— Kate? — A chamo assim que entro em nosso apartamento.
Deixo a minha bolsa num canto qualquer da sala e a procuro pelos cômodos.
— Kate? — Chego no seu quarto e o vejo vazio.
Ela deve ter saído para comprar alguma coisa.
Penso e vou tomar um banho. Eu precisava relaxar depois de quase presenciar uma briga no restaurante. Entro no chuveiro e permito a água morna descer sobre os meus cabelos e correr sobre todo meu corpo.
O que foi a sensação mais incrível que pude sentir depois de um dia exaustivo.
Saio do banheiro enrolada numa toalha, secando os meus cabelos com outra um pouco menor. Abro meu closet e pego uma peça de roupa qualquer e a visto.
O que eu mais queria naquele momento era deitar na minha cama e dormir o máximo que eu podia. Mas eu precisava estudar, afinal, as minhas notas estavam péssimas. Pego a minha mochila e procuro pelos meus livros e cadernos, os colocando tudo em cima da escrivaninha.
Respiro fundo e arrasto a cadeira, me sentando e ligando o pequeno abajur na lateral do móvel.
Começo a ler enquanto me forço a se concentrar, mas minha mente insiste em relembrar o ocorrido no restaurante.
Por que ele me defendeu?
Por que me lançou aquele olhar frio e sem emoção antes de sair?
O que fez ele agir daquele jeito?
Uma onda de perguntas vem na minha cabeça, me fazendo se desconcentrar do meu estudo. Arrumo a postura e suspiro, jogando a cabeça para trás e passando as mãos sobre o rosto.
Você precisa se focar Alison, esquece o Zac.
Digo para mim mesma e me esforço ao máximo para não pensar em mais nada e só me concentrar em ler aquele maldito texto.
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Sinto algo tocando em meu braço e uma voz ao longe dizendo algo que eu não conseguia entender. Abro os olhos lentamente tentando racionar o que havia acontecido e vejo Kate ao meu lado com uma das mãos pousadas em meu braço, me chamando.
— Alison? — me chama o que sugiro ser pela décima vez. — Minha nossa, você precisa muito descansar. — Diz e só agora percebo que eu havia dormido em cima dos livros e dos resumos que eu havia feito.
— Eu estou bem — Passo as mãos pelos cabelos e vou folheando os livros novamente, para continuar de onde eu havia parado.
— Não, Alison. Você vai dormir. — Fecha os livros e os recolhe com os cadernos e os coloca dentro da minha mochila.
— Kate, eu preciso estudar. Não posso deixar minhas notas despencarem mais ainda. — Tento pegar minha bolsa e ela me impede.
— Alison você está exausta! — Seu tom de voz sai um tanto que irritado. — Quando foi a última vez que dormiu direito?
Fico calada.
— Eu não sei… — Sussurro e ela respira fundo, se abaixando a minha frente.
— Olha — Pega na minha mão — vai descansar, tá bom? Você tem que acordar cedo e já são quase uma hora da manhã. Estudar exausta desse jeito não adianta nada. Você vai conseguir aumentar suas notas, confia em mim. — Assinto — Agora eu só quero que você desligue esse abajur e vá dormir.
— Tá legal — Me levanto e ela faz o mesmo — Onde estava esse tempo todo?
— Fui dar uma volta — Enfia as mãos no bolso do casaco de veludo preto.
— E voltou a essa hora? — Olho para o relógio digital sobre a mesa de canto, que marcava meia-noite e quarenta e cinco.
— Fiquei na cafeteria vinte quatro horas e perdi a noção do tempo. Desculpa por demorar. — Agora vai dormir. Nada de pegar livros quando eu sair. — Alerta já com a mão na maçaneta.
— Tá bem, tá bem. Boa noite.
Ela sorri.
— Boa noite.
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Oito horas.
Foi o horário que meu despertador começou a tocar descontroladamente.
Com um pouco de dificuldade, consigo desligá-lo e me forço a levantar.
Assim que faço minhas higienes, vou diretamente para o quarto procurar uma roupa para mais um dia de trabalho. Penteio meus cabelos escuros deixando-os soltos e me analiso em frente ao espelho. As olheiras profundas se destacavam em minha pele branca e meus olhos azuis estavam ofuscados.
Eu não queria acreditar, mas eu estava mesmo acabada.
Ouço múrmuros vindo da sala, me fazendo sair dos meus pensamentos e franzir o cenho.
Com quem raios, Kate está conversando a essa hora da manhã?
Vou até a minha cômoda e borrifo um perfume qualquer, pegando meu celular e saindo do quarto.
Na medida que vou me aproximando, os múrmuros ficam mais altos e eu tento decifrar a voz da segunda pessoa.
Assim que chego na sala, Kate me encara com os olhos levemente arregalados.
— Alison… — Vem ao meu encontro, me dando a total visão da pessoa com quem ela estava conversando.
Arregalo os olhos quase que de imediato ao me deparar com a figura que estava a metros de distância de mim.
Eu não acredito nisso.
— O que ele está fazendo aqui? — Ignoro o cara e olho seriamente para Kate.
Ela franze cenho, estranhando a minha pergunta.
— Você o conhece?
Sim.
— Não.
Ela sabia que eu estava mentindo, mas preferiu relevar.
— Bom, esse é o Bryce — Sorri e ele vem em nossa direção. — Meu namorado. — O abraça.
Mas que p***a é essa?
— O quê? — Questiono um pouco alto demais, o que faz Kate unir o cenho de leve. Pigarro. — Foi com ele que sumiu a noite inteira ontem? — Controlo meu tom de voz.
— É, a gente saiu para tomar um café. Desculpa Ali, eu só queria fazer surpresa.
— Muito prazer. — O tal Bryce se manifesta, estendendo a mão para a mim e eu apenas ignoro a sua suposta simpatia.
Ele fica alguns segundos com a mão estendida, mas percebe que eu não iria pegá-la, então a recolhe para o bolso de suas calças.
— Bom, agora que vocês já se conhecem, espero que se deem bem. — Kate se pronuncia, com um sorriso de canto a canto.
É sério isso?
— Olha eu… preciso sair daqui. — Caminho apressadamente até a porta ouvindo Kate me chamar e eu apenas a ignoro, saindo o mais rápido que podia dali.
Eu não conseguia acreditar que Kate estava namorando ele.
Bryce.
O suposto cara loiro que eu havia socado dias atrás.
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Eu estava exausta.
A cada passo que eu dava entregando os infinitos pedidos pelo restaurante, era como se a qualquer momento eu fosse desmoronar.
Respira Alison, só respira.
Repito diversas vezes, enquanto continuo a trabalhar.
Assim que vejo a bandeja prateada que estava em minhas mãos, vazia, agradeço mentalmente e vou em direção ao balcão. Sento-me no pequeno banco de madeira e suspiro, abaixando a cabeça e fitando o mármore.
Noto uma sombra pairar sobre mim e eu ergo o olhar, dando um sorriso fraco.
— Oi, Justin — Cumprimento o garoto ruivo que me encarava com um sorriso, mostrando seus dentes brancos e bem alinhados.
— Oi Alison — Se debruça, ficando mais perto de mim. — Alguém já te disse que você está acabada? — Pergunta brincalhão e eu rolo os olhos.
— Todos os dias.
— Você sabe que pode pedir um dia de folga para a Elizabeth, não sabe?
— Eu estou bem, Justin — Digo um pouco que alterada — Por que todo mundo diz o que devo fazer?
— Nossa, foi m*l. — Se afasta com as mãos levantadas.
Respiro fundo.
— Desculpa, eu não queria ser grossa — Passo as mãos sobre o rosto e deslizo meus dedos sobre os fios dos meus cabelos, jogando-os para trás — É que eu estou estressada. Mas isso não tem nada a ver com você, então me desculpe.
— Ok. Mas me conta. — Começa a secar os copos de drinque — o que aconteceu?
— Eu sinceramente não quero falar sobre isso — O ruivo apenas assente, respeitando a minha resposta.
— Certo. Bom, já que você está em um dia estressante e não quer conversar, eu vou indo. — Termina de enfileirar os copos atrás do balcão, retirando o próprio avental.
O restaurante esvaziara. Havia apenas um casal em uma das diversas mesas terminando de comer e olho para o relógio grande e branco pendurado no lado esquerdo do restaurante. Nove e quinze da noite.
— Tá bem. Eu fecho tudo. Até amanhã.
— Até. — Dar volta no balcão e caminha para a porta, sumindo por elas.
Sinto meu celular vibrar no bolso do avental e o pego, ligando a tela.
Uma mensagem de Kate.
Deslizo meu polegar desbloqueando o aparelho e leio a mensagem.
Vou sair com o Bryce. Provavelmente chegarei tarde. Se cuida.
Meu coração gela.
Droga, d***a, d***a!
Por que ela tinha que se envolver logo com ele?
Leio e releio a mensagens diversas vezes, sem saber o que responder. Ignorar parecia a melhor opção agora. O sino toca como de costume, me fazendo sair dos meus devaneios. O casal havia acabado de sair. Guardo o celular e suspiro.
Vai ficar tudo bem com ela.
Tento convencer a mim mesma de que Kate estava em boas mãos. O que não era verdade.
Vou limpando as mesas uma por uma, tentando me distrair e não pensar no pior. Ouço o sino ecoar de novo. Viro-me em direção à porta para ver quem era e me deparo com Zac, me fazendo ficar surpresa ao vê-lo.
E como um passe de mágica, as borboletas em meu estômago se manifestam, dançando loucamente dentro de mim.
— Oi. — Diz assim que nota a minha presença.
— Oi. Estamos quase fechando. — Aperto levemente o pano em minhas mãos.
— Eu não vim para ser atendido eu só… vim conversar com você. — Anda lentamente em minha direção.
Franzo o cenho.
— Conversar?
— Na verdade, eu vim te pedir desculpas.
— Pelo quê? — Cruzo os braços sobre o peito.
— Pelo b****a do Bryce. E por eu quase ter iniciado uma briga com ele naquele dia. Você não merecia ter presenciado aquilo.
Coço a testa, ainda com as sobrancelhas unidas.
— Ah… tudo bem, eu… sei lidar com clientes como ele.
— É eu vi pelo hematoma.
— Eu fiquei com raiva. Por isso fiz aquilo.
— Não tiro a sua razão. Nenhuma garota iria gostar de ser chamada de v***a.
Arqueio as sobrancelhas.
— Como sabe do que ele me chamou?
— Ele sempre chama as garotas assim. — Diz e vejo sua mandíbula perfeitamente definida, ficar trincada. — O odeio por isso.
— Então por que anda com ele?
— Não ando, os outros garotos que o chamaram. Por mim eu nem teria convidado.
— Entendi. — Olho para meus pés totalmente sem jeito de olhá-lo nos olhos.
Um silêncio constrangedor paira sobre nós e aquilo era a última coisa que eu queria que acontecesse.
— Bom, ãhn… eu preciso fechar aqui antes que passe do horário. — Olho para o relógio na parede, que marcava nove e meia.
Ele assente e coloca as mãos dentro do seu jeans.
— Vai fazer algo depois daqui? — Pergunta de repente e eu ergo o olhar.
— Não. Por quê?
— Quer dar uma volta? — Indica a rua com o queixo.
— Agora?
— É.
— Não acha que está tarde para uma volta?
— Bom, são exatamente nove e trinta e um. — Olha para o seu relógio de pulso.
— Dez e meia eu te deixo em casa. Tem a minha palavra. — Garante.
Uma volta não seria nada m*l.
— Tudo bem. Me espera lá fora. — Peço e ele assente, saindo.
Vou em direção ao balcão e pego minha bolsa, desligando todas as luzes e saindo do estabelecimento.
Coloco a chave no bolso da minha calça assim que tranco a porta.
— Vamos — Faço menção de colocar minha bolsa em meu ombro, mas Zac me impede quase que de imediato.
— Deixa que eu levo isso. — A pega, não me dando tempo de protestar.
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