Capítulo 5

764 Words
— Eu ia acertar… foi um atraso, só isso… — Não me interessa. ele estendeu um papel. — Amanhã, nesse mesmo horário, a casa tem que estar vazia. Fechou a porta sem esperar resposta. O barulho seco ecoou pela sala. Por alguns segundos, ninguém falou nada. Eu senti o chão sumir. — Lorena… minha voz saiu fraca — pra onde a gente vai? Ela passou as mãos pelo rosto, respirando fundo, tentando não chorar. — Eu… eu vou dar um jeito. Mas eu conhecia minha irmã. E pela primeira vez, vi o medo dela sem disfarce. — A gente perdeu o dinheiro hoje… eu disse, quase num sussurro. — A gente não tem pra onde ir. Foi ali que o desespero veio de verdade. Não era mais só o assalto. Não era mais só a correntinha. Era a casa. Era o teto. Era tudo desmoronando no mesmo dia. Eu abracei o braço dela com força, como quando era pequena. — A gente não pode ir pra rua, Lorena… Ela me abraçou de volta, apertado, como se quisesse me proteger do mundo inteiro. — Eu prometo que não vou deixar isso acontecer. Mas, no fundo, eu sentia. Aquela noite não tinha sido só um assalto. Tinha sido o começo de algo muito maior. E, pela primeira vez, eu tive certeza a nossa vida estava prestes a mudar de um jeito que a gente ainda não fazia ideia. (...) A noite passou arrastada. Lorena e eu ficamos sentadas na sala, cercadas por caixas abertas e pensamentos que não iam pra lugar nenhum. A gente tentou de tudo. Procurou anúncio, ligou pra conhecidos, mandou mensagem, pediu favor. Nada. Ninguém tinha casa pra alugar, ninguém tinha um canto sobrando. O tempo parecia correr contra a gente. — Não tem jeito… eu murmurei, abraçando o joelho. — Parece que tudo fecha na nossa cara. Lorena estava quieta demais, andando de um lado pro outro, com o celular na mão. Dava pra ver que ela também estava se segurando pra não desmoronar. Foi quando ela parou de repente. — A Amanda. Levantei o olhar. — A prima? Ela assentiu devagar. — Ela sempre disse que, se a gente precisasse, podia contar com ela. — Então liga . eu falei, mesmo com um nó no peito. — Não custa tentar. Lorena respirou fundo antes de discar, como se o orgulho estivesse brigando com a necessidade. Eu ouvi a conversa pela metade. Ela explicou tudo rápido demais, a voz embargada, tentando parecer forte. Do outro lado, Amanda não pensou duas vezes. Lorena desligou com os olhos marejados. — Ela mandou a gente ir pra casa dela. — Sério? eu perguntei, sem acreditar. — Disse que a casa é simples, mas que tem espaço. Que a gente pode ficar lá até se organizar. Por um segundo, Lorena ficou em silêncio. — Eu não quero dar trabalho… ela murmurou. — Irmã… segurei a mão dela — a gente não tem escolha. Ela ainda hesitou, andou pela sala, respirou fundo mais uma vez. Até que assentiu. — Tá. A gente vai. Ficou combinado de manhã cedo, a gente iria pra casa da Amanda. Fiquei olhando pro teto, com o braço apertando o bracelete antigo, o único pedaço da minha mãe que ainda estava comigo. A correntinha tinha ido embora. A casa também. Era estranho pensar que, em menos de vinte e quatro horas, a gente tinha perdido quase tudo. Eu mexia no bracelete no meu pulso sem perceber, passando o dedo por ele como fazia quando era pequena. Aquilo me lembrava da minha mãe. Me lembrava de quando as coisas pareciam mais simples, mais seguras. Agora, tudo parecia fora do lugar. — A gente vai sair cedo. Lorena disse, quebrando o silêncio. — Amanhã. Assenti devagar. Não perguntei mais nada. Não queria ouvir planos, nem detalhes. Só queria que o dia acabasse logo. Mas, ao mesmo tempo, tinha medo do amanhã chegar. Fui pro quarto e comecei a separar algumas roupas. Não todas. Só o essencial. Cada peça dobrada parecia uma despedida. Aquela casa tinha sido nosso abrigo, e agora não queria mais a gente ali. Deitei sem apagar a luz. O teto parecia mais distante do que nunca. Minha cabeça não parava. Eu pensava no assalto, nos olhos por trás da máscara, na correntinha sendo arrancada do meu pescoço. Pensava em como tudo pode mudar em minutos. A madrugada passou lenta. Quando o primeiro sinal de manhã começou a aparecer pela janela, eu já estava acordada. Cansada. Triste. Com aquela sensação r**m de que nada ia ser como antes. E ainda nem tinha começado.
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