O fardo da beleza

1229 Words
Dalilah despertou de vez daquela letargia, inquieta. Havia assistido um pouco do filme Drácula com Nikolas na noite passada. Que coincidência bizarra! O docente continuou: — Fizeram o relatório de vinte páginas com a macroanálise? Os alunos negaram com a cabeça. Depois, o bonito educador observou Dalilah sentada perto da janela, assistindo à aula com a cabeça deitada na mesa, ainda exausta, mas pelo menos acordada, o que, considerando a noite que teve, já era lucro. — Caloura, te dou mais esta semana para fazer e entregar. Lembrando que sei a diferença entre o livro e o filme. Quero uma resenha crítica do livro. É manuscrita, no mínimo vinte folhas, com macroanálise de pontos relevantes. Se usar um computador e uma impressora, vou saber que foi só copiar e colar da internet discada. Pesquise em livros. Ela também lembrou que viu esse livro na biblioteca de Raven, junto aos das Crônicas Vampirescas da Anne Rice, Carmilla e mitos vampíricos. Nikolas devia mesmo estudar como ser um vampiro. Por que diabos ele teria tantos livros sobre o assunto se não fosse para elaborar o conceito? ... Na hora do intervalo, Dalilah sentou sozinha numa mesa que cabia mais dez alunos. Comeu tranquilamente o lanche que a universidade ofertava se pagasse quinze dólares de taxa: Coca Diet, hambúrguer, batata frita e ketchup numa bandeja. Estava profundamente entediada, cansada e se perguntava se tinha mesmo que ter o ensino superior. Dalilah sentia, em alguns momentos, que não fazia parte do mundo, mesmo estando nele. Parecia ser só uma observadora da humanidade às vezes. Além da música… Só quando conheceu Nikolas, a sensação de ser um peixe fora d'água passou. Ele parecia um alienígena como ela. Namorado, hein. Ela sorriu feliz ao se lembrar disso enquanto mordiscava seu hambúrguer de carne duvidosa. Era bobo se apegar assim, ela sabia, mas não era ele ser famoso e rico o que a fascinava. Era o jeito dele de parecer como ela, morto para a humanidade, a não ser que algo realmente o interessasse e o fizesse viver. Não entendia por que o odiava tanto antes. Parecia algo maior que ela. Como se Dalilah tivesse escutado de alguém que ele era uma pessoa r**m, até ela ir conviver com Niko e perceber que quem falou dele é que era r**m. Então, um jovem rapaz que parecia ser da mesa da panelinha dos populares parou à frente dela. Dalilah sentiu algo frio dentro de si, um alerta ecoando como um sino na cabeça. Já conhecia o tipo e ficou fria e muito c***l, preparando-se na defensiva. Ele a lembrava tanto Caleb que a menina se viu estremecendo inteira de pânico mudo. O rapaz tinha cabelo ruivo e porte atlético. Olhos verdes-esmeralda e algumas sardas no rosto. — Você quer sentar com seus veteranos, caloura? Vou pegar aulas com você de teoria literária. Você dormiu a aula toda. — Constatou o rapaz, gentil e adorável. Um d***o que se finge de anjo. Ela quis rir. É, já reconhecia bem o arquétipo. Dalilah sempre teve o fardo da beleza. A beleza também era um peso. Sabia que era bonita, mas isso a irritava mais do que a fazia convencida. Irritava porque as pessoas só viam o exterior dela e queriam se exibir por se aproximar dela ou então a evitavam por invejá-la. Muitas eram apenas tímidas para se aproximar, porque não enxergavam a própria beleza e se sentiam inseguras. Dalilah escutou um aviso ecoar em sua mente. Ele fez uma aposta com os amigos dele. Não deixe que ele se aproxime de você. — A aposta que fez com seus amigos de quanto tempo a caipira bonitinha aqui daria para você… saiba que a resposta é nunca. Eu tenho namorado e ele é bem ciumento e é louco por mim. — Respondeu ela, sinistra e defensiva. As mãos suadas no bolso da calça jeans, e ela se sentiu segura por estar usando a camisa de Raven. — Vaza. O garoto estremeceu inteiro, assustado. Afinal, como ela sabia da aposta tão nitidamente e usando as mesmas palavras que ele usou, se a mesa dele ficava distante da dela e havia uma algazarra de vozes no refeitório? Recuperando-se, ele tentou disfarçar… — Você não está se achando demais, não? A minha mãe é uma professora prestigiada e faz parte do conselho daqui. Você é de cidade pequena, só queria ser gentil. — Respondeu o menino, constrangido. — Se você não sair, eu saio. — Avisou Dalilah, indiferente. — Meu namorado mata pessoas. Ele é perigoso. — Sua v***a louca… — disse o menino, vermelho de ódio. — Quem você pensa que é para me ameaçar assim? Dalilah apenas o ignorou depois disso. Pegou sua bandeja da mesa, deixando-o sozinho, e jogou os restos de comida no lixo. Depois colocou a bandeja livre de sobras de volta à mesa inicial onde a pegou para se servir, ajudando as zeladoras que recolhiam as bandejas das mesas, e deu um sorriso gentil às cozinheiras e trabalhadoras que ficaram surpresas por uma estudante valorizá-las. Então, Dalilah saiu do refeitório. ... Quando as aulas acabaram, ela sentiu um alívio enorme. Foi até seu carro surrado. Notou que alguns alunos debochavam do seu fusquinha, mas não se importou e entrou. Então a menina partiu para casa, feliz por agora ter uma casa de verdade. Não que o bar fosse tão r**m. Como será que Sara e Luke, seus queridos amigos, estavam sem ela? (...) Quando Dalilah chegou à mansão, observou a mulher que limpava a casa, encerando o piso. A jovem, respeitosa, esperou do lado de fora para não sujar o chão. A trabalhadora a notou sentada na área aberta, observando a piscina, com a mochila nas costas e na parte que fazia sombra. — Você pode tomar banho de piscina se quiser. Foi limpa de novo hoje. — Não gosto de piscinas. Quer ajuda para arrumar a casa, senhora? — ofertou Dalilah, saindo de seus pensamentos e pegando a diarista de surpresa com a proposta. — Oh, não. Não, querida. Sou muito bem paga. Você não tem que fazer nada além de relaxar. Não tinha nenhuma bagunça da banda. Estranhei. Eles sempre deixam um rastro de pizza e refrigerante para trás. Foi você que arrumou e lavou a louça? Dalilah apenas moveu a cabeça em um “sim”. A senhora sorriu, comovida. — Obrigada. Isso já facilitou muito meu trabalho, querida. — De nada. É um prazer ajudar. — Respondeu Dalilah, educada. — Vou esperar secar para entrar. Sei como é terrível quando a gente está limpando e as pessoas ficam passando. Sou Dalilah. — Dulce. — apresentou-se a trabalhadora, com luvas amarelas e o cabo da enceradeira de piso nas mãos, comovida pelo respeito ao seu trabalho. — Você deve ser a nova dona dessa casa então… Dalilah corou fortemente. — Eu só namoro o Nikolas e sou a nova vocalista da banda. — Namorada? Ele disse: “Cuide bem da minha esposa. Ela comanda tudo.” no bilhete. Ele é antiquado, aquele rapaz. — respondeu a mulher, rindo para a menina. — Ele deixou ordens bem específicas no recado da geladeira para te ajudar com tudo o que precise e te tratar como a dona da casa quando ele não está. Sou uma reles empregada. Sei que você deve ser importante para ele, se mora aqui e ele te deu tanta autoridade.
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