📜 Capítulo 2 – O Encontro
A manhã em Vila Serena começava nublada, como se o céu carregasse em si os segredos da cidade. O vento soprava forte, e o cheiro de maresia misturava-se ao doce aroma que escapava pela porta entreaberta da confeitaria Doce Encanto.
Helena ajeitava as últimas flores sobre o balcão. Margaridas e lavandas enfeitavam pequenos vasos, dando ao ambiente o ar acolhedor que ela tanto prezava. Na vitrine, os bolos coloridos pareciam sorrir aos passantes. O preferido da manhã era o de frutas vermelhas, coberto por uma fina camada de açúcar polvilhado que lembrava neve.
Carolina, a irmã caçula, apareceu descendo as escadas internas, ainda com os cabelos desgrenhados.
— Helena, por que você se esforça tanto? A cidade inteira já sabe que seus doces são bons. Não precisa dessa perfeição toda. — disse, bocejando.
— Cada detalhe importa, Carol. — respondeu Helena, sem tirar os olhos da vitrine. — Nunca sabemos quem pode entrar por aquela porta hoje.
Como se o destino tivesse escutado, a campainha delicada da porta soou. Um homem alto, de ombros largos e olhar intenso, entrou trazendo consigo o frio da chuva que começava a cair. Suas roupas elegantes destoavam da simplicidade do lugar, e seus passos ecoaram pelo piso de madeira.
Helena ergueu os olhos. Por um instante, o tempo pareceu parar.
Gabriel Monteiro nunca havia pisado em uma confeitaria daquele tipo. Estava acostumado a restaurantes sofisticados, cafés requintados. Mas algo no cheiro que vinha dali — a mistura de baunilha, canela e açúcar — o desarmava de um jeito que não sabia explicar.
— Bom dia… — disse ele, com a voz grave, mas levemente hesitante. — Preciso… de um abrigo da chuva.
Helena sorriu, oferecendo-lhe uma toalha pequena para enxugar as mãos.
— Bom dia. Aqui sempre cabe mais um. — apontou para uma das mesas junto à janela. — Quer provar alguma coisa?
Gabriel hesitou. Não estava acostumado a aceitar a gentileza de estranhos. Mas havia algo na voz dela, suave e firme, que o fez se render.
— O que você recomenda? — perguntou, deixando-se guiar.
— Hoje temos o bolo de frutas vermelhas. É leve, mas intenso… como a vida deve ser. — Helena respondeu, sem perceber o duplo sentido em suas próprias palavras.
Ele a observou com curiosidade, intrigado pela naturalidade daquela mulher. Não havia nele a menor vontade de estar ali — até aquele momento.
Enquanto Helena cortava uma fatia generosa e a servia com delicadeza, Carolina os observava de longe, os olhos brilhando com um interesse diferente. Reconhecia aquele homem: era Gabriel Monteiro, o herdeiro da família mais poderosa de Vila Serena. Para ela, não havia coincidência no destino.
Gabriel provou o bolo. O sabor o surpreendeu — não pelo doce em si, mas pela sensação estranha de conforto, como se tivesse encontrado um pedaço de paz que não sabia que buscava.
— É… incrível. — disse, e pela primeira vez em muito tempo, sorriu sem pensar.
Helena desviou os olhos, sentindo o coração acelerar de um jeito inesperado.
Do lado de fora, a chuva engrossava, batendo contra os vidros como se quisesse testemunhar aquele instante. Dentro da confeitaria, porém, o tempo parecia suspenso. Dois mundos tão diferentes haviam se encontrado em um simples pedaço de bolo.
Mal sabiam que aquele seria apenas o primeiro de muitos encontros — e que o doce sabor daquele dia esconderia o amargo de segredos que logo viriam à tona.
📜 Capítulo 3 – Entre o Doce e o Amargo
A chuva persistiu até o meio da tarde, e a confeitaria Doce Encanto permaneceu aquecida pelo movimento de moradores que buscavam abrigo. Helena, entre atendimentos e conversas amenas, não conseguia afastar da mente a presença de Gabriel Monteiro. Ele havia ficado mais tempo do que o necessário, sentado à mesa próxima à janela, degustando lentamente o bolo de frutas vermelhas como se quisesse memorizar cada sabor.
Quando finalmente se levantou para ir embora, Helena sentiu um vazio repentino, como se algo tivesse sido arrancado dali junto com ele.
— Esse homem não é para nós, Helena. — murmurou Carolina, surgindo ao seu lado com um brilho perigoso no olhar. — Você sabe quem ele é, não sabe?
Helena apenas franziu o cenho.
— Claro que sei. Mas para mim, hoje, ele foi apenas um cliente.
Carolina sorriu, quase com deboche.
— Cliente? Gabriel Monteiro é muito mais do que isso. É o herdeiro da família mais poderosa desta cidade. Se eu fosse você, não desperdiçava a chance.
Helena suspirou, acostumada à ambição da irmã.
— Nem tudo se resume a poder, Carol. Às vezes, um sorriso sincero vale mais que todo o dinheiro do mundo.
A irmã riu, balançando a cabeça.
— Você sempre tão ingênua…
Enquanto as duas trocavam palavras, Gabriel já caminhava sob a chuva fina em direção à sua casa. Ou melhor, à sua prisão dourada. A mansão Monteiro erguia-se imponente sobre uma colina, com seus portões de ferro forjado e jardins milimetricamente cuidados. Para a cidade, era símbolo de poder e tradição; para Gabriel, era apenas a lembrança constante de que sua vida não lhe pertencia.
Assim que entrou no salão principal, foi recebido pela voz firme de Beatriz Monteiro, sua mãe.
— Onde esteve? — perguntou ela, sentada diante da lareira, vestindo um elegante conjunto azul-marinho.
— Fui até a cidade. — respondeu ele, enxugando os cabelos ainda úmidos.
Beatriz ergueu uma sobrancelha.
— À cidade? Com esse tempo horrível?
— Precisava respirar.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Beatriz estudou o filho como quem analisa um funcionário rebelde.
— Você tem responsabilidades, Gabriel. Não pode simplesmente desaparecer para “respirar”. Há reuniões, compromissos, decisões a tomar. O legado da família depende de você.
Gabriel fechou os olhos por um instante, cansado daquela pressão constante.
— Mãe, às vezes eu sinto que vivo apenas para sustentar um sobrenome.
— Exatamente. — ela disse, com frieza. — É para isso que você nasceu.
Ele não respondeu. Apenas subiu as escadas em silêncio, levando consigo a lembrança do sorriso de Helena e o sabor de um bolo simples que, de repente, parecia mais verdadeiro do que toda a riqueza ao seu redor.
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Na confeitaria, o movimento diminuíra, e Helena aproveitou para fechar mais cedo. A chuva havia deixado a cidade com um ar melancólico, mas também romântico. Do lado de fora, as luzes da praça refletiam nos paralelepípedos molhados, e o som distante das ondas completava o cenário.
Helena caminhou até a varanda dos fundos, de onde podia ver o mar. Ali, lembranças antigas a assombravam. Recordava-se dos pais, de como haviam lutado para manter a confeitaria viva antes do acidente que lhes tirara a vida. Recordava-se também da promessa que fizera a si mesma: nunca depender de ninguém para sobreviver.
Mas naquele dia, ao ver Gabriel entrar em sua vida como quem invade um espaço sagrado, sentira algo diferente. Não era dependência. Era… curiosidade.
— Helena! — a voz de Vicente Ramos a trouxe de volta.
O pescador aproximou-se com passos firmes, trazendo consigo o cheiro do mar e da madeira molhada. Os cabelos negros estavam desgrenhados pela umidade, e seus olhos escuros carregavam uma intensidade quase dolorida.
— Você fechou cedo hoje.
— Sim, a chuva afastou os clientes. — respondeu, sorrindo. — Quer um chá quente?
Vicente assentiu, e os dois entraram. Enquanto Helena preparava a bebida, ele observava cada movimento dela com uma ternura disfarçada. Havia anos que Vicente carregava aquele amor silencioso, mas nunca tivera coragem de confessar. Para ele, Helena era como uma estrela: próxima o bastante para iluminar suas noites, distante demais para ser alcançada.
— Quem era aquele homem? — perguntou ele, tentando soar casual. — O que ficou tanto tempo aqui hoje de manhã.
Helena hesitou.
— Um cliente. — respondeu simplesmente.
Vicente não acreditou, mas também não insistiu. Apenas apertou os punhos sob a mesa, sentindo uma pontada de ciúme.
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Enquanto isso, na mansão Monteiro, Rafael, o primo de Gabriel, chegava sem avisar. Entrava sempre com o ar de quem tinha direito a tudo, mesmo sem possuir nada. Beatriz o tolerava, pois ele representava a sombra perfeita: alguém que, com seu charme e ousadia, podia distrair os olhares da cidade das verdadeiras falhas da família.
— Gabriel, ouvi dizer que você passou a manhã na cidade. — disse Rafael, com um sorriso malicioso, encontrando o primo no escritório. — E não foi em qualquer lugar… foi na confeitaria das irmãs Duarte.
Gabriel ergueu os olhos, surpreso.
— Como você sabe disso?
— Vila Serena tem olhos e ouvidos em cada esquina. — respondeu Rafael, encostando-se na estante. — Dizem que você provou um bolo e… sorriu. Isso é notícia, primo.
— Não vejo graça em fofocas. — retrucou Gabriel.
Rafael riu.
— Eu vejo. Principalmente porque aquela doceira, Helena, é… interessante. Muito interessante.
O olhar de Gabriel endureceu.
— Deixe-a fora disso.
— Ora, ora… — Rafael estreitou os olhos, reconhecendo a chama no olhar do primo. — Parece que a confeiteira já mexeu com o herdeiro Monteiro. Isso promete ser divertido.
Gabriel não respondeu. Mas, no fundo, sabia que Rafael não era homem de deixar oportunidades passarem — e aquilo o preocupava.
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Na manhã seguinte, o sol voltou a brilhar sobre Vila Serena, como se a tempestade nunca tivesse existido. As ruas estavam úmidas, e as crianças corriam rindo pela praça. A confeitaria reabriu cedo, mais iluminada do que nunca.
Helena ajeitava a vitrine quando a campainha da porta soou. Esperava encontrar Dona Dores ou algum turista curioso, mas, para sua surpresa, era Gabriel novamente.
Ele entrou com a mesma presença marcante, mas dessa vez não havia chuva nem desculpa. Apenas a vontade de estar ali.
— Bom dia. — disse ele, com um sorriso discreto. — Pensei que poderia provar outra recomendação sua.
Helena sentiu o coração disparar.
— Bom dia. Temos bolo de limão com cobertura de glacê. Quer experimentar?
— Se for você quem recomenda, sim.
O silêncio entre eles carregava algo novo, um fio invisível que os aproximava mais a cada palavra. Carolina, que observava de trás do balcão, mordeu o lábio inferior, já planejando como transformar aquela situação em vantagem para si.
E assim, sob o sol suave de Vila Serena, começava a nascer algo doce e perigoso. Um romance improvável, feito de olhares roubados e palavras simples, mas que teria que enfrentar o peso de um passado cheio de amargura.
Porque, em Vila Serena, até o amor mais puro vinha temperado por segredos.