Capítulo 4

882 Words
Mavi : Eu tava voltando do banco. O dinheiro ainda parecia pesado dentro da bolsa, como se aquilo fosse importante demais pra estar comigo sozinha naquela rua. Eu lembrava de ter saído de lá conferindo tudo duas vezes, com aquele cuidado bobo que a gente tem quando sabe que não pode perder nada. Talvez por isso eu tenha sentido o perigo tarde demais. Ouvi os passos atrás de mim e, quando me virei, já era tarde. Eles surgiram rápido, me cercando. Todos de preto. Todos mascarados. Meu corpo gelou na hora, como se tivesse esquecido como se mexe. — Passa tudo. A voz veio dura, sem paciência. Um deles puxou minha bolsa com força, outro chegou perto demais, agressivo, me empurrando. Meu coração batia tão forte que doía. Eu tremia inteira enquanto tentava abrir a bolsa, as mãos falhando, a cabeça girando. Eles acharam o dinheiro rápido demais. Todo. O dinheiro que eu tinha acabado de sacar, que eu precisava, que não era só dinheiro era preocupação, era responsabilidade, era tudo misturado. Quando vi as notas sendo puxadas sem cuidado nenhum, senti um desespero subir pelo peito. Mas não parou ali. Um deles reparou na minha correntinha. — Tira isso. Na hora, minha garganta fechou. Aquela correntinha não era só um enfeite. Minha mãe tinha mandado fazer quando eu era pequenininha. Minha avó guardou por anos, como se fosse um tesouro, e só me entregou quando achou que eu já entendia o valor daquilo. Eu usava desde criança. Sempre usei. Era como carregar um pedaço da minha mãe comigo. — Por favor… minha voz saiu fraca, quase um sussurro. Ele não quis saber. Puxou com força, o metal arranhando minha pele, o fecho estalando antes de se soltar. Eu senti uma dor estranha no peito. Ali eu quase chorei. A correntinha… levaram. Como se não significasse nada. Como se fosse só mais um objeto qualquer. Foi então que eu vi ele. O líder. Ele também estava mascarado, mas não gritava, não tocava em mim. Só observava. Quando nossos olhares se cruzaram, eu senti tudo parar por um segundo. Os olhos dele eram frios, atentos, controlados demais. Parecia que ele via tudo. O medo. A súplica. A dor de perder algo que não tinha preço. Ele não fez nada pra impedir. E isso doeu mais ainda. Quando eles foram embora, foi rápido. Rápido demais. Sumiram da rua como sombras, deixando pra trás o silêncio e eu, parada, com as pernas fracas, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. No caminho pra casa, eu chorava sem perceber. Olhava pra trás o tempo todo, apertando o pulso onde o bracelete ainda estava, como se aquilo fosse a única coisa que me mantinha inteira. Quando cheguei em casa, bati a porta e o choro veio de vez. Desesperado. Nervoso. Eu tremia teira. Lorena apareceu correndo. — Mavi, o que aconteceu?! Sentei no sofá sem forças. — Eu fui assaltada… respirei fundo — voltando do banco. Contei tudo. O dinheiro. A agressividade. As máscaras. E quando falei da correntinha, minha voz quebrou. — Eles levaram… meus olhos encheram de lágrimas — levaram a correntinha que mamãe mandou fazer pra mim... Lorena me abraçou forte. — Não foi só o dinheiro. sussurrei. — Foi como se tivessem arrancado um pedaço da minha história. Eu fiquei ali, abraçada nela, tentando me acalmar. Mas no fundo eu sabia o dinheiro dava pra recuperar. A correntinha… e a sensação de segurança… essas não iam voltar tão fácil. Lorena não saiu do meu lado em nenhum momento. Ela andava pela casa de um lado pro outro, inquieta, falando que a gente precisava ir à delegacia, que não dava pra deixar aquilo assim. Eu concordei, mesmo com a cabeça latejando e o corpo ainda em choque. Parecia que tudo acontecia rápido demais pra eu acompanhar. Na delegacia, tudo foi frio. As perguntas, o formulário, o policial anotando como se fosse só mais um caso qualquer. Eu repetia a história com a voz baixa, contando das máscaras, do dinheiro, da correntinha. Em alguns momentos, minha garganta fechava e eu precisava parar. Lorena respondia por mim quando eu não conseguia. — Ela acabou de sair do banco. Lorena dizia, firme, mesmo com os olhos cheios de preocupação. No fim, saiu o boletim de ocorrência. Um papel. Só isso. Nenhuma promessa real de que algo seria recuperado. Quando voltamos pra casa, o cansaço caiu de uma vez. Eu me joguei no sofá, abraçando o próprio corpo, sentindo um vazio estranho. Tudo que eu queria era silêncio. Mas o silêncio durou pouco. As batidas na porta foram secas. Impacientes. Lorena se levantou na hora. Abriu a porta e deu de cara com o homem. Eu não conhecia direito, mas reconheci na mesma hora era o responsável pela casa. O jeito dele não era de quem vinha conversar. — A gente precisa falar. ele disse, sem educação. Lorena tentou manter a calma. — Aconteceu um assalto hoje, a gente acabou de voltar da delegacia… — Isso não muda nada. ele cortou. Meu coração afundou antes mesmo dele terminar. — Vocês têm 24 horas pra desocupar a casa. Eu me levantei num pulo. — Como assim?! Ele continuou, frio — A conta não foi paga no período certo. A dívida venceu. Já dei prazo demais. Lorena ficou pálida.
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