Mavi:
A Lorena me chamou pra conversar no fim da tarde. Aquele “Mavi, vem cá” que já vem pesado antes mesmo de qualquer palavra.
Sentamos na mesa da cozinha. Ela demorou pra falar. Quando falou, foi tudo de uma vez.
Disse que o dono da casa tava cobrando demais. Que já não era só o aluguel atrasado, era pressão, ameaça disfarçada de aviso. Que ele apareceu mais de uma vez, falou alto, falou perto demais. Que não queria mais esperar.
Enquanto ela falava, meu peito apertava. Era isso que ela escondia de mim.
— Eu não queria te preocupar.
ela disse, com os olhos marejados.
— Mas não dá mais pra segurar sozinha.
Na mesma hora, peguei o celular.
— Então a vó vai mandar o dinheiro hoje.
falei, decidida.
— Hoje mesmo. Eu passo lá depois da faculdade e pego.
A Lorena tentou falar alguma coisa, mas eu já tava digitando. “Vó, manda o dinheiro hoje, por favor. É urgente. Eu busco quando sair da faculdade.”
Ela respondeu rápido.
Disse que já tinha enviado. Que era pra eu ir sem medo.
Fui pra faculdade com a cabeça longe. Assisti aula sem ouvir metade. Tudo que eu pensava era naquele dinheiro, naquela sensação de que aquilo ia resolver pelo menos uma parte do problema.
Quando a aula acabou, fui direto buscar. Peguei o dinheiro, conferi duas vezes, guardei bem fundo na bolsa. Respirei aliviada pela primeira vez em dias.
No caminho de volta, o céu já tava escurecendo. O movimento na rua era diferente, mais lento, mais atento. Apertei a bolsa contra o corpo sem perceber.
Foi aí que aconteceu.
Algo que eu não esperava.
Algo que mudou completamente o rumo do meu dia…
e da minha vida.
-
Barone:
Eu já sabia que aquela noite ia render.
Não era vontade. Era necessidade.
Dinheiro não cai do céu, e quem manda aqui em cima aprende cedo que, quando aperta, alguém vai perder pra outro ganhar. Dessa vez, não dava pra esperar. A grana tinha que entrar.
— Hoje é rápido.
eu falei pros caras, enquanto ajustava a máscara.
— Sem gracinha, sem erro.
A faculdade sempre solta gente distraída. Olho baixo, cabeça cheia, bolsa aberta demais. Foi ali que eu vi ela. Sozinha. Andando apressada, segurando a bolsa como quem protege o mundo inteiro dentro dela.
Dei o sinal com a cabeça.
Cercamos.
Ela nem teve tempo de gritar.
— Passa tudo p***a.
falei baixo, firme.
— Sem reação.
A menina tremia. A mão dela não obedecia o próprio corpo. A bolsa veio primeiro. Pesada. Dinheiro demais pra quem anda sozinha daquele jeito. Abri rápido, só pra confirmar. Era muito. Do jeito que eu precisava.
— A corrente também.
Gomes falou, puxando o braço dela.
Ela tentou segurar.
— Por favor… não…
a voz saiu quebrada.
Ele arrancou a correntinha do braço e depois a outra, da mão. O metal fez um barulho seco quando caiu na palma dele. Ela começou a chorar de verdade ali. Desespero puro.
— Calma.
eu disse, mas não era consolo. Era aviso.
— Fica quieta que acaba logo.
Quando demos dois passos pra trás, ela pareceu lembrar que ainda respirava.
— Eu vou chamar a polícia…
ela falou, quase sem voz.
Gomes voltou num passo só, apontando o dedo pra cara dela.
— Nem pensa. Se ligar pra polícia, a próxima vez vai ser pior. Bem pior.
Ela congelou.
Do jeito que a rua ensina.
Viramos a esquina rápido, sem correr. Correria chama atenção. Eu só sentia o peso da bolsa na mão e a certeza de que o problema da grana… pelo menos por enquanto, tava resolvido.
Eu ainda não sabia quem ela era.
Nem que aquele dinheiro tinha história.
Nem que aquele assalto… não ia terminar ali.
Mas uma coisa eu sabia
a noite tinha acabado de começar.