Narrado por Maria Liz]
Fechei a porta de casa e respirei fundo. O ar da manhã no morro era uma mistura de poeira, cheiro de café e o movimento dos moradores saindo para a luta. A padaria era o meu porto seguro, meu disfarce de normalidade. Era o meu cativeiro particular, mas também o meu campo de batalha.
Caminhei rápido, ignorando o pouco movimento na rua. Senti os olhares de algumas pessoas, mas elas desviavam rapidamente. A ordem do Talibã, mesmo que implícita, era clara: eu era dele, e por isso, intocável. Eu não sabia que ele tinha mandado os meninos me vigiarem, mas sentia o peso invisível daquela "proteção" sufocante.
A Padaria Sonho Doce ficava na rua principal. O sininho na porta tocou quando entrei, e o som foi como música para os meus ouvidos.
— Bom dia, Seu Ademir!
Seu Ademir, o dono, um homem baixo e gordinho com as mãos sempre cobertas de farinha, sorriu de orelha a orelha.
— Bom dia, Liz! Que bom que você voltou. Pensei que não veria mais você por aqui.
— Fiquei um tempinho distante, mas agora estou de volta para ajudar — respondi, sorrindo e indo direto para o quartinho dos fundos. Troquei de roupa rápido, vesti o avental branco, prendi o cabelo e lavei as mãos até tirar qualquer rastro da noite anterior.
A rotina era a minha meditação. O trabalho, o meu escudo.
Fui direto para a mesa de inox. Seu Ademir já tinha deixado a massa do pão francês pronta. Ela estava fria, lisa e elástica. Comecei a pesar as porções: cada uma com exatos 50 gramas. Meus movimentos eram rítmicos: amassar, enrolar, moldar. A concentração era total. O pão francês exige precisão no corte e na modelagem; eu sentia o fermento vivo sob a palma da mão. A textura da massa, a farinha sob as unhas, o ruído rítmico da espátula — tudo isso me ancorava na realidade.
Eu podia até pensar na violência da madrugada, no beijo e no tapa, mas a massa exigia atenção, forçando minha mente a ficar no presente.
Depois do descanso, pincelei água nos pães e os levei para o forno de lastro. O calor intenso que saía quando a porta se abria era acolhedor, um contraste puro com o fogo das balas que eu ouvi horas antes. A padaria abriu às 08:00 e o movimento começou. Atender os vizinhos, sorrir, entregar o troco... era a minha única interação social que não envolvia armas ou ordens.
— São dez pães, moça. Acabou de sair? — perguntou uma cliente.
— Sim, Dona Rosa. Quentinhos. Bom dia!
Cada sorriso forçado era um tijolo na minha parede de defesa. Trabalhei sem parar até o meio-dia. A exaustão física era bem-vinda; funcionava como um amortecedor contra a exaustão da alma. O Talibã, o gosto do beijo dele, o carinho inesperado... tudo isso ficava guardado no fundo da mente, abafado pela demanda dos pedidos.
Às 13:00, quando o Seu Ademir começou a preparar o almoço simples — arroz, feijão e ovo frito —, senti um alívio profundo. Eu passei a manhã inteira trabalhando, mas estava feliz por estar "livre" na minha rotina.
O Talibã podia mandar os "crias" me vigiarem, podia me assustar com a morte ou tentar me seduzir. Mas enquanto eu pudesse sentir o cheiro do fermento e o calor do forno, ele não teria o controle total sobre a minha vontade. Respirei fundo o aroma da comida. Eu tinha sobrevivido a mais uma manhã. Agora, era comer para me preparar para a próxima batalha que ele, com certeza, traria ao pôr do sol.