AS PRIMEIRAS SOMBRAS

2437 Words
📜 Capítulo 4 – As Primeiras Sombras O sol de outono iluminava Vila Serena, dourando os telhados coloniais e fazendo o mar brilhar em tons de prata. A cidade parecia suspirar aliviada após a tempestade da véspera, e a confeitaria Doce Encanto estava mais viva do que nunca. O aroma de bolo recém-saído do forno se misturava ao burburinho alegre dos clientes, turistas e moradores que enchiam as mesas. Helena movia-se com graça pelo espaço, servindo fatias generosas e conversando com cada pessoa como se fosse velha conhecida. Para ela, aquele lugar não era apenas um negócio; era uma extensão do coração. Cada bolo carregava uma lembrança, cada pão de mel era quase uma carta de afeto. Mas naquela manhã, havia algo diferente. O ambiente parecia mais vibrante, mais… expectante. E Helena sabia o motivo: Gabriel Monteiro estava sentado novamente junto à janela, observando tudo com a discrição de quem não queria chamar atenção, mas não conseguia evitar. Ele parecia deslocado ali, com suas roupas elegantes e postura ereta, mas ao mesmo tempo, havia nele uma serenidade estranha. Como se o som das xícaras e o cheiro doce do ambiente fossem um bálsamo em meio ao peso de sua vida. Helena aproximou-se, levando um prato com bolo de limão e glacê. — Espero que goste. É uma receita da minha mãe. Gabriel ergueu os olhos, e naquele instante Helena sentiu o coração tropeçar. — Se for tão bom quanto o de ontem, tenho certeza de que vou gostar. — disse ele, com um sorriso discreto. Ela retribuiu o sorriso, mas logo desviou o olhar, tentando esconder o rubor que lhe subia às faces. Carolina, por sua vez, observava a cena de trás do balcão, os braços cruzados e a mente fervilhando. A cada palavra trocada, sentia-se mais impelida a entrar naquele jogo. Para ela, Gabriel não era apenas um homem: era a chave para a vida de luxo que sempre sonhou. Na mansão Monteiro, porém, o clima era bem diferente. Beatriz caminhava pelo salão de mármore, as mãos enluvadas segurando uma carta antiga, já amarelada pelo tempo. Seus olhos frios percorriam as linhas escritas em tinta desbotada, mas a expressão em seu rosto era de pura tensão. — Esse passado precisa permanecer enterrado. — murmurou para si mesma, guardando a carta em uma gaveta secreta da escrivaninha. No mesmo instante, Rafael entrou no salão, trazendo consigo o ar insolente de sempre. — Tia Beatriz, tenho novidades. — disse ele, jogando-se em uma das poltronas de veludo. — Do que se trata agora, Rafael? — Gabriel anda frequentando a confeitaria das irmãs Duarte. E não é apenas para comer bolo. Beatriz ergueu os olhos com um brilho de desconfiança. — A confeitaria… das Duarte? — Sim. — Rafael sorriu maliciosamente. — Parece que nosso herdeiro finalmente se encantou por algo. Ou melhor, por alguém. Um silêncio pesado caiu sobre o salão. Beatriz apertou as mãos, escondendo o nervosismo sob sua fachada de frieza. — Isso não pode acontecer. — disse ela, em tom grave. — Não… com aquela família. Rafael arqueou a sobrancelha. — Por que não? Confesso que também achei Helena… fascinante. Quem sabe eu mesmo não faça uma visita? Beatriz se levantou bruscamente, encarando-o. — Deixe essa jovem em paz. Esse assunto é delicado. Mais do que você imagina. Rafael riu, mas no fundo, suas suspeitas se confirmavam: havia um segredo envolvendo os Duarte e os Monteiro, e ele estava decidido a descobri-lo — ainda que isso significasse brincar com os sentimentos de Helena. Enquanto isso, no porto da cidade, Vicente puxava suas redes de pesca com esforço. O mar estava generoso naquela manhã, mas sua mente estava em outro lugar. Desde o dia anterior, não conseguia parar de pensar em Gabriel Monteiro na confeitaria. Sentia que algo havia mudado, e a ideia de perder Helena para um homem como aquele o corroía por dentro. Ao descarregar os peixes, encontrou-se com Padre Augusto, que caminhava pela praia com seu semblante sereno. — Bom dia, Vicente. Vejo preocupação em seus olhos. — Padre, o senhor sabe de tudo o que acontece em Vila Serena. — disse Vicente, com um tom quase de desabafo. — Acha justo que um homem como Gabriel Monteiro se aproxime de Helena? O padre hesitou, olhando para o horizonte. — O coração não obedece à justiça, meu filho. Ele obedece apenas ao próprio mistério. Vicente franziu o cenho. — Mas há algo errado nisso. Eu sinto. Padre Augusto suspirou. — Às vezes, os sentimentos são presságios. Mas cuidado para não se perder no ciúme. Vicente não respondeu. Apenas fechou os punhos e seguiu seu caminho, decidido a proteger Helena — ainda que contra a própria vontade dela. De volta à confeitaria, a tarde caiu tranquila. Gabriel permaneceu mais tempo do que na véspera, e aos poucos começou a conversar mais com Helena. Falavam sobre receitas, sobre a cidade, sobre pequenas lembranças da infância. Gabriel descobriu que Helena adorava colecionar livros de receitas antigas e que tinha o sonho de abrir filiais da confeitaria em outras cidades. — Mas para isso preciso de coragem… e recursos que ainda não tenho. — disse ela, sorrindo com um certo pudor. — Coragem você já tem. — respondeu Gabriel, fitando-a com sinceridade. — Só precisa acreditar em si mesma. As palavras dele tocaram fundo em Helena. Estava acostumada a ouvir conselhos, mas raramente alguém lhe dava apoio verdadeiro. Foi nesse momento que Carolina se aproximou, interrompendo a conversa com sua presença luminosa. — Posso oferecer um café especial da casa? — disse, olhando fixamente para Gabriel. Ele assentiu por educação, mas Helena percebeu a intenção por trás do gesto da irmã. Carolina se inclinou levemente sobre a mesa, falando em tom baixo e sedutor: — Espero vê-lo mais vezes por aqui. Vila Serena pode ser pequena demais para um homem como o senhor. Gabriel apenas sorriu educadamente, mas Helena sentiu um incômodo no peito. Conhecia a ambição da irmã e temia até onde ela poderia chegar. À noite, enquanto fechava a confeitaria, Helena refletia sobre o dia. Algo dentro dela gritava que estava prestes a entrar em um caminho perigoso. Gabriel era gentil, mas representava tudo o que ela sempre evitara: poder, tradição, complicações. Ainda assim, não conseguia negar: seu coração batia mais rápido quando ele estava por perto. Na varanda dos fundos, Helena fitou o mar escuro, iluminado apenas pelo luar. — Pai, mãe… se vocês estivessem aqui, o que diriam? — sussurrou. Ao longe, a mansão Monteiro erguia-se como uma sombra contra o céu estrelado. E dentro dela, Beatriz observava a mesma lua, os pensamentos tomados por lembranças dolorosas e pelo medo de que o passado voltasse à tona. Naquele instante, duas mulheres, separadas por mundos diferentes, compartilhavam a mesma inquietação: o temor de que o amor entre Gabriel e Helena pudesse trazer à superfície segredos capazes de mudar para sempre o destino de Vila Serena. E Rafael, no escuro de seu quarto, sorria sozinho, arquitetando planos. Sabia que quanto mais forte fosse o elo entre Gabriel e Helena, maior seria a chance de ele destruí-los — e, com isso, conquistar algo que jamais tivera: poder sobre o primo e, quem sabe, sobre o coração da doceira. 📜 Capítulo 5 – Segredos ao Luar A noite em Vila Serena caía como um manto de mistério. O céu estava limpo, salpicado de estrelas, e a lua refletia-se nas águas calmas do mar. A cidade respirava em silêncio, mas por trás das janelas fechadas, corações batiam acelerados, guardando sentimentos e segredos. Helena não conseguia dormir. Sentada na varanda dos fundos da confeitaria, tinha nos joelhos um caderno de receitas antigo, herdado da mãe. As páginas amareladas guardavam não apenas instruções culinárias, mas também pequenas anotações pessoais, frases que soavam como conselhos ou confissões. "O doce pode esconder o amargo. Mas o amargo nunca destrói o doce: apenas o torna mais real." Helena suspirou, passando os dedos pelas letras. — Mamãe, se ao menos eu tivesse a sua clareza… De repente, ouviu passos na rua. Espiou por entre as grades da varanda e viu Gabriel caminhando lentamente, como se buscasse algo além do simples trajeto para casa. Ele estava sozinho, as mãos nos bolsos e o olhar perdido na lua. Sem pensar, Helena chamou: — Gabriel! Ele ergueu a cabeça, surpreso, e abriu um sorriso discreto. — Helena… não esperava encontrá-la acordada a essa hora. — Também não esperava vê-lo passar por aqui. Ele se aproximou da varanda, encostando-se ao portão. — Às vezes preciso fugir um pouco da mansão. Lá dentro, o silêncio é pesado demais. Helena desceu os degraus e foi ao seu encontro. Ficaram frente a frente, separados apenas pelo portão de ferro que cercava a confeitaria. O vento da noite brincava com os cabelos dela, e Gabriel teve vontade de afastar uma mecha do rosto delicado. — Aqui é diferente. — disse ele. — O silêncio parece… vivo. Helena sorriu, tocada pela sinceridade das palavras. — Talvez porque aqui tudo tem alma. Cada bolo, cada detalhe. Meus pais sempre diziam que o segredo da vida é colocar amor em tudo o que fazemos. Gabriel a observou por alguns segundos, em silêncio, até murmurar: — Eu queria ter conhecido seus pais. A frase a pegou de surpresa. Seus olhos marejaram. — Eles fariam você se sentir em casa. Por um instante, os dois apenas se olharam, como se o mundo tivesse parado. Mas antes que qualquer palavra mais ousada fosse dita, uma voz cortou o ar. — Helena! — Carolina apareceu na porta, cruzando os braços. — Não sabia que recebíamos visitas noturnas agora. Gabriel afastou-se levemente, desconcertado. — Eu já estava de saída. Boa noite, Helena. Boa noite, senhorita Carolina. Sem esperar resposta, seguiu seu caminho. Carolina o acompanhou com os olhos, um sorriso insinuante nos lábios. — Interessante… o herdeiro Monteiro dando voltas pela cidade, de madrugada, só para falar com você. Helena suspirou, irritada. — Não é nada disso, Carol. — Ah, claro. — disse a irmã, em tom debochado. — Mas se você não quer ver, não tem problema. Eu vejo. E sei muito bem aonde isso pode me levar. Helena fechou o portão e entrou sem responder. Não tinha forças para discutir. Mas em seu coração, uma certeza crescia: Gabriel não era apenas um visitante passageiro. --- Na mansão Monteiro, a noite também era de vigília. Beatriz caminhava pelo corredor com passos firmes, a vela nas mãos iluminando os retratos da família que decoravam as paredes. Diante de um deles, parou. Era a foto de seu falecido marido, Álvaro Monteiro. Ao lado dele, ainda jovem, estava uma mulher que não era Beatriz. O retrato havia sido esquecido em uma caixa, mas Beatriz jamais tivera coragem de destruí-lo. — Por que voltou, Álvaro? — murmurou, encarando o sorriso da mulher da foto. — Por que, mesmo depois de tantos anos, seu passado insiste em assombrar o meu presente? Guardou a fotografia às pressas, quando ouviu passos no corredor. Era Rafael, sempre curioso. — Não consegue dormir, tia? Beatriz fechou o semblante. — Vá dormir, Rafael. Ele sorriu, malicioso. — O passado sempre deixa rastros. Eu vou encontrá-los. --- Na manhã seguinte, Helena recebeu a visita de Padre Augusto na confeitaria. Ele costumava passar por ali para tomar café, mas naquele dia parecia especialmente pensativo. — Minha filha, como você está? — perguntou, acomodando-se em uma das mesas. — Bem, padre. Trabalhando como sempre. Ele a observou com atenção. — Às vezes, vejo nos seus olhos perguntas que não são apenas suas. Helena franziu o cenho. — O que quer dizer com isso? Padre Augusto hesitou, como se estivesse prestes a dizer mais do que devia. — Apenas… tome cuidado com quem se aproxima de você. Vila Serena tem memórias que nunca foram apagadas. Antes que ela pudesse insistir, ele mudou de assunto e pediu um pedaço de bolo de fubá. Mas as palavras ficaram gravando na mente de Helena como um aviso. --- Naquele mesmo dia, Gabriel decidiu voltar à confeitaria — não apenas pelo bolo, mas pela presença de Helena. Ao entrar, percebeu os olhares curiosos dos clientes. O herdeiro Monteiro, sentado entre os moradores comuns, era um espetáculo para os fofoqueiros da cidade. Helena o recebeu com um sorriso tímido. — Hoje temos bolo de coco. — Então quero duas fatias. — respondeu ele, tentando suavizar o clima. Enquanto conversavam, Carolina servia as mesas vizinhas, mas não perdia uma palavra do diálogo. Em certo momento, inclinou-se para Gabriel e disse em tom baixo: — Espero que esteja à altura da minha irmã. Ele a fitou, surpreso pela ousadia. — Como assim? — Helena é sonhadora, mas vive cercada de dificuldades. Precisa de alguém que lhe mostre o mundo. — disse Carolina, com um olhar sugestivo. — E, se o senhor não fizer isso… alguém fará. Helena, que ouvira parte da frase, sentiu um frio na espinha. — Carol, vá atender aquela mesa, por favor. — disse, firme. Carolina obedeceu, mas com um sorriso enigmático. --- À tarde, Vicente apareceu na confeitaria com uma expressão carregada. Encontrou Gabriel lá dentro e sentiu o sangue ferver. Aproximou-se de Helena e falou alto o bastante para todos ouvirem: — Preciso falar com você. Sozinha. Gabriel levantou-se, educado. — Posso voltar outra hora. Helena, desconfortável, o impediu. — Não, Gabriel, fique. Vicente, se quiser conversar, será depois. A tensão no ar era palpável. Vicente apertou os punhos, mas não discutiu. Apenas saiu, lançando um último olhar carregado de advertência. --- Naquela noite, Helena não conseguia afastar da mente os acontecimentos do dia. Sentia-se dividida: de um lado, a segurança do afeto silencioso de Vicente; de outro, a intensidade do olhar de Gabriel, que parecia atravessar suas defesas. Sentou-se novamente na varanda, o caderno de receitas no colo. Ao abrir em uma página esquecida, encontrou uma anotação diferente, escrita pela mãe: "Nunca esqueça: o passado dos Monteiro toca o nosso. E um dia, esse elo virá à tona." Helena sentiu o coração gelar. — O que a senhora quis dizer com isso, mamãe? Enquanto encarava aquelas palavras, ouviu novamente passos na rua. Era Gabriel, caminhando em direção à confeitaria, como se a lua o tivesse guiado até ali. — Helena… — disse ele, parando diante do portão. — Preciso te ver. Ela ergueu os olhos, surpresa, o coração disparando. — Por quê? Ele respirou fundo. — Porque sinto que tudo faz sentido quando estou aqui. E, naquele instante, sob o luar que banhava Vila Serena, Helena percebeu que estava prestes a mergulhar em um amor tão doce quanto perigoso. Um amor que poderia revelar segredos capazes de mudar para sempre o destino de todos.
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