto e a vejo sair toda contente indo em direção à cozinha. Vou para meu quarto e entro no banheiro, ligando o chuveiro logo em seguida. Me arrumo colocando apenas uma calça jeans escura com alguns rasgos pequenos na coxa e meu suéter de lã branco. Desembaraço os fios do meu cabelo com as mãos os deixando alinhados e coloco meu tênis. Kate aparece na porta do quarto e eu a olho pelo espelho. — Está pronta? — Se encosta no batente branco com os braços cruzados sobre o peito. — Sim — Coloco meu perfume na estante após borrifar em minha pele e me viro para ela — Como estou? — Perfeita — Sorri para mim — Melhor irmos logo. — Se desencosta da madeira. — Está bem — pego meu celular pousado sobre a cama, abandonando o quarto. ❦ ════ •⊰❂⊱• ════ ❦ — Acho que estamos atrasadas — Bato a porta do carro. — Talvez — Alarma o carro, segurando seu café em uma das mãos. — Não estaríamos se não tivesse parado para comprar isso aí. — Indico o copo com o queixo. — Eu sei — Vamos andando em direção a entrada do campo. — Só espero que não tenha começado. — Avisto uma multidão em uma pequena cobertura, tentando entrar na arquibancada. — Bom, parece que não. O pessoal ainda está entrando para conseguir lugar. Chegamos aonde todos estavam e esperamos chegar a nossa vez. — d***a. — Kate resmunga ao meu lado. — O que foi? Vejo-a pegar o celular no bolso de seu casaco com um pouco de dificuldade e noto o mesmo vibrar em suas mãos. — Preciso atender. — Tá, eu posso guardar um lugar para você. — Obrigada. Pode ficar com meu café? — Estende o copo para mim e eu o pego. — Já volto. — Avisa e some entre a multidão. Olho ao redor e só vejo rostos desconhecidos que eu nunca vi em toda a minha existência. Isso que dá em não fazer amigos. Rio internamente. Sinto algo esbarrando em mim me fazendo sair dos meus devaneios e ir para frente bruscamente. Olho para o meu suéter com os olhos arregalados assim que sinto o líquido quente entrar em contato com a minha pele e a mancha marrom de café se espalhar rapidamente sobre o tecido branco. Esse dia não pode piorar. — m***a. — Resmungo entredentes, tentando limpar o líquido escuro. E falhando miseravelmente. Sinto quando alguém pega em meu braço levemente, me fazendo virar no mesmo instante. Engulo um seco ao encontrar mais uma vez os olhos claros que me encararam no banheiro masculino. — Desculpa, não vi você. — Diz e arregala os olhos ao perceber o borro marrom que ele havia causado na minha roupa. — Não, tá tudo bem, não foi nada — Comprimo os lábios totalmente envergonhada, tentando limpar a mancha que ficava cada vez pior. — Isso não vai sair assim. Aqui. — Tira seu casaco e o estende para mim. — Fica com ele até terminar o jogo. — Não eu não posso… — Olha só, eu fiz esse estrago no seu suéter que, aliás, é bem bonito. Isso é o mínimo que posso fazer. Observo ao redor e só agora percebo que uma boa parte das pessoas que estavam ali, estavam olhando para nós. Encaro o cara a minha frente e vejo que ele não se importa com tamanha atenção. Estendo o braço e pego o casaco. — Obrigada. Te devolvo no final do jogo. — Ele apenas assente e sai sumindo entre as pessoas. Visto o casaco que ainda estava quente e sinto o perfume masculino que estava exalando do mesmo. O que me fez ficar viciada em tal. ❦ ════ •⊰❂⊱• ════ ❦ O jogo fora incrível e como sempre, havíamos ganhado. Levanto-me do banco e Kate faz o mesmo. — Isso! — Ela comemora com um sorriso de orelha a orelha enquanto faz uma dança com a cintura totalmente desconhecida por mim. — Nós vencemos! De novo! — Me abraça de lado e eu apenas rio com a sua empolgação. A maioria das pessoas já havia saído da arquibancada, então fizemos o mesmo. Noto quando Kate se afasta e franze as sobrancelhas, olhando para a roupa que eu estava usando. — Que casaco é esse? — Pergunta curiosa, enquanto saímos pelo meio dos bancos. — Reparou isso agora? — É, eu estava tão empolgada com o jogo quando cheguei depois de atender a ligação, que nem sequer me dei conta. — Coça a testa, se sentindo um tanto que culpada por não ter prestado atenção em mim ou no que eu estava vestindo. — Estou brincando com você. — Rio com a sua preocupação. — É uma longa história. Quando você saiu, um garoto esbarrou em mim e derramou café no meu suéter. — Abro o zíper deixando a mancha marrom-claro amostra para Kate, que faz um ''o'' com a boca totalmente chocada. — Esse suéter era tão perfeito! — Comenta ainda encarando a mancha. — Era o meu preferido. — Confesso um tanto que triste. — Mas enfim — Levanto o zíper novamente. — Só preciso encontrar ele agora e devolver o casaco. — Eu só acho que ele devia pagar um novo para você. Do mesmo. — Você sabe que ele não vai fazer isso. — Andamos calmamente em direção ao estacionamento. — É, eu sei que não; — Bom, pelo menos ele me emprestou a blusa dele para eu cobrir o desastre que ele fez na minha. — Era o mínimo que ele podia fazer. Quem é o garoto? — Eu não sei o nome dele. — Como ele era então? Possa ser que eu conheça. — Ele tinha… — Olho para um ponto qualquer tentando descrevê-lo. — Ele tinha cabelos escuros… olhos castanhos claros… era alto e tinha tatuagem, se eu não me engano. — Analiso Kate, que está alguns passos atrás de mim congelada no lugar e com os olhos arregalados, me olhando fixamente. — O que foi? Parece até que descrevi um fantasma. — Você não tem ideia com quem está se metendo, — Sussurra alto o suficiente para eu ouvir. — Do que está falando? Você o conhece? — Aproximo-me da loira. Ela fica em silêncio por alguns segundos. — O nome dele é Zac — Dispara — Zac Thompson. A última namorada dele foi assassinada. — Faz um manuseio com a cabeça de um lado para o outro. — Disseram que foi ele que havia matado. — Arregalo os olhos, assustada. O quê? Desvio o olhar de Kate tentando processar o que eu acabara de ouvir. — E tem provas? — volto a olhar para ela. — O quê? — Tem provas de que ele fez isso? — Para falar a verdade, não. Mas ela não tinha família. A única pessoa que ela tinha era o Zac. Os pais eram falecidos, os parentes moravam do outro lado da cidade e ela era filha única. — Pode ter sido qualquer pessoa. Alguém não gostava dela. Ela n**a com a cabeça. — Era impossível não gostar da Megan. Ela era uma garota incrível. Tão gentil e… doce. Era amada por todos, principalmente pelo Zac. Bom, era o que parecia quando estavam juntos. — O nome dela era Megan? — Era. Megan Lewis. — Forço a minha mente a lembrar de alguém com esse nome. — Você não a conheceu. Ainda estudava na Oregon Health quando ela estava aqui. — Então isso aconteceu ano passado. — Nas férias de verão. — Complementa, assentindo. Fico em silêncio por alguns instantes. — Acha que foi ele? — Eu não sei. Mas as circunstâncias dizem que sim. Ele foi o último a vê-la com vida. Respiro fundo e passo as mãos pelos cabelos. — Preciso encontrá-lo e entregar o casaco. — Quer que eu vá com você? — Tudo bem, eu não vou demorar. Vou achá-lo, entregar a blusa e sair. Ela assente. — Vou ficar no carro te esperando. — Tá legal. — Ando em direção a entrada do edifício. Atravesso as portas da universidade e contemplo o grande corredor claro e vazio. Estava apenas os armários dos dois lados preenchendo-o. Caminho em passos curtos ouvindo apenas o som dos meus tênis batendo contra o chão, me direcionando para o próximo corredor. Paro em frente do mesmo e não havia ninguém. Suspiro tentando manter a calma e entro no segundo corredor, na tentativa de encontrar o tal Zac Thompson. Havia muitos corredores. E eu não iria conferir um por um para encontrá-lo, afinal eu poderia ficar presa aqui a qualquer momento. O pensamento faz o meu coração acelerar. Dane-se o casaco, eu preciso sair daqui. Vou em direção contrária para encontrar a porta principal. Ouço um barulho de armário batendo, o que me fez soltar um gritinho e sobressaltar com o susto. Olho em direção de onde o barulho havia saído e fico encarando, para ver se alguém aparecia. Vamos Alison, saia daqui, precisa sair daqui. Meu subconsciente grita constantemente para o meu corpo e ele simplesmente ignora o chamado. Vejo quando um sujeito aparece na porta, revelando um cara alto, com os cabelos molhados e repleto de tatuagens. Prendo a respiração ao reconhecer Zac. A confusão toma conta do seu rosto por me vê ali parada no meio de um corredor vazio. Zac Thompson, o suposto assassino da ex-namorada. Esse é o único pensamento que vem na minha cabeça quando ele caminha na minha direção. ❦ ════ •⊰❂⊱• ════ ❦
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